Wynton Marsalis é uma das personalidades mais importantes do século XXI. O músico se destaca no cenário internacional por razões que vão além da sua extraordinária competência de músico, compositor e arranjador. Sua contribuição como educador, empreendedor e narrador do ambiente cultural em que nasceu e se criou, faz dele uma personagem com a qualidade necessária para ser acolhido entre os grandes da história da cultura.

Nascido em New Orleans, em 1961, filho do respeitado professor Elis Marsalis, Wynton vive o ambiente musical do Jazz desde o primeiro minuto de vida. Na mais importante e abrangente obra audiovisual a respeito da música norte-americana, o documentarista Ken Burns o elegeu como narrador principal da história do Jazz. O profundo conhecimento histórico de Marsalis o habilita a demonstrar as relações da música com a história social norte-americana, além de demonstrar alguns aspectos da evolução estética do gênero desde o seu início.

A orquestra Jazz at Lincoln Center (JALC) é uma embaixada cultural do seu projeto de criar uma instituição que congrega uma sala de concertos e uma escola de formação musical. Mais do que isso, é uma embaixada da cultura norte-americana surgida da arte iniciada pelo povo negro que se estabeleceu nos Estados Unidos.

Reúne alguns dos músicos mais renomados no cenário do jazz atual, mesclando jovens como Chris Crenshaw (nascido em 1982) e a vasta experiência de Joe Temperley (nascido em 1929), que não viajou com a orquestra provavelmente pela idade avançada.

Diferentemente das embaixadas governamentais oficiais norte-americanas, que operam o jogo dos interesses políticos, a orquestra de Marsalis é uma embaixada do bem. É uma porta de diálogo de povo para povo.

É essa a orquestra que está atualmente em turnê pelo Brasil, no contexto do Brasil Jazz Fest. Houve apresentações no Rio de Janeiro e em São Paulo. A próxima cidade a recebê-la será Recife, no dia 1 de abril.

Em São Paulo, o concerto da noite de sábado (28/03) foi na Sala São Paulo. A audiência assistiu a um show impecável, com um repertório diversificado. O jazz de várias épocas e estilos e o blues formam o principal do set list tradicional da JALC, mas nessa noite Marsalis incluiu a música “Coisas Nº 2”, do formidável compositor e arranjador pernambucano Moacir Santos.

É impossível dizer qual foi o ponto alto do show que permitiu a cada músico, como Walter Blanding (sax tenor), Paul Nedzela (sax barítono), Ali Jackson (bateria), Ryan Kisor e Marcus Printup (trompetes) apresentar suas habilidades em solos que transcendem a técnica e alcançam a essência do jazzista: a alma. O trio de trombones formado por Crenshaw, Vincent Gardner e Elliot Mason produziu um diálogo impressionante em “I Hear Music”. Mas houve um momento em que a audiência entrou em estado de contrição. O blues interpretado por Sherman Irby (sax alto) foi arrebatador.

Na manhã de domingo (29/03), em show aberto para o público num Ibirapuera lotado, a orquestra abriu o concerto com “Bebê”, de Hermeto Paschoal, o que já sinalizava um repertório diferente da véspera. Quando novamente homenageou Moacir Santos, o tema escolhido foi “Coisas Nº 8”, tendo como convidado o percussionista brasileiro Ari Collares.

Novo arrebatamento com Sherman Irby e solos impressionantes com Crenshaw, Mason, Ted Nash (sax tenor), Victor Goines (sax alto) e Kenny Rampton (trompetes).

A base rítmica, composta pela bateria de Ali Jackson, o piano de Dan Nimmer e o baixo de Carlos Henriquez oferecem aos outros integrantes absoluta segurança e precisão, além de serem também protagonistas de solos de altíssimo nível. Henriquez é jovem, como Crenshaw, e também impressiona.

É um privilégio imenso poder assistir a um concerto da orquestra de grandes músicos dirigida por Wynton Marsalis. Tive a sorte de constatar que, além de um ser humano que compreende a seriedade e importância do seu trabalho, trata-se de um cara gentil, generoso e muito bem humorado.

Crédito das fotos: Sandro Cajé

 

Sandro Cajé