Mas foi certamente por anseio de liberdade e expansão que o protestantismo saiu do catolicismo. E que uma miríade de seitas, confissões, “ministérios”, “tabernáculos” etc. nasceu dos primordiais luteranismo, calvinismo, zwinglianismo; e, depois, das igrejas congregacionais batistas, metodistas, pentecostalistas etc. Até que chegamos ao “evangelismo delinqüente”, denunciado em uma série de reportagens jornalísticas da última semana, segundo as quais, bandidos que freqüentam “igrejas independentes vêm proibindo manifestações de umbanda e candomblé nas favelas cariocas e expulsando donos de terreiros” (Extra, 17.03.08).
A independência religiosa é sempre preocupante. É por isso que tanto os fiéis do candomblé ortodoxo quanto os da santería cubana, antes de qualquer ritual ou cerimônia, precisam invocar, por ordem cronológica, desde o comecinho, os fundadores de sua crença na Diáspora. E é assim que sempre, com grande emoção, ouvimos em nossas invocações nomes de sacerdotes africanos chegados às Américas, às vezes ainda na primeira metade do século 19, como Atandá, Adexina, Tata Gaytán, Obá Sãnia, Bamboxê Obitikô e tantos outros (aos quais enviamos o nosso “ibaê” respeitoso). É graças a essa linha de continuidade, que nos mantém juntos há mais de 200 anos, que muitos cânticos sagrados iguais, podem hoje ainda ser ouvidos, apenas com leves acentos locais, tanto em Recife quanto em Havana, tanto em Salvador quanto em Santiago de Cuba. E é por conta, talvez, da mesma discriminação de há 100 anos que vemos, agora, nascer, da umbanda brasileira, uma corrente internacionalizada que renega as origens africanas de sua crença.
Pois, é isso: quase sempre os arroubos de independência geram a fragmentação, a desunião e a fragilização – que é o calcanhar-de-aquiles das religiões de matriz africana no Brasil. Mas, do ponto de vista dos “neo-evangélicos” ela é certamente vantajosa e lucrativa, haja vista a infinidade de novas “igrejas” que surgem, a cada dia, não se sabe bem com que intenção, quase que esquina em esquina – sem exagero – nas regiões mais pobres do Estado.
Assim, hoje, na sexta-feira santa do ano dos nossos 66 anos, com os netos ao lado, rogamos a Babaluaiê proteção contra o aedes aegypti (cuja proliferação, neste triste momento, é fruto também de um certo “independentismo” político) e pedimos a gbobo kalenda Ocha (todos os orixás juntos) que nos guardem contra a morte, a doença, as perdas, o derramamento de sangue, os inimigos, a maledicência, e todo o Mal. Axé!
P.S.C.A. (PARA UM SARRO COM OS AMIGOS): O vocábulo “dengue”, tem origem no termo multilingüístico banto ndenge, que conota fraqueza, lassidão, fragilidade (v. o quicongo ndenge, recém-nascido) etc, presente em “candengue”, criança; “dengue”, birra ou choradeira de criança; “dengue”, doença infecciosa. Já o “dengo”, carinho, vem mesmo é do quicongo ndengo, lubricidade.
Reproduzido de Meu Lote – www.neilopes.blogger.com.br – com autorização do autor.

Nei Lopes