Quem quer que ainda não tenha perdido a humanidade e a capacidade de se indignar, não pode deixar de sentir a profunda dor que atinge a família do Vitor Hugo Deppman, o jovem estudante da Cásper Líbero, de 19 anos, assassinado friamente por um menor, às vésperas de completar 18 anos, sem esboçar qualquer reação na entrega do celular.

A cena, gravada pelas câmaras e exibida pela TV, choca. Como também chocou o assassinato com um tiro na cara de Daniela Nogueira, de 25 anos, morta quando estava grávida de 9 meses, em janeiro deste ano. Como também chocou o caso de David Santos Souza que, após atropelado, teve o braço arrancado e jogado num esgoto pelo atropelador, Alex Siwek, em março.

Como também não podemos deixar de nos indignar com a covardia, com a infâmia e a torpeza, do caso de Rio Claro, quando um idoso de 71 anos, "seo" Benedito Oliveira, trabalhando de madrugada como guardador de carros para completar o sustento da família, foi bárbara e cruelmente espancado, por neonazistas, por uma única razão: é negro. "Seo" Benedito ainda luta para sobreviver, mas continua internado na UTI da Santa Casa daquele cidade.

Como também não podemos deixar de nos chocar com a frieza cada vez maior nos assassinatos de mulheres pelo machismo, de negros e jovens (negros ou não), que estão tendo suas vidas ceifadas pela brutalidade crua, pela barbárie à solta.

Estive ontem (11/04) com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, na audiência na Assembléia Legislativa, que discutiu Segurança Pública, por iniciativa do presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputado Adriano Diogo. O ministro assevera que a questão de segurança não é de Governos, é de Estado.

Mas, a pergunta que fica é: que Estado é esse o que temos que, na teoria é um Estado Democrático de Direito, pelo menos desde a Constituição de 1.988, mas na prática, é um Estado de barbárie, em que a desigualdade, o racismo, o machismo e a injustiça estão presentes no cotidiano, e a violência – subproduto de tudo isso – começa a ser naturalizada, senão banalizada.

Os fatos, cada vez mais estarrecedores, mais chocantes, nos levam a uma única conclusão: estamos todos muito doentes. A violência tornou-se uma epidemia e, segundo o doutor Dráuzio Varella – um homem por quem todos deveríamos estar em campanha para que receba algum dia (ainda vivo, esperamos) o Nobel da Paz, “é doença contagiosa”

“o vírus da violência contamina o ambiente prisional. Digo por experiência própria. Eu, que chego a demorar para pegar no sono por causa de um doente com febre – como acontece com tantos médicos – muitas vezes senti vontade de bater num preso. Não por alguém haver me desrespeitado, frato que jamais ocorreu., mas pelos requintes de crueldade nos crimes cometidos contra gente indefesa ou pela brutalidade empregada para subjugar os companheiros”, diz o doutor Drauzio em seu ótimo Os Carceiros, Editora Companhia das Letras, cuja leitura recomendo.

Diante de mais um assassinato frio, alguns só veem como solução a redução da maioridade penal. Trata-se de mais uma válvula desesperada de escape. Neste país de injustiças e desigualdades toda vez que acontecem casos semelhantes, apela-se para esse tipo de saída, que nada mais é do que devolver para jovens – agora – e depois, a crianças, invariavelmente pobres e negros, a responsabilidade pela incompetência, pelo descaso, pelo descompromisso de governos seguidos que, desde sempre, deram e dão as costas ao problema fonte de toda a violência: a desigualdade obscena em que vivemos.

O primeiro Código Criminal da República – lembra, com propriedade o ex-secretário de Justiça de S. Paulo, Hédio Silva Jr. – reduziu a maioridade penal a crianças de 9 anos. Será essa a ideia dos defensores desse caminho, que não chega a ser sequer caminho, é mero atalho para que se continue empurrando com a barriga o enfrentamento das verdadeiras causas?

E depois de dezesseis anos, seguramente haverão os defensores da redução para  doze, treze, dez, 9 – como no primeiro Código Criminal da República -, e depois sabe-se lá. Não é difícil que passe a haver gente defendendo que os pobres, na sua maioria negros, e que negros, na sua maioria pobres, passem a ser criminalizados no berço.

Minha solidariedade a dor das famílias, do Vitor Hugo, do "seo" Benedito e de todas as vítimas desse estado de coisas. Negros ou não, todos somos humanos, até que a barbárie nos mostre que estamos na fronteira – sem esquecer, claro, que a barbárie foi um estágio para   atingirmos a civilização e para o qual temos, às vezes, a sensação de estarmos regredindo.

A indignação e a ação para mudar esse estado de coisas, pode ser a última esperança para não nos convencermos de que estamos todos afogados na treva. E a saída não pode ser por atalhos movidos pela dor e pelo desespero, mas caminhos que comecem por estancar a fonte de toda a dor e violência: a desigualdade social obscena.

Dojival Vieira