Na formação do Estado do Rio Grande do Sul, mascaram a presença étnico-racial. O  sul-rio-grandense é apresentado não negro. Bombacha , chapéu  de aba larga, bigode vasto, lenço  vermelho, branco ou carijó e botas.   Os meios de comunicação daqui, infelizmente, fazem eco a estes ranços de preconceito, segregação  e racismo.

Por  isto, vamos fotografar os fatos e transformar em palavras. Palavra uma pá que lavra. Quem liga a televisão no Brasil pensa estar em Helsinque,  capital da Finlândia. Em país de maioria negra como o nosso, eles quase inexistem nos meios de comunicação. Aqui no Sul não é diferente, pelo contrário, se eleva ao cubo.

Quer frente aos microfones de rádio ou câmeras de televisão.  Lembro do recém falecido  jornalista Flávio Porcello   Não existe opinião pública e sim opinião do que se publica. Mesmo sendo minoria nos veículos de comunicação,  acabam sendo os primeiros a ser demitidos e os últimos a ser admitidos.

Não gosto de pessoalizar, mas vou contar duas histórias que fui protagonista e vítima ao mesmo tempo. Primeira: ainda jovem participei do concurso de locutores de poderosa emissora de rádio. Semana depois, recebi correspondência com chamamento. Ao comparecer, observei o embaraço da direção ao ver que a voz selecionada era  negra. Mandaram-me aguardar nova chamada, que nunca ocorreu.

Segunda: pouco tempo depois, emissora de televisão selecionava apresentadores. Fiz o teste. Câmeras, iluminadores e outros do estúdio disseram-me, em particular, que fui o melhor. Nunca recebi retorno daquela emissora. Anos mais tarde, um suíte já aposentado me revelou que o Diretor achou meu cabelo  Black Power  muito grande. Sequer cogitou de me consultar se eu concordaria em diminuí-lo. Na verdade, mascarou  desculpa para não colocar negro no vídeo.

O psicanalista José Luiz Caon leciona: Gente com máscaras que  apenas se esconde em outras.  Respeito e aprendo sempre com os psicanalistas. Estes escutam, com ouvidos de saber ouvir. São seres humanos feitos como os outros,  oriundos do  mesmo povo. Por meio do discurso, ele escuta o seu sensor de presença, coloca no radar emoção subjacente, por isso mergulha na transversalidade do saber.

Anos mais tarde, por meio do carnaval, conseguimos chegar aos grandes veículos e até comandar. Mas, ainda hoje, os negros são invisíveis em rádio, jornal e televisão. A mídia reflete  a sociedade nos  preconceitos. Mas  não os recusa como ouvintes, espectadores e consumidores.

Ensinou Lampedusa  para que tudo permaneça como  está é preciso que algo mude.

ANTÔNIO CARLOS CÔRTES é Advogado, radialista, escritor e psicanalista