Podemos ver o G-20 enfrentando os problemas e dizendo que já não querem ficar a mercê das decisões econômicas que esta globalização promulga a cada dia. Esses países já conseguem, pelo menos, por algum tempo, ficar de cabeças erguidas diante da crise que já é uma realidade. Diferente de outros tempos nos quais uma gripe no mercado mundial causava tuberculose nos países mais pobres. De fato, estamos vivendo novos tempos.
Para nós, os negros, isso tem, a cada década, se tornado realidade. Quem diria, por exemplo, que teríamos um menino negro vencendo a corrida mais importante da elite do automobilismo mundial? A vitória de Lewis Hamilton foi uma consagração da diáspora negra. Uma demonstração de que os negros podem ser bem sucedidos em qualquer esporte e em qualquer área da vida social.
Ter o Hamilton várias vezes no pódium me dava um orgulho muito grande. Confesso a todos (as) que estava torcendo por ele sempre. Mesmo quando tínhamos, como brasileiros, a possibilidade de ver um irmão nosso sendo consagrado na própria casa. Isso nos daria um orgulho espetacular. Imagina! Um brasileiro ganhando o campeonato aqui no Brasil! Seria demais. Mas, para mim foi. Foi maravilhoso ver um negro sendo consagrado campeão do mundo na F-1. Confesso que naquele momento, só pensei em torcer. E torci, para o Hamilton.
Sim. Sei que alguns poderão dizer, e acho até com certa razão, que eu cometi um erro grave. Como posso torcer por um inglês? Devia torcer pelo brasileiro? Devia torcer para que o nome do Brasil, mas uma vez, aparecesse na F-1, pois isso eleva o nome do país. Bem, poderia ouvir muitas coisas. Talvez até palavras de revolta por não ter me comportado como brasileiro. Acho até que se ouvisse, como acho que ouvirei ou lerei após este artigo, essas palavras teria que ficar quieto e aceitar todas as exortações e repreensões.
Entretanto, não podia deixar de torcer para que mais um negro entrasse na história. Para que mais um negro fosse tido como referência das crianças tanto negras como brancas. Não podia deixar de torcer que um negro fosse considerado exemplo de luta e de determinação. Fosse notado como outro negro inteligente e capaz de resolver problemas diante das pressões. Não. Não podia deixar de torcer por mais um negro que destrói toda as impossibilidades e às transforma em caminhos para a vitória na vida e demonstra isso de um jeito esplendido. Isto é, com sabedoria e tranqüilidade para todo o mundo.
O menino negro campeão (que, aliás, é o mais jovem campeão na história da F-1) não precisa ficar afirmando ser negro. O mundo já sabe disso. Mas, com certeza, no fundo de suas reflexões sabe o que representa para o mundo um campeão negro numa modalidade esportiva escassa de negros. Sabe o quanto essa vitória não é só sua, mas dos negros que sofreram as atrocidades da escravidão. O que ocorreu na sua própria terra (Inglaterra) e em todos os países onde esta prática hedionda fora praticada.
O jovem Lewis Hamilton sabe que ele representa uma imensa população que, ainda, vive nos porões da estratificação global e que, por isso, está distante das condições mínimas de sobrevivência no mundo todo. Ele sabe que é um marco no processo de conscientização mundial contra o racismo que trata negros e negras como inferiores, mesmo de forma velada.
Assistindo a corrida tive alegria de fazer parte desta rica população. Lembrei de nossos antepassados que não quiseram ser enquadrados no sistema opressor e promoveram revoltas, libertações e construções mais igualitárias de convívio.
Não quero deixar de ser brasileiro. Tenho orgulho disto também. Portanto, estarei torcendo pelo Massa no próximo campeonato. Este ano não dava. Tinha muitas coisas em jogo. A demonstração de força e garra no imaginário de todos os negros no mundo.

Pr. Marco Davi de Oliveira