Sem nenhuma intenção de ofender o cidadão Carlos Caetano Bledorn Verri, o treinador que dirige essa irreconhecível seleção brasileira de futebol, nem aos  animais da espécie equus africanus asinus, Dunga é burro. Simples, assim: além da cara enfezada que esbraveja palavrões à margem dos gramados, e da fama de mandão, Dunga é burro!

Percebe-se sua dificuldade em manejar a língua, as frases nem sempre conectadas com sujeito, verbo e predicado, sua difícil fluência verbal.

Não bastassem as limitações como treinador (a performance sofrível na Copa da África do Sul, em 2010, não o recomendaria para o cargo, não fôssem os esquemas conhecidos que comandam o futebol), esta semana, o técnico ofendeu a maioria da população brasileira, que é preta e parda, ao declarar: “Eu até acho que eu sou afrodescendente de tanto que apanhei e gosto de apanhar. Os caras olham prá mim: “vamos bater nesse aí”. E começam a me bater, sem noção, sem nada. “Não gosto dele” e começam a me bater”, declarou.

A declaração, além de burra, é uma confissão de ignorância e um ato falho.

Dunga, além de burro no sentido asnático mesmo, é ignorante na acepção da palavra ignorar. Sim, Dunga ignora. Ignora que este país ainda não ajustou contas com a herança do escravismo que por aqui se prolongou por quase 400 anos. O Brasil foi o último país do Planeta a abolir o trabalho escravo há 127 anos – uma abolição nunca concluída, cujos efeitos persistem em todos os indicadores sócio-econômicos em que os negros – 50,7% da população brasileira, de acordo com o Censo do IBGE 2010 – aparecem em desvantagem. Em tudo!

Dunga ignora até mesmo que a própria seleção que dirige é composta majoritáriamente por negros (e tem sido assim em toda a história da presença negra no futebol brasileiro) e, nesse sentido, ofende aos próprios atletas que dirige e atinge a autoestima desses mesmos atletas, mais do que nunca em baixa depois dos inesquecíveis 7 a 1 aplicados pela Alemanha na Copa de 2014.

Além de burra a declaração de Dunga é um ato falho porque ao considerar que se acha “afrodescendente de tanto que apanhou e gosta de apanhar”, comete um ato falho.

A declaração expressa a visão racista presente na sociedade que costuma desumanizar o negro, tratando-o, ora como “coitado”, “vítima”, o que “gosta de apanhar”, ora como suspeito-padrão. De qualquer crime.

É nesse sentido que a declaração de Dunga expõe o racismo mais tosco e sua visão distorcida e estereotipada a respeito da história e da realidade em que vive a maioria da população brasileira.

Tão burra foi a declaração que menos de 24 horas depois, o técnico voltou atrás e pediu desculpas: “Quero me desculpar com todos que possam se sentir ofendidos com a minha declaração sobre os afrodescendentes. A maneira como me expressei não reflete os meus sentimentos e opiniões”, afirmou constrangido.

Sim, Dunga, todos nos sentimos ofendidos com sua desastrada declaração. Sim, não aceitamos suas desculpas, porque elas não são sinceras. Sua declaração carrega subliminarmente o viés racista e a forma como boa parte da sociedade vê a população negra.

Não aceitamos suas desculpas porque como treinador da seleção brasileira você representa o Brasil em um esporte que, além de paixão nacional, é (ou pelo menos foi até os 7 a 1) orgulho do povo brasileiro. Esporte em que a maioria dos seus praticantes são pretos e pardos e – eles como todos nós – não gostamos de apanhar, embora as marcas das surras estejam presentes em nosso cotidiano.

P.S. O artigo foi escrito antes do vexaminoso resultado contra o Paraguai, que despachou o Brasil da Copa América. Ou seja: continuamos vivendo o pesadelo do 7 a 1 da Alemanha.

Dojival Vieira