Que fique bem claro que sou Mangueira. Por isso, a maldade que fizeram com o mestre sambista me magoou mais ainda.
Historicamente, a Mangueira tendeu fortemente ao tradicionalismo, evidenciado pelo respeito à Velha Guarda. E pelo que me lembre, a Mangueira resistiu durante anos às inovações do samba-show introduzidas pelo Joãosinho Trinta a partir da segunda metade dos anos 70.
Após começar a desfilar no Rio fazendo apologia à ditadura militar (lembram do enredo sobre o PIS e o Pasep?!), a Beija-Flor inovou com excesso de luxo e um oba-oba generalizado que coincidia com a prática do Marcos Tamoyo de trazer figuras internacionais para o nosso Carnaval a fim de promovê-lo no exterior; foi numa dessas bocas livres que o Rod Stewart veio aqui e depois plagiou vergonhosamente o refrão de Taj Mahal naquela ridícula música, Do You Think I’m Sexy? (as a matter of fact, no, I don’t).
Com a crescente influência da TV Globo na transmissão e apuração dos desfiles, as escolas foram abrindo mais espaços para “destaques” e “musas” e “rainhas de bateria” que mal sambar sabem (este ano, uma delas, de tanto trotar, estabacou-se na avenida).
Como nem as escolas nem a avenida são de Lycra, sobrou menos espaço para “as pastoras e os pastores … da favela … defenderem as suas cores”, como tão brilhantemente descreveu Paulo César Pinheiro e sua musa Clara Nunes interpretou com tanto amor.
Não é mais bastante pros turistas assistirem ao desfile; eles também têm de sair na escola, não importa qual, muito menos que cantem o samba. E depois, as escolas, infladas de gente e alegorias, danam-se a correr pra não estourar o tempo. A Portela está atrasada? Ah, então vamos impedir a Velha Guarda de desfilar; eles são lentos demais.
Se antes a comissão de frente de toda escola era formada pelos bambas da Velha Guarda, muitas vezes fundadores da escola, hoje toda escola abre o desfile com um grupo coreografado por algum bailarino; quanto mais a escola parecer um show de Las Vegas logo de cara, mais pontos ela ganha.
E, com isso, cada vez mais as escolas se afastam de suas tradições, a ponto de muita gente que alega ser “louca por samba” nunca ter ouvido falar em Carlos Cachaça ou Silas de Oliveira e nem sabe porque o Ismael Silva denominou a agremiação de “escola de samba”.
Esse é o outro motivo de eu estar tão chocada com o sofrimento do Nelson Sargento. Isso me lembrou do que aconteceu com o Ismael Silva já no fim da sua vida. Ismael—nada menos que o fundador da primeira escola de samba—recebeu um convite da Riotur para assistir ao desfile na Sapucaí. Se a minha memória não me falha, um PM impediu-o de entrar. Ismael, idoso, humilde, nada falou e foi pra casa.
Para mim, isso marcou o começo do fim da associação do Carnaval e das escolas com a população que as criou, ou seja, negros, pobres e favelados. Já se vão muitos anos desde que aquele incidente revoltante aconteceu, mas a cada ano uma nova faceta se revela, como quando a Mangueira ignorou o centenário do seu fundador, o gênio Cartola, em prol de um enredo sobre o centenário do frevo, sem dúvida patrocinado pelo governo de Pernambuco.
Nada contra Pernambuco nem frevo, um ritmo que eu adoro, mas sem o Cartola não teria havido a Mangueira.
Pois é, esqueceram a fantasia da mulher do Nelson Sargento. Como disse minha amiga Lélia, “Vê se iam se esquecer da fantasia do Roberto Carlos”. É só um exemplo, de outra escola; poderia também ter citado o frenesi em torno da Gisele Bünchen, a qual pelo menos admitiu que não sabe sambar.
Mas voltemos à Mangueira. O fato é que, ao impedir o Nelson Sargento de desfilar, ela se afastou um pouco mais da sua própria razão de ser.
Originalmente publicado no blog da autora, http://viagensdapoetisa.blogspot.com/, em 13 de março de 2011.

Vânia Penha-Lopes