É esse reconhecimento e a firmeza de seus princípios que levam o Orúnmilá a continuar o embate cotidiano, o enfrentamento do racismo, da discriminação e da desigualdade em todas as instâncias e em todos os momentos.
As diferentes formas de atuação e de camuflagem do pensamento racista não impedem que seja ele detectado por uma entidade que ganhou vasta experiência de luta e ação política. E uma das formas que mais camufla é aquela chamada, por muitos autores, de “racismo institucional”, ou seja, o racismo de caráter cordial que, de forma consciente ou não, permeia as instituições públicas ou privadas e que insiste em permanecer e se reproduzir ao longo dos séculos inibindo o avanço do pensamento anti-racista, as conquistas das Comunidades Negras organizadas e, ao mesmo tempo, tentando impedir que os negros sejam sujeitos da sua história, protagonistas das suas ações e de suas manifestações culturais.
Foi com esse pensamento que o Orúnmilá reagiu com indignação a um texto produzido pela Secretaria Municipal da Cultura e impresso no folheto que apresentou o CD do Carnaval de 2007 de Ribeirão Preto. O referido texto, após um confuso recorte sobre o conceito de cultura, que inclui a idéia de mercado misturada à de cidadania, termina afirmando que o Carnaval é “oportunidade ímpar de miscigenação no processo civilizatório nacional e local”. A essa apologia da miscigenação, no seu sentido ideológico e político, o Orúnmilá respondeu em uma de suas faixas do Afoxé Omó Orúnmilá: “Miscigenação não é civilização! É assassinato étnico-cultural”.
Claro que nem o texto nem o Orúnmilá referiam-se ao aspecto biológico da miscigenação. Trata-se do aspecto ideológico e político do termo e da proposta apresentada no texto. Somente quem desconhece as diferentes fases da luta do povo negro no Brasil não entendeu o sentido político da frase levada a público pelo Afoxé. A proposta de “miscigenação”, mais ainda quando aliada a de “civilização”, foi uma das principais armas do pensamento racista e conservador para eliminar “as raças inferiores”, índios e negros no caso do Brasil. É a partir dela que surge o que ficou conhecido por “ideologia da miscigenação”, um ardil de caráter eugênico racista que teve nos escritores Nina Rodrigues, Oliveira Viana e Gilberto Freire seus maiores entusiastas.
Grosso modo, a “ideologia da miscigenação” buscava um “branqueamento” dos moradores do Brasil na perspectiva de se construir a “Nação Brasileira” e uma “identidade nacional” de um país mestiço, moreno ou, de forma mais pejorativa ainda, um país “mulato”. Acreditavam seus ideólogos que, dessa forma, o país poderia ser “uma nação civilizada”, nos moldes das sociedades ocidentais e cristãs da Europa.
Por essas características, a “ideologia da miscigenação”, além do seu caráter endógeno, tinha, e tem, um forte viés nacionalista assemelhando-se, nesse aspecto, com o fascismo de Mussolini, com o nacional socialismo (nazismo) alemão e o com o fascismo brasileiro representado pelo nacionalista e integralista Plínio Salgado.
“Branquear”, “civilizar”, “catequizar”, e “ocidentalizar”, na prática, são um atentado à idéia de país multicultural, à idéia da diversidade e ao respeito às diferenças. Apontam, em última instância, para o desaparecimento dos povos não brancos e das respectivas culturas não ocidentais. Trata-se da eliminação “do outro” que se apresenta como insuportável pelas suas diferenças e pelas suas qualidades incompreensíveis para os olhos daquele que se pretende dominante e hegemônico. “Civilizar” o outro, sob uma ótica única, é desconsiderar a existência de outras civilizações e o poder de emancipação de outras culturas.
Posteriormente, a antiga idéia de “miscigenação nacional” foi substituída pela não menos nefasta idéia de “democracia racial”. Tanto as teses da “miscigenação” quanto as da “democracia racial” foram corajosamente combatidas no Brasil por pensadores de diferentes matizes ideológicas, mas todos com postura anti-racista e anti-fascista, como Octavio Ianni, Kabenguelê Munanga e Henrique Cunha entre outros.
Mas, pelo que se tem visto, continuam necessitando de combate mesmo nesses tempos em que a comunidade negra tem conquistado importantes espaços no campo da educação, da saúde e em outras instâncias institucionais e na sociedade civil.
Por essas e por outras razões, impossíveis de serem enumeradas e analisadas neste espaço, dado sua complexidade e grandeza, que o Centro Cultural Orùnmilá não teve dúvida em colocar em público que a “ideologia da miscigenação” não é sinônimo de civilização mas sim de assassinato étnico-cultural. Por essas e por outras razões que o Orùnmilá continuará seu combate ao racismo, seja ele cordial ou institucional, seja ele camuflado ou declarado.
Axé para todos nós! Orùnmilá Babá Mó!

Paulo César Pereira de Oliveira