Pesquisa do IPEA – Instituto de Pesquisas Aplicadas – órgão do Ministério do Planejamento, que tem como título MOBILIDADE SOCIAL DOS NEGROS BRASILEIROS, de autoria do professor Rafael Guerreiro Osório, comprova que “ainda que se comparem brancos e negros de nível socioeconômico, persistem desigualdades entre eles inatribuíveis a outras fontes que não o racismo”.
Segundo o Estudo, que traz a análise dos trabalhos das relações sociais no Brasil entre as décadas de 40 e 50 e a partir do final da década de 70, a desigualdade racial tampouco deve ser atribuída apenas à herança dos mais de 350 anos de escravidão.
Guerreiro Osório, que é consultor da Diretoria de Estudos Sociais do IPEA, afirma no trabalho, que faz parte do Projeto Combate ao Racismo e Superação das Desigualdades Sociais e é apoiado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que há uma certa naturalização do racismo no país.
“A ideologia racista inculcada nas pessoas e nas instituições leva à reprodução, na sucessão das gerações e ao longo do ciclo da vida individual, do confinamento dos negros aos escalões inferiores da estrutura social, por intermédio de discriminação de ordens distintas, explícitas, veladas ou institucionais, que são acumuladas em desvantagens”, acrescenta.
Na cabeça das pessoas naturalizou-se a idéia, ao longo de mais de um século pós-abolição, de que o lugar da população negra no espaço social ou é a invisibilidade ou a condição subalterna. Tornou-se natural para o pensamento dominante, portanto, que o negro ocupe funções de baixo prestígio. É a mesma lógica que o torna o primeiro a ser tomado como suspeito pela Polícia; a mesmíssima lógica que o torna o último a ser contratado e o primeiro a ser demitido na empresa.
Estudo também recente da Professora Nadya Guimarães, da Universidade de S. Paulo, igualmente demonstra que, no Grande ABC, enquanto o tempo médio de permanência de um trabalhador negro é de 50 semanas, no caso de um trabalhador não negro é de 70.
O professor Guerreiro Osório, citando outros estudos publicados em 2.000 e 2.003, lembra que o quadro da mobilidade social revelado pela pesquisa pode ser assim resumido: “quando são tomados dois pais, um negro e um branco, ambos com exatamente a mesma condição social, se esta for baixa, o filho do branco terá melhores chances de ascender na estrutura social; se for elevada, o filho do negro correrá maior risco de descender na hierarquia”.
“Tal situação ocorrerá mesmo se esses dois filhos hipotéticos atingirem o mesmo nível educacional, o que pode não ocorrer, visto que há diferenças raciais na realização educacional que prejudicam os negros, para a vantagem dos brancos”, conclui.
O Estudo do IPEA expõe e bota por terra, o argumento surrado de alguns setores da sociedade – inclusive alguns ditos de esquerda – segundo o qual a questão de classe é central pois seria ela determinante para a exclusão racial. Segundo este argumento – tão falacioso quanto insustentável – se o negro está bem colocado na escala econômica e social, deixa de ser alvo do racismo.
O que todos os estudos revelam – inclusive este último do IPEA – é que o racismo no país, mesmo este hipócrita e dissimulado que freqüenta os salões e se faz passar por um senhor inofensivo e de bons modos, age de duas formas, igualmente perversas: primeiro, impede a ascensão, excluindo; depois, quando não logra êxito, expõe o negro ao risco maior de “descender na hierarquia”.
Um outro estudo do PNUD, também recentemente divulgado, revela que o maior entrave a que o país atinja, até 2.015 os oito objetivos do Milênio é o abismo da desigualdade social e econômica que separa brancos e negros.
De acordo com o Relatório Nacional de Acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas (ODM), enquanto a parcela de 1% da população mais rica é formada por 86% de brancos; entre os 10% mais pobres, 65% são formadas por pessoas pretas e pardas, vale dizer afrodescendentes.
O Relatório revela que a desigualdade e a exclusão começam na Escola: as diferenças começam já no Ensino Fundamental onde a quantidade de alunos brancos é de 94,7% contra 92,7% de pretos e pardos. Porém, é no Ensino Médio e no Ensino Superior que fica flagrante o efeito do racismo: os brancos são 52,4% contra 28,2% de afrodescendentes no Ensino Médio; no Ensino Superior o número de alunos brancos é cerca de quatro vezes mais que alunos negros – 15,5% contra 3,8%.
A defasagem na Educação acaba se reproduzindo no mercado de trabalho. Segundo o Relatório, mesmo com 12 anos de estudos, os pretos e pardos ganham quase 40% a menos por hora que os brancos com o mesmo tempo de formação. Em média, a remuneração dos trabalhadores brancos é duas vezes maior que a dos trabalhadores afrodescendentes. No caso da mulher negra a situação é ainda pior.
Por isso, quando ouvir a expressão “lugar de negro é na cozinha”, pode estar certo: não é não!

Dojival Vieira