O problema é que a jornalista Mirella Cunha ganhou o status de ‘bode de expiatório’ do mau jornalismo. Seu nome quase virou sinônimo de irresponsabilidade, discriminação e preconceito nos muitos veículos da imprensa que repercutiram o caso. Como se nós – os jornalistas comprometidos com a democracia e liberdade de expressão – fossemos os bastiões da liberdade e da ética no trato das notícias que envolvem pretos e pobres neste país. É exatamente isso que me incomoda.
Parece que de uma hora para outra ficamos (menos a Mirella) isentos de nossos preconceitos diários e cotidianos. Entendemos todos (menos a Mirella), de uma vez por todas, que a desigualdade social no Brasil tem cor e território. Enfim, somos (menos a Mirella) defensores das Ações Afirmativas, lutamos pelas reparações necessárias pelos 353 anos de escravidão, admitimos que os déficits existentes e sistematicamente auferidos entre os ditos brancos em relação aos negros é um dos reflexos deste período. Compreendemos (menos a Mirella) que as falsas teorias de superioridade moral e de inteligência entre as raças (brancas e negras) são, verdadeiramente, falsas.
A postura da repórter da TV Bandeirantes é indefensável. Mas, Mirella é também um reflexo. Pelo que pude analisar, trata-se de uma foca, recém-saída da faculdade de Comunicação Social (não posso imaginar que ela não tenha concluído o curso superior). Enfim, uma jovem que, por se enquadrar nos padrões televisivos de beleza e imagem, foi armada de um microfone e coroada por uma câmera – que a endeusou. Mirella é o retrato de milhares de jovens recém-mau-formados, que buscam uma oportunidade no tão concorrido mercado de trabalho. Afinal de contas, este é o objetivo maior da grande maioria das instituições de ensino que ‘formam’ os jornalistas.
A ânsia em industrializar o nosso texto, em programar nossas mentes e corações para apurar, pautar, mexer naqueles milhares de botões das mesas de áudio, de vídeo, em nos familiarizar com os PM5s da vida, com os mais sofisticados programas das redes sociais – para estarmos cada vez mais aptos às exigências do mercado – fez com que uma parte considerável da formação dos peões da notícia fosse esquecida. Não conheço – e isso não significa dizer que não existam – faculdades de comunicação que invistam pesado na qualidade humana de seus alunos. Este é um lado das muitas discussões que nos afetam diretamente que quase não é tocada. A fragilidade da capacidade crítica dos jornalistas é um assunto quase tabu entre nós. Principalmente quando trata da maior parte da população brasileira – aquela formada por negros e pobres.
Desconheço também um programa de computador, uma mesa de áudio ou uma ilha de vídeo, que apure uma pauta ou escreva um texto – por mais insignificante que seja – sem a capacidade (humana) de refletir sobre os fatos. Mesmo que, conscientemente, esta reflexão esteja a serviço dos veículos (a forma concreta do ente mercado) e comandada pelos interesses das linhas editoriais as quais estamos submetidos.
Ora, ao fim e ao cabo, as faculdades de Comunicação Social têm servido aos interesses do mercado e não aos da sociedade. Formar profissionais críticos, que conheçam a fundo os temas macro que pautam e polemizam o mundo contemporâneo ou que, com mais humildade, localize o papel do jornalista como o contador das histórias do cotidiano, tem passado longe dos cursos que ainda ‘diplomam’ os coleguinhas. E, claro, esta má formação (que pode acabar em deformação, no caso da defenestrada Mirella) está presente nas grades, programações e conteúdos de muitos dos nossos oráculos noticiosos. Parece que preconceito, ignorância e irresponsabilidade vendem mais que o tratamento digno e ético com o público. Uma lástima.
Mirella, ao cometer a descortesia de falar em frente às câmeras o que passou a vida inteira aprendendo, expos uma chaga comum a (quase) todos nós: o racismo perpetuado nos muitos ambientes sociais brasileiros, cuja a faculdade não teve interesse em desconstruir. Neste caso, tem sobrado hipocrisia e faltado reflexão.

Rosiane Rodrigues