A degração das condições políticas e do debate público no Brasil refletem, em certa medida, a morte do Jornalismo dito neutro, preso a uma falsa imparcialidade que dá o mesmo peso, valor e espaço, ao que é, intrínsecamente distinto, diferente; mistura alhos com bugalhos. 

É neste contexto que deve ser entendido o pedido, em tom de quase apelo, do candidato do campo democrático, Fernando Haddad, em coletiva deste domingo (14/10): "A Democracia está em risco, acordem!", pediu, após relembrar os mais de 50 casos de violência,  violência física – que já resultou na morte do mestre capoeirista Môa do Katendê, na Bahia – explosão indiscriminada de fakenews espalhadas por apoiadores do candidato da extrema direita, inclusive, por seus filhos, e pichação de igrejas católicas com a suástica nazista, entre outras barbaridades. 

A escalada de violência ganhou novo patamar neste final de semana, com artigo do "filósofo bolsonazista" Olavo de Carvalho, defendendo até a eliminação "física de adversários", em caso de vitória do candidato, o que provocou a reação indignada de Caetano Veloso, também em artigo na edição da Folha deste domingo (14/10) sob o título: "Olavo faz incitação à violência; convoco meus concidadãos a repudiá-lo".

Leia:

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2018/10/olavo-faz-incitacao-a-violencia-convoco-meus-concidadaos-a-repudia-lo.shtml

O Jornalismo impresso e o telejornalismo como o da GloboNews e das outras redes – inclusive da Record/Igreja Universal, do neo-bolsonazista, Edir Macedo – amarrados a uma suposta "imparcialidade", advogam a obrigatoriedade de se "ouvir os dois lados", fora de contexto e sem qualquer compromisso com a defesa de valores fundamentais na democracia. Com isso, fecham os olhos à violência que, nesta campanha, tem um lado muito definido: o do capitão reformado titular da chapa militar, defensor da tortura e que, por ora, está à frente das pesquisas.

Adotar a regra do "ouvir os dois lados", fora de contexto, resulta no seguinte: algoz e vítima, o torturado e o torturador, o opressor e o oprimido, devem necessariamente ter o mesmo espaço.

Imagine o repórter perguntando ao torturado: "O que você está sentindo neste pau-de-arara?"; e em seguida, ao torturador: "Onde o senhor aprendeu a técnica?", e por aí vai. Se tem alguma dúvida, veja se o jornalismo da GloboNews e seu time de analistas políticos, não faz exatamente isso, com tempo cronometrado.

É isso que explica o candidato que defende a tortura ter tido espaços generosos na TV. Segundo levantamentos, contou com, pelo menos, três horas de exposição só num canal, em especial, após o atentado praticado por um demente. Detalhe: não houve um atentado político; um desequilibrado mental foi atraído pela pregação e apologia da violência que o candidato faz, e acabou se voltando contra o próprio. Caso típico da confirmação do ditado popular: "quem semeia ventos, colhe tempestade".

Claro está que isso desequilibrou a disputa, colocou o extremista no segundo turno e pode levar o país inteiro para o abismo. Não há outra forma para explicar o porquê pessoas sensatas, a exemplo do que fizeram em 1.989, com Fernando Collor, passarem a ver no dito candidato, político há 28 anos, o novo "salvador da pátria" se proposta alguma ou projeto de país consegue vocalizar, sem pedir socorro a um economista metido em encrencas e investigado por fraudes e desvios no mercado financeiro.

Experimente tentar conversar com algum dos devotos do "messias" e se verá metido num diálogo de surdos. Você diz A e o interlocutor responde Z, como se falassem idiomas distintos. Não foi só o diálogo que se tornou impossível, foi a racionalidade mesma, pressuposto de qualquer conversa entre humanos , que desapareceu sem deixar vestígios. O risco está logo alí na esquina: todos sermos engolidos pelo tsunami de irracionalidade, em que o ódio passa a ditar as regras, bem ao estilo do que ocorreu com outro militar, o cabo Hitler, nos anos 30, na Alemanha nazista.

O mesmo vale para a afirmação de que há um clima de extremismo por parte dos dois candidatos. Não é preciso gostar do PT para constatar que isso, está longe de ser verdade. Existe um candidato extremista que defende a tortura e celebra torturadores e, claro que, a partir daí, a violência se instala, passa ao primeiro plano.

Contudo é o candidato extremista, porque extremista é, quem a desencadeia, não os dois, como se diz ou se insinua. A postura dos meios de comunicação de massa repete e reforça a lógica dos dois lados que é usada para favorecer o extremista, em detrimento de quem não está defendendo extremismo algum. É a clássica situação de alguém que sofre uma violência na rua ou em casa, o marido violento que bate na mulher, e o vizinho que ouve os gritos de socorro da vítima, sai para a rua dizendo que os dois se envolveram numa briga.

Por essa lógica, se Hitler fosse candidato nas eleições brasileiras, teria – como tem Bolsonaro – o mesmo espaço que os candidatos do campo democrático.

Fico imaginando os analistas da GloboNews, Gerson Camarotti, Andéia Sadi, Cristiana Lobo ou Valdo Cruz, pedindo a Hitler explicações sobre como executaria o projeto "Solução Final" (responsável pela eliminação física de 6 milhões de judeus); quem seriam os responsáveis pelos  campos e onde seriam construídos, com que capacidade etc etc; se também pretenderia mandar – "quando eleito" – só judeus, ou também negros, ciganos, homossexuais etc etc. Depois entrariam na tela Natuza Nery, de Brasília, ou Carolina Cimenti, de Nova York, fazendo as análises com a profundidade de poça d'água com que costumam dar o ar de suas respectivas graças.

Poderiam também pedir a Bolsonaro, por essa lógica de jornalismo destituído de valores e supostamente imparcial e neutro, como é que que pretenderia "fuzilar a petralhada". E reparem que nem essa pergunta -óbvia, já que a ameaça foi feita em público para apoiadores – ousaram os ditos analistas políticos fazer, muito provavelmente porque isso exigiria um tom mínimamente crítico, e destoaria do bom-mocismo jornalismo supostamente imparcial. 

Quando Mourão, o general-vice da chapa, foi perguntado sobre como poderia considerar herói o coronel Brilhante Ustra – sobre quem pesa a grave acusação de torturador nos porões da ditadura – não houve repto, nem questionamento.

É o que estamos assistindo neste momento grave: a morte do jornalismo dito imparcial e supostamente neutro. Jornalismo acrítico, sem compromisso com valores éticos, desprovido de qualquer humanismo, que faz perguntas, ouve as respostas sem questionamentos, não importa da boca de quem saiam – se de um torturado ou de um torturador.

No constrangedor episódio da entrevista com o general-vice, vimos uma balbuciante Miriam Leitão, lendo o editorial da emissora, que lhe era ditado pelo ponto, retrato eloquente de que a imparcialidade e a neutralidade desse tipo de jornalismo, nada mais é do que uma forma de mascarar de que lado se coloca.

Da próxima vez que alguém vier com essa conversa de jornalismo imparcial e neutro, não acredite. No mínimo, desconfie. Todos tem um lado, ninguém é neutro, inclusive o jornalismo imparcial e neutro.

Dojival Vieira