Mas uma característica não era ainda conhecida no cenário mundial. Quem tem acesso a páginas de brasileiros no Facebook está lendo as mais espetaculosas postagens com mensagens intolerantes. Vale dizer que a tolerância e a democracia no Brasil são direitos muito recentes e o desconhecimento levará a sociedade a pagar sérios danos no futuro.
Você que lê este texto pode me perguntar:mas o que o Facebook tem a ver com intolerância e com a igualdade racial? Respondendo tua pergunta, dentro dos meus conhecimentos e de minha vivência em Comunicação Social, digo que as redes sociais no Brasil expressam o que o brasileiro pensa sobre religião, política e democracia.
A respeito da religião, as redes sociais são usadas para pregação pelos segmentos cristão-evangélicos e de defesa por parte dos seguidores das religiões de matriz africana. Os “crentes” batem e querem purificar a alma e salvar o Brasil das garras do Diabo.
Os adeptos da Umbanda, Candomblé e afins postam imagens de orixás e de práticas doutrinárias para marcar território, resistindo a todos os ataques que vem de segmentos contrários. No caso da política de cotas, quando o Supremo Tribunal Federal derrubou parecer de um partido político que considerava a aplicação da medida inconstitucional, pôde se assistir as mais rasgadas declarações contra as cotas raciais.
Deixou-se de falar em direito social e o debate ficou em torno da cor da pele. No Brasil miscigenado, ignorou-se os fatos históricos e as mazelas que a escravidão causou em nossa sociedade. Passou a valer a defesa de um sentimento oligárquico que sempre comandou o país. Os capitães do mato e os senhores de engenho invadiram a Internet para dizer que as cotas pregam o racismo e a discriminação, como se isto não existisse em nossa sociedade de forma informal.
O Rio Grande do Sul, considerado popularmente como um estado bairrista e racista é retratado nas redes sociais por sua cultura de formação intransigente. É normal ver cidadãos gaúchos rasgando o seu amor pela querência esquecendo que são brasileiros, por opção e por escolha.
Sim. Pois se voltarmos ao passado vamos lembrar que os gaúchos receberam da coroa espanhola todo o aporte para se unir aos “hermanos do Prata” e fundar uma grande nação hispânica no sul do continente. Mas o espírito brasileiro falou mais alto e não nos tornamos uma grande potência de língua espanhola.
Somos brasileiros com muito orgulho em algumas situações. Em outras, misturamos civismo com a indignação pela atuação da classe política e aí produzimos uma salada de sentimentos e emoções.
Esquecemos assim que somos brasileiros e que enviamos ao Planalto Central os representantes para elaborar e votar leis que norteiam nossas vidas. O racismo nosso de cada dia nas redes se apresenta quando negamos nossa brasilidade, mestiça, negra e indígena e fazemos coro a uma descendência européia, como se fossemos “um pedaço de lá nas águas do lado de cá”. Os que não se consideram brasileiros então agridem os que são e aí a confusão está armada. Pior que não discutir é postar mensagens alheias e de humor, como se vivêssemos em uma sociedade perfeita.
Diante disto, consigo entender a razão de Zuckerberg estar tão indignado. Será que rede social é para isto? Para integrar, trocar informações e sabedoria por bobagens e palco para toda a forma de intransigência?
Se o criador do Facebook está com os cabelos em pé, imaginemos nós, amantes e perseguidores da democracia e da liberdade de expressão? Se ainda temos cabelos, contamos não ter que assistir a mais episódios horripilantes para não perder o que resta da vaidade capilar. Eu mesmo fico apavorado quando vejo defesas rasgadas de ideologias políticas, religiosas e étnicas.
Vejo também na postagem de mensagens alienantes e alegres uma forma de manifesto. Ou seja, não estou nem aí para o que acontece e vou vender a idéia de felicidade como um antídoto a minha própria inércia. Em uma nova democracia, não sabemos realmente falar, não aprendemos a nos comunicar sem que haja a imposição de ideias. A venda de ideais que curam e que nos levam a um nirvana de felicidade e adequação a um sistema que busca manter, de forma desesperada, a sua identidade.
O sistema que falo engloba todos os valores que aprendemos a cultuar, como sendo certos ou errados. Eles têm base em dois segmentos: o capitalismo e o cristianismo. Sem o capital, sem o dinheiro você não sobrevive. Sem seguir o que os homens escreveram e disseram sobre o filho do Criador, Jesus Cristo, você não pode ser feliz, de forma alguma.
São estes os valores que norteiam e que pregam uma adequação. São estes os sentimentos que regem os seguidores das redes sociais. Usam do local para pregar, ou melhor, reproduzir aquilo que subliminarmente está imposto em suas cabeças e vidas. E todo aquele que vive ou que diz algo que difere dos padrões está condenado a viver em um exílio. Um cárcere no qual será acorrentado até que submerga e renasça. Renasça para uma vida de padrões altamente confiáveis e ofertantes de uma plenitude além do horizonte.
Sinceramente, sei para onde correr. Aproveito este espaço tão democrático o qual é uma coletânea, com autores e ideias tão diversas. Divulgo em público e impresso que agarro me aos meus conceitos e ações, as quais procuro defender o direito de ser negro. O direito de ver minha cultura e minha ancestralidade respeitada. De ser protestante em meio a uma unanimidade quase catequizada, no pior estilo. Defender é ser racista? Não. É ser xenofóbico? Não.
É ser os tantos fóbicos que existem por aí? Não. É simplesmente o direito de dar um basta a uma opressão que quer globalizar tudo, descaracterizando a essência das culturas e das formas de vida. Lutar pelo direito e pela preservação de suas origens é lutar por si mesmo. Não é ir contra a evolução. Pelo contrário. Evoluir é seguir em frente incluindo o passado que recebeu como herança. É o verdadeiro aprender.
Considero me feliz por estar em um mundo globalizado e ainda ter força e vontade de gritar contra a lapidação de um povo, o corte sangrento e mordaz do domínio sob nossas almas. Almas tão cansadas de apanhar e que querem receber um afago nesta nova fase da história mundial. Para quem me acompanha na rede social Facebook, muito obrigado. Vamos continuar juntos, unidos e caminhando para uma nova sociedade, sem esquecer a forma, a cor, a origem e o conteúdo.
O título do artigo é “A dura Face de um livro com o rosto quase globalizado”.

Oscar Henrique Cardoso