Ontem, acompanhando a cobertura da apuração das eleições, fiquei reparando no teor de ódio do discurso de muitos que, analisando a orientação dos votos por regiões, repetiam por diversas vezes que o Brasil estava dividido e que a Dilma teria que trabalhar muito para reverter este cenário.

No Fantástico, o jornalista Willian Bonner faz justamente esta fala de que o Brasil esta dividido, sendo que o Norte e Nordeste votaram na Dilma, enquanto o Sul, e o Sudeste, e Centro-Oeste, de maneira geral, votaram no Aécio. A lógica deste discurso, que se associa ao senso comum de milhares de pessoas cujas mentes estão completamente colonizadas, é a de que no Brasil existem dois mundos, duas realidades diametralmente opostas, sendo:

1) uma a região Sul, mais rica, mais desenvolvida, "mais avançada", composta predominantemente de pessoas brancas de ascendência europeia, que desejam mudanças e votaram no Aécio;

2) uma região Norte, mais pobre, menos desenvolvida, "mais atrasada", composta predominantemente de pessoas pretas e pardas de ascendência africana e indígena, que desejam a manutenção das coisas como estão por estarem se beneficiando dos programas sociais que o governo do PT desenvolveu, e que votaram na Dilma.

O contraponto foi o posicionamento do jornalista Heraldo Pereira, que fez uma análise desconstruindo o discurso do Bonner de país dividido ao salientar que no Sul e Sudeste, embora a Dilma tenha perdido, o percentual de votos para a então candidata não foi desprezível, e o mesmo nas regiões Norte e Nordeste referente aos votos do candidato Aécio. Heraldo salientou ainda que por isso o Brasil não está dividido, e que o que houve foi uma disputa acirrada à presidência da república, dentro dos limites da democracia a parti da qual foram expostas as orientações políticas de diversos setores da sociedade.

Fiquei muito preocupado com o discurso de divisão do país, pois trás a ideia de ódio na medida em que desenvolve uma falsa impressão de que nas regiões Sul e Sudeste os votos para a Dilma não foram estatisticamente significativos, o que é um erro terrível. Esta é uma tentativa sombria de reforçar o ódio e ampliar a percepção de "racha" entre as regiões do país, aumentando a intolerância às diferenças étnicas e culturais entre os estados da federação.

O historiador econômico Thomas Conti criou um mapa de votos do eleitorado brasileiro que problematiza e desconstrói o discurso do William Bonner e de muitos que vêm pregando o discurso de ódio e a ideia maliciosa de divisão do pais. Os mapas de análise de votos que até então estavam sendo veiculados pela mídia televisiva  e nas redes sociais foram construídos em escala binária, sendo as variáveis dicotômicas 'Ganhou' ou 'Não Ganhou' as eleições por estado. Estes dados não dão conta de analisar os percentuais de votos, tão somente dizem qual candidato que ganhou nos estados, sem uma ideia da diferença dos números de votos. A leitura equivocada destes mapas fortaleceu o discurso errado e mal intencionado de muitas pessoas que reproduziram ideias separatistas, xenofóbicas, classistas e racistas sobre a população Norte e Nordeste do Brasil.

Thomas Conti criou um mapa diferente, em escala ponderada, considerando os números de votos em escalas de cor, onde o vermelho referenciou os votos para a Dilma, e o azul os votos para o Aécio. Na maioria dos estados vigorou uma cor roxa, proveniente da mistura das cores vermelho e azul, demonstrando o equilíbrio entre a quantidade de voto para os dois candidatos. 

Thomas Conti disse em entrevista ao Terra Noticias: “Quis estimular as pessoas a desconfiarem de análises maniqueístas, bipolares – a sociedade não é assim há muito tempo. E, mais importante, quis lembrar que a eleição e o voto são uma parte muito pequena do que significa a democracia. Nossa democracia já foi interrompida por golpes militares duas vezes, temos só 26 anos de tradição democrática. Manter-se engajado e atento na política do País, buscando informações, é um elemento central para o exercício da cidadania e para a construção dessa democracia do século XXI. E discursos de ódio não terão espaço nessa construção: quanto antes conseguirmos superá-los, melhor”.

Outros mapas também foram produzidos que provam que o discurso de divisão do país é totalmente infundado e malicioso. Um mapa criado por Thiago Leonardo Soares, mostra a distribuição de votos para a Dilma por estados. A conclusão que tiramos da análise é que os estados que de fato elegeram a Dilma foram São Paulo (8,5 milhões de votos), Minas Gerais (6 milhões), e Bahia (5 milhões de votos), Rio de Janeiro (4,5 milhões) e Paraná (2,5 milhões). De acordo com a análise, nestes 5 estados a Dilma obteve 26,5 milhões de votos, enquanto em todos os outros somados ela obteve 25,9 milhões. 

Estamos participando de um momento social bastante delicado, onde a tensão aumenta na medida em que novos modelos de sociedade começam a ser apresentados. Os avanços das populações e comunidades historicamente vitimados pelo sistema de poderes do nosso país vêm incomodando e forçando os racistas e xenófobos a saírem da toca. O avanço da participação popular em esferas do poder e representatividade, mesmo que ainda muito discreta, tem provocado alguma mudança e muito incomodo nas elites do Brasil, estrangulando o contexto retórico e forçando-as a assumirem suas condições de defensoras dos seus privilégios conquistados às custas de muita injustiça e derramamento de sangue do povo.

Nos próximos 4 anos, teremos que reconstruir nossas percepções e fortalecer os processos de amadurecimento político. Teremos que avançar muito nas políticas de promoção de igualdade racial, para que possamos chegar às próximas eleições com um mínimo de responsabilidade social e maturidade política para fazer frente aos mal intencionados que só querem defender seus privilégios.

José Evaristo Silvério Netto