Serra simplesmente ignorou um Plano de Ações Afirmativas gestado em 2.003 pelo seu antecessor, Geraldo Alckmin, que, se não era lá nenhuma “brastemp”, ao menos apontava um caminho, uma preocupação para com a situação de desvantagem do “país” de negros que existe em S. Paulo.
Mais do que isso: manteve o Conselho da Comunidade Negra – órgão que já teve alguma importância em passado remoto -, sob a orientação da Secretaria de Relações Institucionais, chefiada pelo presidente do PSDB paulistano, José Henrique Reis Lobo, orientação agora modificada com a transferência do colegiado para a Secretaria da Justiça e Defesa da Cidadania.
Lobo é o mesmo que, há dias, envolveu-se no tremendo imbróglio de dizer que, embora fôsse delas simpatizante, achava que “ações afirmativas só em 500 anos” – declaração que tenta, sem sucesso, desmentir, uma vez que a resposta veio 15 dias depois, embalada em ataques a conselheiros dissidentes e a nós da Imprensa que, só podem atestar desinformação e a péssima assessoria de que se valeu.
Em recente entrevista a Afropress, o ex-Secretário de Justiça, Hédio Silva Jr., ex-candidato a deputado federal pelo DEM e hoje ligado politicamente a Alckmin, chamou a atenção para um detalhe revelador: é preciso ver o Brasil para além da Av. Paulista, disse Hédio. “Não compreender o avanço da luta contra o racismo e o espaço crescente que este tema vem ocupando na agenda política do país pode custar caro para alguém que pretenda pensar o Brasil para além da Av. Paulista”, completou.
Os problemas de Serra são de dois tipos, igualmente graves: falta-lhe sensibilidade para compreender a necessidade de uma nova agenda que compatibilize a defesa das políticas de caráter universalista, com uma agenda positiva para segmentos da população que amargam desvantagens seculares, como a população negra; mantém como operadores das políticas para esse segmento, lideranças que ainda mantém a cabeça no circuito Casa Grande/Senzala e agem como se portadores desta última fossem.
A performance dessas lideranças na recente crise envolvendo as declarações do próprio governador, que condenou políticas com recorte étnico/racial – vale dizer as cotas e ações afirmativas – e do seu Secretário Reis Lobo, não deixa dúvidas quanto ao papel que cumprem e exercem com denodado zelo e doses cavalares de servilismo e subserviência. O Tucanafro – o puxadinho reservado aos negros tucanos, eventualmente útil em campanhas eleitorais – não conta, dada a inexpressividade e inação.
Enquanto se servir de assessores com esse perfil, incapazes de romper com a cultura do servilismo, o tucanato estará em maus lençóis e terá que amargar o desgosto de Convocar uma Conferência Estadual, pela Secretaria da Justiça, e ver apenas dois delegados seus indicados para representá-los em Brasília, na Conferência Nacional. E ainda assim, por concessão e beneplácito das correntes de oposição majoritárias, em especial, a UNEGRO, ligada ao PC do B – e a CONEN – uma espécie de confederação de entidades – todas de oposição ao Governo tucano.
De pouco adiantará mudanças cosméticas e de afogadilho como as feitas recentemente no auge da crise, quando o governador mandou a Assembléia Projeto de Lei de combate à discriminação racial, adotando multas pecuniárias para crimes de racismo, e transferindo o próprio Conselho para a Secretaria da Justiça, além da criação de uma Coordenação de Políticas para a População Negra e Indígena, cujo titular é, até o momento, ignorado. Tais ações fazem parte da mesma lógica: apagar labaredas, sem eliminar as causas do incêndio.
O mais grave é que, para ser justo com a história, há tucanos de variadas corolações no trato da questão étnico/racial brasileira. Desde o ex-presidente do Conselho da Comunidade Negra, Hélio Santos – tido e havido como amigo de tucanos ilustres como o próprio Serra e Fernando Henrique – até este último, que adotou o Plano de Ações Afirmativas no Governo Federal, a partir de 2002, responsável pela implantação de cotas nos Ministérios, política posteriormente abandonada no atual Governo.
O que se passa em S. Paulo, em verdade, é a mistura explosiva de insensibilidade, incapacidade para adotar ações, e más escolhas de operadores políticos que estão deixando o governador Serra sem discurso para os negros em 2.010.