Como prova disso, menciona supostas “ameaças” (sem dizer quais seriam) aos autores da coletânea Divisões perigosas: políticas raciais no Brasil contemporâneo, recentemente publicada, juntamente com trechos de uma entrevista concedida pelo antropólogo Júlio César de Tavares ao jornal O Estado de São Paulo, além da explorada declaração da ministra Matilde Ribeiro à BBC. Tudo isso hiperbolicamente ilustrado por uma foto de livros sendo queimados, ao estilo nazista.
Não é de hoje a tática de acusar os negros anti-racistas de defenderem um “racismo às avessas”. Mais de 50 anos atrás, intelectuais e políticos como Gilberto Freyre e Afonso Arinos já manifestavam sua preocupação com o “racismo negro”. Esta voltaria a se expressar na década de 1970, tendo como alvo dessa vez os jovens negros freqüentadores dos bailes de soul, que Freyre identificava como resultado de uma espécie de conspiração envolvendo, simultaneamente, americanos e soviéticos (no auge da guerra fria!). O texto de Veja desta semana, assim como a polêmica em torno de uma declaração da ministra Matilde Ribeiro, poucos meses atrás, constitui uma atualização desse discurso supostamente anti-racista que visa funcionar como elemento de imobilização da militância negra e, ao mesmo tempo, criar um caldo de cultura desfavorável à concretização política de suas idéias, associando-as a um dos fantasmas de nosso quotidiano: a violência. É também manifestação do desespero de uma elite intelectual que assiste, ainda em vida, à agonia de suas idéias e à perspectiva de se ver afastada de um protagonismo agora reivindicado por seus antigos objetos de estudo. Enredados em suas próprias contradições – como, por exemplo, atacar o conceito de raça simultaneamente defendendo a miscigenação, ou mistura de raças (!!!), ou sustentar que é impossível identificar quem é negro quando se trata de ação afirmativa, mas reconhecer que os negros são discriminados, logo, identificáveis – e carentes de propostas minimamente consistentes para enfrentar a discriminação racial, alguns membros dessa elite adotaram a tática de se fazerem de vítimas, identificando supostas ameaças pessoais em frases irônicas ou iradas de militantes negros, devidamente descontextualizadas.
Nós, militantes do movimento negro, jamais agredimos fisicamente quem quer que fosse, nem tampouco é nossa prática queimar livros. O fato de negarmos a nossos adversários a reverência com que se acostumaram a ser tratados por seus humildes objetos de pesquisa ao estudarem favelas, terreiros e escolas de samba, e de rejeitarmos os rapapés hipócritas de uma certa etiqueta acadêmica, não nos transforma em indivíduos violentos e antiéticos. Se assim não fosse, teríamos divulgado uma informação de que dispomos faz algum tempo, referente à condenação, pelo TCU, de um de nossos mais conhecidos adversários, sob a acusação de desviar verbas destinadas à reforma de uma instalação universitária. Mas nosso campo de batalha é outro. Buscamos debater nossas idéias com os partidos políticos, a mídia, os sindicatos, a academia, as igrejas, além de organizações internacionais como a OIT, a UNESCO, a OEA. E também com grandes empresas, que começam a implantar programas de promoção da diversidade para negros, mulheres, portadores de deficiência e outros grupos tradicionalmente discriminados, como tive oportunidade de verificar semana passada, numa visita à sede da Eletrobrás na companhia do professor Hélio Santos – neste caso, significativamente, atendendo exigência da Bolsa de Valores de Nova York, onde essa empresa pretende lançar suas ações. Temos muitas razões, enfim, para comemorar. O que ganharíamos recorrendo à violência?
O problema é que o mundo está mudando, e nossos adversários não se deram conta disso. Presos ao passado, tentam a todo custo defender um status quo que (por pura coincidência, como nos querem fazer crer) os beneficia. O fato de alguns deles pretenderem apresentar-se como vítimas de uma violência hipotética só aumenta a indignação de quem está acostumado a sofrer a violência concreta, quotidiana, podendo até ser morto, como vimos recentemente, na tentativa banal de entrar num banco. Monitorar um site de discussão da discriminação racial à cata de palavras ou expressões passíveis de serem distorcidas com a finalidade de provar o caráter violento da militância negra é apenas mais um degrau na trajetória descendente de intelectuais que deveriam, eles sim, respeitar seu próprio legado. Mas, pensando bem, deve ser duro ver suas idéias serem despejadas no aterro sanitário da história.

Carlos Alberto Medeiros