Estas variáveis estariam relacionadas ao atendimento das necessidades psicológicas indivíduais e inatas aos indivíduos, explicadas pelas Teorias Sócio Cognitivas¹. No presente artigo, pretendo focar atenção em alguns estudos publicados em importântes periódicos da área de conhecimento da Saúde Pública, que demonstram a importância do recorte étnico e racial para a análise da Saúde em dimensão epidemiológica, e para a elaboração de programas de intervenções que sejam eficazes.
A supervalorização da dimensão biológica no entendimento dos processos de saúde positiva e negativa configura-se em um grande fator limitante para a explicação dos processos de agravo à Saúde, uma vez que não é considerado outros fatores, como os de órdem histórica, econômica, e psicossocial³. Quando é considerado a dimensão social, um segundo problema evidenciado nos estudos publicados se traduz na supervalorização dos aspectos sócio-econômicos em detrimento de outros de igual importância, como por exemplo a variável ‘etnia/cor’, principalmente se considerarmos a literatura brasileira³. Um trabalho publicado por Coimbra Jr. e Santos discute que “vivenciar situações de discriminação pode ser, por si, um elemento desencadeador de doenças” (p. 128)². Este mesmo trabalho elucida um ponto fundamental, uma vez que trabalha com a idéia de que a exclusão, marginalidade e discriminação vividas pelas populações históricamente discriminadas (o trabalho se apoia principalmente nas populações indígenas), resultam em uma situação de maior vulnerabilidade da saúde daquela população.
Apesar do quadro problemático, é crescente o interesse de pesquisadores em investigar as relações entre a variável etnia/cor e saúde, em especial a saúde da população negra. Este fenômeno é relacionado ao fato do movimento negro ter, e estar, ganhando importância em espaços de poder, dentre os quais instituições intergovernamentais como a ONU (Organização das Nações Unidas), UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), e a OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde), e outras de naturezas diferentes3.
Faz se importante, uma vez que a tendência é o aumento do número de pesquisas que irão contemplar a análise da influência da etnia/cor em saúde coletiva, a redução do abismo entre pesquisadores e ativistas/militantes do movimento negro, para a formatação de adequados delineamentos experimentais e estratégias para a superação de problemas metodológicos e conceituais de investigação (erros do tipo I e II). Um exemplo desta limitação pode ser encontrado em pesquisas4 que utilizam classificações étnico/raciais através dos termos ‘mulato’, ‘moreno’, sendo que no campo político-socio-ideológico estes termos são colocados em xeque por setores do movimento negro.
Estas classificações e outras complicações como, por exemplo, a diferenciação entre ‘mulato’ e ‘negro’, ou ‘pardo’ e ‘negro’, entre outras que são localizadas em estudos publicados na literatura acadêmica, alteram de forma importante os resultados das análises estatísticas e, por conseguinte, prejudicam o entendimento da relação entre as desigualdades raciais e os agravos à saúde.
Desta forma, é notória a importância de pesquisas que contemplem a complexidade das desigualdades raciais relacionadas à saúde coletiva. Porém, os pesquisadores devem estar próximos aos movimentos sociais, em especial setores do movimento negro, para que haja acurácia na construção de delineamentos de estudos e estratégias de intervenção, de modo a produzir resultados fidedignos e, de fato, contribuir para o entendimento dos processos de saúde e doença em caráter epidemiológico.
O título original do artigo é “Ensaio sobre a Importância de Análises da Influência da variável Etnia/Cor em Saúde Coletiva”
Referências:
¹ Bandura, A. Social Cognitive Theory: an angentic perspective. Annual Review of Psychology. 2001; 52: 1-26.
² Coimbra Jr., C. E. A.; Santos, R. V. Saúde, minorias e desigualdade: algumas teias de inter-relações, com ênfase nos povos indígenas no Brasil. Ciência e Saúde Coletiva. 2000; 5(1): 125-132.
³ Chor Maio, M.; Monteiro, S.; Chor, D.; Faerstein, E.; Lopes, C. S. Cor/raça no estudo Pró-Saúde: resultados comparativos de dois métodos de autoclassificação no Rio de Janeiro, Brasil. Caderno de Saúde Pública. 2005; 21(1): 171-180, jan-fev.
4 Noronha, C. V.; Machado, E. P.; Tapparelli, G.; Cordeiro, T. R. F.; Laranjeira, D. H. P.; Santos, C. A. T. Violência, etnia e cor: um estudo dos diferenciais na região metropolitana de Salvador, Bahia, Brasil. Revista Panamericana de Salud Pública. 1999; 5(4/5): 269-277.

José Evaristo Silvério Neto