Parte agora para relembrar a história da imigração, a partir de seu próprio ponto de vista, relatando a vida de seu pai, quitandeiro em fuga da Síria. Lembrou-me a história de outro jornalista de descendência semelhante, Luiz Nassif, da “Folha”, mineiro como se auto declarou à ministra da Igualdade Racial, que tinha um amigão de bar e de infância, negro, chamado Almeidão, com o qual brincava alegremente de ameaçar retornar os navios negreiros para a África, ou coisa parecida.
O artigo de Kamel retorna ao combate das cotas com auxílio de Skrentny, sociólogo americano da UCLA e passeia sobre o que sonhou Luther King, a partir de equivocada citação do sonho de King, no Manifesto dos 114, como demonstrou Élio Gaspari, em artigo também em “O Globo”, publicado nesta mesma semana.
Registro o equilíbrio do jornal na possibilidade de manifestação de opinião para os “contra cotas e os a favor”, em um mínimo, com a cobertura jornalística e a informação aos leitores só tem a ganhar. Kamel não se dá conta que milhões de brasileiros não podem ter essas lembranças ou reminiscências de um passado familiar, pois tinham de passar pela “Arvore do Esquecimento”, em sete voltas, antes do embarque nos tais navios que vinham de África, que Nassif e Almeidão queriam retornar. Isso não incomoda Kamel.
Também não o incomoda a denúncia de alunos de mestrado da UnB, de que seu professor Paulo Kramer, em sala de aula, afirmou que “não se devia se dar dinheiro nenhum para essa crioulada”. Aguarda-se a abertura de investigação da UnB, que está para ser decidida pelo Reitor e assessoria jurídica.
Também não incomodou a Kamel a agressão a aluno cotista negro da UERJ, também nesta semana, que discutia com sua namorada e que, detido pela segurança da UERJ, foi levado para uma sala da própria universidade e submetido a uma sessão de sopapos, no melhor estilo DOI CODI, sob alegação que ele não tinha o perfil de aluno da universidade. Nada disso incomodou Kamel, até o momento.
Deve ser bom ver tantas novelas na televisão com a saga de imigrantes italianos, turcos, judeus, gregos, japoneses, etc., como vemos nas telas das principais redes de televisão brasileiras. Porque será que não incomoda o articulista os negros só aparecerem, em sua grande maioria em novelas de época como escravos? A professora Jeruse Romão, nos debates que ocorreram após a mesa-redonda “Novas inflexões raciais no Brasil”, durante a SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência -, em Florianópolis, semana passada, da qual pude participar, juntamente com os Professores Ivonne Maggie e Antonio Sergio Guimarães, asseverou que já são 22 as leis brasileiras conhecidas, que proibiram o ingresso de escravos, libertos e alforriados, os negros em geral, na escola de qualquer tipo. Qual a repercussão disso para o meu pai e o pai de Kamel?
O que pareceu mesmo ter aborrecido o editor-chefe foi o que considerou acusação de Gaspari, sem provas segundo ele, que “Wood entrou na briga sem um tostão no bolso”, indagando se Gaspari sugere que “os brasileiros que se manifestam contra as cotas são indecentes e que se manifestam por dinheiro?”. Confesso que sempre suspeitei de algo parecido, tal a força, regularidade, profundidade, verdadeiro profissionalismo com que o tema foi tratado, e que isto se baseasse em alguma contratação profissional não anunciada . Sempre me pareceu que esse profissionalismo no trato dessa questão – cotas para negros na universidade -, independentemente do zelo profissional a que profissionais dessa envergadura estão acostumados, tinha mesmo um cheiro de que alguém estava bancando toda a celeuma, para um lado, dada a força e paixão com que se pronunciava.
Como Kamel mesmo diz, até o momento não há provas em que se possa fazer tal acusação. Mas já que o assunto apareceu, com todas as letras, pode-se perfeitamente suspeitar. Acaso fique provada tal hipótese, o mínimo que se espera é um terremoto, pois acredito que assessoria de imprensa deve ser mesmo declarada, e não oculta. Não seria mal os principais jornais do País darem uma olhada nos números de afrodescendentes em suas redações, que por óbvio, serão pouquíssimos.
Contraditoriamente, Kamel diz que não assinou o Manifesto dos 114 Contra, porque “não cabe como jornalista”. Cabia como jornalista, então, o que ele não fez durante bom tempo, e é só reler seus artigos para se ter certeza disso, de dar voz a ambas as posições favoráveis e contrárias às cotas. Isso, seus artigos jamais fizeram, muito pelo contrário.
Ademais, sua posição, assim como a do Manifesto, peca por um descuido fundamental, apontado em recente e perfeito artigo de Miriam Leitão: ele não propõe nada para solucionar o atual estado de desigualdade racial em que vive o Brasil.

Humberto Adami