Tenho ouvido alguns absurdos que tem me feito refletir sobre assuntos dantes ignorados. Ouvi certa vez que o cristianismo tinha surgido no século XVI, premissa que me parece corrente em alguns meios, principalmente, entre os negros e negras que participam de religiões de matrizes africanas ou que militam no Movimento Negro brasileiro.
A primeira falácia que ouço é que para ser negro de verdade devo ser adepto de religiões de matrizes africanas. Quero registrar que religiões de matrizes africanas para estes que defendem esse absurdo são o Candomblé (com todas as suas vertentes) e a Umbanda. Primeiro, quero dizer que quando nascemos não somos detentores de nenhuma religião. Logo, essa idéia que para sermos negros necessitamos de religião X ou Y se torna uma furada. Quando nascemos… Nascemos sim, negras e negros.
Nós aparecemos neste mundo já com uma etnia, raça, cor, definição sexual, cor dos olhos, etc. Depois podemos fazer opções de acordo com a nossa própria história. Escolhemos profissão, religião, partido político, ideologia, fazemos nossa opção sexual, etc. Mas, nascemos homens ou mulheres (salvo alguns casos de problemas genéticos), negros (embora às vezes somos tachados de pardos ou outra coisa similar). Por isso digo que dizer que para sermos negros de verdade precisamos dessa ou daquela coisa, é reducionismo, miopia intelectual.
A segunda falácia é dizer que as chamadas religiões de matrizes africanas foram as primeiras a chegarem aqui no Brasil. E quanto às religiões dos índios? E quanto aos mulçumanos que constituíam a maioria entre os escravos africanos?
A terceira falácia e a mais complicada de todas é a que diz que o cristianismo é europeu, nasceu na Europa e por isto faz parte das religiões que já nasceram opressoras. Quanto a isto quero informar que o Cristianismo é Cristo. Portanto, nasce da ressurreição de Cristo dando esperança para toda a humanidade. Nasce da morte de Jesus Cristo que se dá como sacrifício vivo por todos nós. Surge da vida de Cristo que nos ensina um jeito de ser gente como gente deve ser. Surge do nascimento de Cristo quando ele se encarnou entre nós e se fez gente. Nasce também dos anúncios dos profetas nos século quatro a oito antes de Cristo. Se alicerça nas figuras de Cristo que representaram o ministério messiânico na terra.
Mas, sobretudo, se alicerça no Jardim do Éden com a declaração divina que lemos acima; “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”. Quando o texto diz: “o seu descendente…” e “este te ferirá”. Não estava falando de outro senão do próprio Jesus Cristo. E onde ficava o Éden? Exatamente nas terras de Cuxe, Havilá e Assíria. Essas terras ficavam ao norte da África em sua maior parte e a Ásia. Portanto, posso afirmar que o Cristianismo também tem matrizes africanos. O Cristianismo, portanto, não nasceu na Europa, mas sim na África. O que aconteceu na Europa foi um retorno ao Cristianismo puro e simples através da reforma Protestante.
Com certeza tenho de concordar que as religiões chamadas de matrizes africanas foram as que resistiram e lutaram contra todo o tipo de racismo contra negros e negras neste país. Reconheço, e com muita tristeza, que a Igreja Evangélica em seus diversos setores ficou totalmente à margem deste processo e algumas ainda foram mantenedoras de racismo através de suas máquinas administrativas, de suas estruturas educacionais, de seu descaso com as questões relevantes na história dos afrodescendentes brasileiros. E nos últimos tempos com a voz maciça dos neopentecostais, em particular, demonizando os adeptos e as religiões de matizes africanas.
Entretanto, quero deixar registrado que essas falácias nos reduzem e nos levam pra mais longe do diálogo que vai além de tolerância religiosa. Pois não devo ter a disposição de tolerar alguém ou grupos diferentes de mim ou de minha preferência. Devo sim, dialogar com sabedoria e respeito, tendo a consciência que todos nós estamos nas mesmas trincheiras e que o nosso inimigo maior é o racismo que, engendrado na estrutura econômica, política, educacional, cultural e social deste país, assola todos os negros e todas as negras independente dos seus credos religiosos. Pensar assim, penso eu, vai fazer arejar e relativizar os dogmas totalitários que tem nos afastado.

Pr. Marco Davi de Oliveira