Em 2001, eu era assessor da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), quando recebi a visita de dois jovens estudantes da Uerj. Vieram me apresentar o projeto de um boletim impresso que queriam transformar em revista online. Estamos falando de 2001, quando a web ainda era uma grande novidade e criar sites era para muito poucos. Eu já era um desses poucos, já sabia de HTML, já tinha feito alguns sites e gostei da proposta dos rapazes desde o início.

Topei a empreitada e chamei outro amigo, Eduardo HP de Oliveira, que na época estava no Ifcs para somar forças e este, por sua vez, chamou Athayde Motta. Assim, em pouco tempo, formávamos uma equipe que, encabeçada por Marcio André (pois Renzo, o segundo rapaz, havia se afastado), formatamos e criamos Afirma – Revista Negra Online.

O pulo do gato de Afirma – Revista Negra Online foi quando começaram as discussões sobre Durban. Nós fizemos um projeto, conseguimos apoio para divulgar em busdoor e de uma hora pra outra a Conferência de Durban se tornou conhecida por muitas pessoas e, num trabalho hercúleo traduzimos toda a documentação da conferência para o português, o que possibilitou que o Movimento Negro brasileiro assimilasse bem a discussão e se tornasse posteriormente uma das delegações mais ativas daquela conferência.

A experiência de Afirma – Revista Negra Online terminou em 2005, de forma nostálgica quando a equipe já tinha se desfeito, cada um estava trilhando um caminho diferente e o apoio financeiro tinha acabado.

Ato contínuo, outras publicações com viés semelhante surgiram e a que ganhou vida longa foi o Afropress, dirigido por meu amigo e irmão Dojival Vieira.

Afropress já surge com um conceito diferente de Afirma. Enquanto um se formata como agência de notícias, a outra se formatava como revista. Mas ambas as iniciativas trazem em si a marca do pioneirismo e a resistência para continuar mesmo com todas as dificuldades inerentes a lidar com a temática étnico-racial seja em que espaço for, tanto no real, quanto no virtual.

A estratégia de Afropress o torna vitorioso porque, focado efetivamente na figura do seu editor, consegue manter-se firme a partir das ações paralelas que Dojival desenvolve tanto no campo jornalístico, quanto no campo do Direito. Afirma se desmilinguiu porque cada um foi em busca de novos anseios profissionais. Nada mais legítimo, logicamente, mas fatal para uma publicação que havia surgido com o princípio de uma equipe, mesmo tendo uma figura, Marcio André, como seu verdadeiro criador e acho importante que isso seja sempre dito.

Busquei fazer este paralelo porque acho importante que as histórias sejam contadas como realmente ocorreram. Mas, mais que tudo, estou contando essa história porque valorizo por demais a figura de Dojival. Doji é um sujeito que contra tudo e contra todos tem guerreado – e não com moinhos de vento – para manter firme e sólido o Afropress no ar.

Ao longo dos anos, nossa amizade permitiu que eu o ajudasse quando neo-nazis tiraram o Afropress do ar e ele me ajudou pautando informações que eram vitais tanto para mim, quanto para o contexto político que estávamos vivendo num determinado momento.

Dojival é um guerreiro daqueles que não perde a ternura. Defende a isenção jornalística mas não deixa de ter opinião formada como editor. Tal como ocorre em todas as grandes publicações brasileiras e mundiais. No entanto, paga um preço alto por isso, pois os negros e negras de “terninhos e tubinhos” (por Wânia Sant´Anna), não aceitam esta independência e, tal como nós sabemos na nossa própria carne, independência política no Brasil, ainda mais no campo étnico-racial custa caro, e muito caro, sem contar que para muitos é ofensa.

Dojival tem sentido isso ao longo dos anos. Quantas vezes o Afropress vergou mas não quebrou? Quantas vezes dialogamos sobre as dificuldades? Quantas vezes vimos gente que não tem um centésimo da produção de Afropress acessarem recursos e espaços que Afropress nunca acessou? E a resposta é uma só: a independência editorial de Afropress incomoda.

Pois é esta independência editorial que faz Afropress ser o que é e agora, nesta nova fase em que Afropress está mais bonita, mais dinâmica, mais com cara de portal eu, como jornalista, ativista e religioso, saúdo Dojival, saúdo Dolores e toda a equipe por trás de Afropress e rogo aos Orixás que lhes cubram de muitas bênçãos, pois a cada dia, tenho a certeza que vocês estão no caminho certo e a vitória logo chegará.

Ao olhar o Afropress hoje, nostalgicamente penso em Afirma, não porque ela acabou, mas porque sua história é também um pouco a história de Afropress e vice-versa e para mim, ser colunista fixo de Afropress, é a prova disso.

Dojival, meu amigo e irmão, mais uma vez meus parabéns pela coragem, pela ousadia e pelo amor à verdade. Pois se há uma expressão que sintetize o jornalista é exatamente esta: amor à verdade. E você é prova viva deste amor e Afropress é o veículo que hoje melhor expressa as verdades que muita gente de "terninho e tubinho" não está afim de ouvir.

Vida longa à Afropress!

 

Márcio Alexandre Martins Gualberto