Trinta e cinco anos depois do início das Operações Moisés e Salomão – que resgataram milhares de judeus etíopes refugiados no Sudão – a presidente da Associação Israelense de Judeus Etíopes, Zva Mekonen Degu, luta pelos direitos de mais de 120 mil negros. Ela lembra que andou por quatorze dias e ficou quase quatro meses num campo de refugiados, antes de chegar à Israel.
“A imigração em massa começou em 1976. O governo israelense fez um acordo com o governo do Sudão e enviou armas para que pudessem ser trocadas por nós. Só que houve um vazamento e muitos não conseguiram imigrar. Em 1984, quando eu vim com minha família, a imigração de 14 mil etíopes foi feita de forma secreta e ilegal. Quatro mil morreram no percurso para Israel”, revela.
Antes de começar a entrevista, Zva faz questão de ressaltar que ainda tem muito que trabalhar, “mas que precisa dizer que não há país no mundo que envie seus melhores soldados para arriscarem suas vidas em território inimigo com objetivo de salvar judeus negros da guerra”.
Ela nos conta que uma de suas maiores lutas é pelo reconhecimento dos sacerdotes etíopes para a realização de circuncisões e casamentos.
“A primeira grande batalha que travamos ao chegar aqui foi lutar pelo nosso reconhecimento junto aos religiosos ortodoxos. Os nossos sacerdotes (kessin, os rabinos etíopes) ainda hoje rezam em Gez, língua sagrada do meu povo. De todas as versões sobre a origem da minha comunidade, a que mais foi aceita é a de que somos a Beyta Israel – uma das 12 Tribos de Judá – que se perdeu na África”.
Idioma original
Essa mulher de fala mansa, mãe de quatro filhos, diz que ainda hoje fala em arandi – idioma de sua etnia africana.
“Quando chegamos em Israel, recebemos apartamentos, os Centro de Absorção nos ensinou o hebraico, nossas crianças foram matriculadas em escolas, tivemos ajuda financeira, mas isso ainda não é o bastante. Queremos manter nossa identidade. Já tivemos uma vitória: os kessin já podem dirigir os cerimoniais. Queremos que as investigações dos etíopes que se declaram judeus, mas que foram cooptados pelos missionários cristãos, sejam feitas pelos nossos sacerdotes”.
Racismo refinado
O pesquisador Avraham Milgran, diretor das Pesquisas Históricas do Novo Museu do Yad Vashen, reconhece que o racismo está presente nas relações em Israel.
“A integração dos judeus etíopes na sociedade não é fácil. Há uma discriminaçao racial e social, oriunda principalmente nas camadas mais baixas, que os veem como concorrentes por postos de trabalho”.
Milgran, que foi criado no Brasil, faz uma comparação entre Brasil e Israel. “Os etíopes, ao contrário dos negros brasileiros, são tratados como cidadãos”.
O professor define o racismo como um fenômeno cultural. Ele revela que a sociedade israelense ainda tem problemas em assimilar os etíopes, mas que a maior discriminaçao ainda é com os refugiados das guerras religiosas da África.
“Veja, a discriminação é menor contra os etíopes porque eles são judeus. Esse é um fenômeno que está presente numa parcela da poopulação que os vê como concorrentes no mercado de trabalho. Os etíopes vivem, em sua maioria, nas periferias. E são exatamente as pessoas de classes menos favorecidas que os discrimina”, relata.
Já com relação ao refugiados, Milgram admite que Israel precisa pensar em políticas específicas. “Estamos ao lado de países que estão em guerra há décadas, como o Sudão e Eritréia. Os africanos que chegam aqui vêm com suas vidas destruídas, marcados pelas tragédias. Na verdade, o mundo se acostumou a dar as costas para África. Existe um déficit de políticas para os africanos que é preciso ser revisto. E tenho convicção que é preciso pensar o que faremos com esses refugiados”, explica.
Milgram é nascido na Argentina e criado em Curitiba (capital do Paraná, Sul do Brasil) esse estudioso das relações de ódio que marcaram o antisemitismo em nível mundial, conhece bem a realidade brasileira e vai mais longe.
“O racismo no Brasil tem uma forma muito refinada, se comparmos a outros paises. As questões que envolvem as discriminações raciais no Brasil são estruturais. A questão é que aqui (Israel), os negros têm cidadania, levam o filho para a escola, são profissionalizados e todos moram em apartamentos dados pelo governo. Quando os etíopes chegaram foram acolhidos pelo Ministério da Imigração e recebidos pelos Centros de Absorção para aprenderem o idioma. Como todos eles vieram de campos de refugiados, se concentram em locais pobres. Mas não vivem na miséria”.