Ela chama-se Rita Bosaho, é natural da Guiné Bissau e está prestes a assumir uma cadeira como parlamentar na Câmara dos Deputados da Espanha. Sua posse no Parlamento espanhol apresenta três aspectos importantes: o primeiro de gênero, por ser mulher e aumentar a representatividade das mulheres naquela câmara, o segundo e terceiro, por razões étnicas.

Rita é negra (a primeira de sua cor na História do Parlamento espanhol) e imigrante. Ela se elegeu pela cidade de Alicante, na região de Valência, onde mora há 20 anos. Chegou à Espanha na década de 70 e militou em diversas organizações de defesa dos direitos dos imigrantes.

A ocasião de sua posse (ela assume em 13 de janeiro) é propícia para levantar diversos assuntos, entre os quais, o fato da sub-representação dos negros na política e na vida cotidiana tal como protagonistas que deveriam ser e não o são por razões ligadas diretamente à questão racial. Mas esse tema merece um artigo à parte, tal a sua relevância e questões envolvidas.

Por ora, quero me ater ao tema imigração que vem atraindo a atenção de todos, incluindo o de nós brasileiros, tal qual é a quantidade de pessoas que para cá tem vindo. Na realidade, apesar de expressivo, em termos comparativos, o número de imigrantes que recebemos está bem aquém do de outros países.

Em 2013, a ONU estimou em 230 milhões o número de imigrantes estabelecidos, principalmente, nos Estados Unidos, Europa e Países do Golfo Pérsico. Só no início de 2015, mais de meio milhão de pessoas cruzaram as fronteiras europeias, devido a conflitos regionais. A situação mais complicada se encontra na Síria, de onde fugiram mais de 4 milhões de pessoas, desde o início dos conflitos naquele país, em 2011.

Esse enorme contingente de vidas foi obrigado a abandonar os seus lares, escolheu ou foi compelido a se deslocar para países de culturas muito diferentes do que a sua. Muitas estão no Brasil, que além de sírios, recebeu imigrantes de países africanos e do Caribe. Elas estão de passagem para outros destinos, mas um grande número deseja ficar por aqui, criar raízes e se integrar aos nossos costumes.

O Brasil tem a tradição de acolher os que vêm de fora, em diferentes momentos de nossa história, e isso tem contribuído para reforçar nossa identidade multicultural. Dizemos de boca cheia e em bom som que não fazemos discriminações de raça ou gênero, o que não é bem assim. Há muita intolerância a ser vencida. Não somos um país isento de racismo e manifestações do gênero ocorrem com mais frequência do que se pensa. Muitos dos episódios recentes envolvem imigrantes.

A contribuição da imigração no desenvolvimento das nações é fato comprovado.  Foi assim no passado, no desenvolvimento da nossa economia agrícola, e pode se repetir considerando nossas necessidades no campo da tecnologia e da mão de obra qualificada. Na recente leva de imigração do Oriente Médio, África e Caribe, muitos dos imigrantes que aqui chegaram apresentam alto nível de qualificação profissional e cultural, mas não conseguem empregos a altura de sua formação.

O Brasil é o país das portas abertas, mas falta-nos implantar uma política responsável de imigração, desburocratizada o suficiente para propiciar de forma rápida a documentação do imigrante para que ele possa se integrar ao mercado de trabalho, sustentar a si e a sua família. Isso inclui o ingresso no sistema educacional e de saúde, a equivalência dos diplomas de formação dos países de origem, a emissão de carteira de trabalho, entre outras providências básicas.

Entretanto, um dos direitos fundamentais, principalmente para as gerações que aqui já estão consolidadas, têm famílias constituídas, filhos nascidos no país, ainda é negado, pela nossa Constituição. Refiro-me ao direito de votar, de ser eleito e de influir na política do país, a exemplo de Rita Bosaho, na Espanha. Afinal o voto e a elegibilidade são partes inerentes do exercício de cidadania mais caro das sociedades consideradas democráticas, mesmo que, por enquanto, pareça ser uma conquista muito distante de nossa realidade, em se tratando de um país que não respeita a cidadania de boa parte de seus próprios cidadãos natos.

Silvano Tarantelli