Está mais do que evidente que as multidões que ganharam as ruas (hoje em proporções muito menores que nas manifestações de 15 de março) tem um viés conservador explícito, exposto até no verde amarelo como cor oficial e pelas reivindicações que vão, da luta contra a corrupção, o impeachment da Presidente e a um liberalismo requentado, até a inusitada defesa de asilo político para o líder venezuelano, Leopoldo Lopez.

No Maranhão, por exemplo, o movimento se chama “Eu te amo, meu Brasil”, o que provoca calafrios a quem quer que tenha um mínimo de conhecimento e memória histórica. Dispensa comentários, já que nos remete de volta aos piores tempos da ditadura (período Médici), em que a tortura e o desaparecimento de brasileiros que se opunham ao regime militar se tornou política oficial do Estado.

Agora, pretender tapar o sol com a peneira, também não dá. Não é possível compreender como alguém que se pretenda de esquerda defenda – ou tente minimizar – o pior escândalo de corrupção da história do Brasil, como definiu o procurador geral da República, Rodrigo Janot.

Não é de esquerda quem minimiza, ou busca esconder a corrupção, venha de onde viver, seja deste ou daquele partido, petistas ou tucanos. Ao contrário, bandeou-se para outras bandas, mudou de lado. E por uma razão simples: ser de esquerda é estar comprometido com os excluídos, com os desfavorecidos, com os explorados, e a corrupção é – senão o pior – um dos piores dos crimes contra os mais pobres. Quem patrocina a corrupção, rouba na saúde, rouba na educação, rouba a sua dignidade como cidadão.

Tentar, como pretendem alguns, associar a indignação contra a corrupção, a crises de moralismo da classe média, ecoando o “lacerdismo” golpista do final dos anos 50 e início dos anos 60, uma das bases para o golpe militar de 1.964, é ignorância, pura ingenuidade ou má fé; ou as três coisas juntas.

O fato inarredável e inquestionável é que “nunca antes neste país”, a esquerda foi associada a corrupção, o que agora acontece por razões eloquentes, mais do que fundadas. “Mensalões” e “petrolões” não foram invenções do juiz Sérgio Moro, que conduz, até agora, de forma impecável, a Operação Lava Jato, que expõe o submundo do poder político no Brasil e que envolve – em maior ou menor medida – todos os partidos no poder, que tem seus principais líderes investigados.

Para um país em que a impunidade dos ricos sempre foi a regra, a ação do magistrado paranaense deveria ser saudada e apoiada nas ruas. Essa seria uma atitude que se podia espera de uma esquerda digna desse nome e dessa postura.

Mas, não é o que se vê. As manifestações em defesa da Petrobrás patrocinadas por movimentos sociais chapa-branca (CUT, CTB e outras centrais pelegas, além dos movimentos sociais como o MST e a UNE, há décadas transformada em aparelho do PCdoB, sem falar do movimento dos pelegos negros e dos “exércitos do Stédile”), subestimam a inteligência das pessoas minimamente informadas. Não houve nessas manifestações uma única faixa pedindo a condenação dos ladrões dos cofres públicos. Claro, nem poderiam fazê-lo, pois tem as mesmas digitais dos responsáveis pela corrupção como sistema para manutenção do projeto de poder.

São sectários. Não admitem que as pessoas que vão às ruas possam estar movidas por sentimentos genuínos de indignação. Vêem golpistas por toda a parte, inclusive debaixo das suas próprias camas. Esquecem as lições mais elementares de Paulo Freire, em “A Pedagogia do Oprimido”, supondo-se que tenham lido.

Dizia Paulo Freire: “O sectário, por sua vez, qualquer que seja a opção de onde parta na sua “irracionalidade” que o cega, não percebe ou não pode perceber a dinâmica da realidade ou a percebe equivocadamente. Até quando se pensa dialético, a sua é uma “dialética domesticada”. Esta é a razão, por exemplo, porque o sectário de direita, que, no nosso ensaio anteiror, chamamos de “sectário de nascença” pretende frear o processo, “domesticar” o tempo e, assim, os homens. Esta é a razão também porque o homem de esquerda, ao sectarizar-se, se equivoca totalmente na sua interpretação “dialética”, da realidade, da história, deixando-se cair em posições fundamentalmente fatalistas. Distinguem-se, na medida em que o primeiro pretende “domesticar”o presente para que o futuro, na melhor das hipóteses, repita o presente “domesticado”, enquanto o segundo transforma o futuro em algo preestabelecido, uma espécie de fado, de sina ou de destino irremediáveis. Enquanto, para o primeiro, o hoje ligado ao passado é algo dado e imutável, para o segundo, o amanhã é algo pré-dado, prefixado inexoravelmente. Ambos se fazem reacionários porque, a partir de sua falsa visão da história, desenvolvem um e outro formas de ação negadoras da liberdade”, afirma um dos maiores pensadores brasileiros, lamentavelmente esquecido. (Pedagogia do Oprimido, pág. 26 – Editora Paz e Terra, 1.987).

Não é de esquerda quem defende um projeto de Governo que fracassou. E mais do que isso: traiu as gerações de brasileiros que apostavam na mudança das estruturas arcaicas que há séculos são mantidas à custa da exploração das maiorias, pobres negros. E o pior: fez isso se associando ao que há de pior na política brasileira – Maluf, Collor, Sarney e outros menos votados, representativos da elite sanguessuga que mantém milhões no atraso e na miséria.

A emergência das multidões que saem às ruas de verde e amarelo (não importa se em maior e ou menor número) contra a corrupção deve ser considerada por qualquer pessoa que se pretenda de esquerda, porque ressalta o fracasso do projeto que há 12 anos está no Governo, e não fez as mudanças que dele se esperava.

Apenas fingir ou tergiversar que são de “direita” é puro escapismo.

A verdade é que essa concepção de “esquerda”, que utiliza o conceito de direita para tudo o que lhe contraria, é anti-dialética, anti-marxista e autoritária, e ecoa a pauta do século XX, contemporânea da guerra-fria, que acabou em 1.989, com a queda do Muro de Berlim. É autoritária, quando não descamba abertamente para o stalinismo mais sombrio com suas mazelas, como o culto à personalidade. Quem tem dúvidas disso, convido a tirar a prova: experimente fazer críticas a Lula, essa espécie retardada de “guia genial dos povos” dos trópicos, e prepare-se para ser visto e tratado como herege.

É anti-dialética quando recusa a reflexão, a crítica e a autocrítica

Essa esquerda não nos representa, nem a mim, nem a todos, sejam socialistas, comunistas e ou liberais, ou não tenham posição ideológica assumida – os que continuarão lutando por uma sociedade sem corrupção, com justiça, igualdade e direitos para todos os que vem tendo os seus direitos há séculos, negados.

Cecília Meireles tem um verso emblemático: “a vida só é possível reinventada”. Para nós, da esquerda que não mudou de lado, deveria servir de inspiração: a esquerda só é possível reinventando-se.

Voltar a disputar as ruas com posições objetivas concretas, não tergiversando, nem tangenciando os problemas reais do país – a começar pela condenação explícita da corrupção e a defesa da convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte para a realização das reformas que vem sendo adiadas há séculos – diante do esgotamento do atual sistema político-eleitoral e partidário e do modelo de governança iniciado por FHC, em 1.995, e continuado por Lula e Dilma – pode ser um bom começo.

Dojival Vieira