Este o é argumento emblemático de toda Angola ao chegar à paz e outra parte dos filhos/as importantes, antes, separados por uma guerra imposta. Sim, viu-se na necessidade de reivindicar a angolanidade em primeiro nível. E, assim, o povo unido sob olhar de seus antepassados achou que os símbolos do país deveriam ser repensados conforme a soberania provinda da ancestralidade e não de outro e qualquer lugar fruto da realidade colonial emergente e da pressão negociação confundida com o período de luta armada.
Infelizmente, se apresentou uma bandeira com símbolos mais estrangeirizadas que nacionais. Deste modo, os/as Angolanos/as reclamaram por uma representatividade capaz em termos africanos. Não mais uma intelectualidade das condições estranhas ao povo, mas de uma ancestralidade marcante que fosse capaz de enxergar os valores além da sempre confissão de Pestana ao se conclamar “Sou um mestiço cultural” . Essa expressão como Costa chama de “questão dos mestiços culturais da nossa terra”, mostra até que ponto o povo sofre de uma minoria que se acham africanos por conveniência por se tratar de um “processo oneroso, a busca da identidade individual, daí que não esteja ao alcance das almas pequenas que por cá (Angola) andam brincando de artes de letras” (Costa, p. 9). Contra essa atitude Neto havia observado como se constata mais uma vez em suas palavras no comício no Bairro do Golfo: “por vezes, se pega a ler ou a escutar um órgão da informação e eu fico, imediatamente, com a sensação de que não é para mim que estão a falar. Não é para o povo de Angola. Está-se a falar para outra gente. Isso não pode ser” . O presidente ao revelar seu descontentamento alude que “o setor da cultura, o setor dos escritores, dos artistas plásticos, necessita de certa adaptação à realidade” Sua postura ontológica era a de formar uma intelectualidade provinda dos matizes culturais que herdara de seu povo. Queria evitar o cetro da mentalidade reacionária dos intelectuais portugueses que desprezava a cultura africana em Angola. Ele via na cultura angolana ancestral a convergência da vida e dos desafios para dialogar ao pé-de-igualdade com qualquer que fosse, mas a partir da cultura nacional e não de um parâmetro que não fosse à africanidade e angolanidade. O seu grito poético ” Havemos de voltar” significava a reelaboração da intelectualidade a partir de referências culturais nativas. Isso lhe orgulhava mais do que qualquer outra riqueza. Com ma morte de neto os jovens hoje estão sem identidade; não conhecem a sua cultura e se envergonham dela; o único incentivo que vigora é a luxuria contra a vida, a vida despótica, o indiferencialismo, a insensibilidade, a ganância, o lucro, o autoritarismo, machismo vazio, o chefismo. Tudo isso é resultado da mestiçagem intelectual e dos negros/as assimilados/as que não conseguem se desvencilhar da regra-peste, socialmente falando.
Certamente, Angola se debate com os excentrismos por um lado do individualismo que a guerra e a herança colonial e fratricida movida por setores internacional apostados por eliminar os/as africanos/as. E por outro lado de uma subetnicidade perigosa inspirada no neocolonialismo de Portugal junto com os intelectuais de meio sangue ou todo sangue europeu, outros de generais do exercito colonial que entraram no cenário político para preparar um neocolonialismo semelhante ao da África do Sul implantado em 1910 e, finalmente do que chamamos do amanhecer nacional que pretende resgatar o país do rude, mas sutil embraquecimento que surge por meio da mídia e de outros setores apostados em transformar o país em uma feira de mamatas (negócios de baixa índole) consubstanciadas em facilidades que vão contra a índole angolana.
Assim com esse contexto, anima o povo saber que tudo por ora (analizando o panorama social de Angola) tudo é provisório até que o país ganhe consistência própria criando uma liderança não nos moldes de lobbies (abutres e políticos amorfos, conforme Agostinho Neto).
A esperança ainda que amarga tenha como meta livrar-se das índoles plásticas e emergentes no panorama de Angola. Porque Angola hoje vive a realidade e a violência do ditado autoritarista de quem chegou primeiro, de quem se formou primeiro. A cidadania é fruto da noção de um país sem dono. As negociações tendem a hipotecar o país por ofertas altíssimas de quem está disposto a comprometer e a roubar o país num futuro breve. Há que se construir a idéia e a mentalidade de que todo povo angolano chegou primeiro. Ninguém chegou depois. Como Agostinho Neto havia respondido numa intervista concedida por jornalistas estrangeiros: A África nasceu com o mundo. Essa primeiridade é a noção do comunitarismo africano de que todos, mitologicamente, viemos dos buracos e dos caniços. Razão, por exemplo, da raiz africana mbundu, névoa.
No entanto, voltando, a idéia de ‘mestiços culturais’ deixa vazar a idéia de uma classe social que continua a sedimentar em Angola uma espécie de neo-apartheid que superficialmente parece ser inofensiva, mais que corrói as bases da cultura ancestral consideradas por estes de caduca ao evidenciarem dissimuladamente, assim, premissas dos intentos do ideologismo-descendente de filhos portugueses bem infiltrados e enraizados. Ao mesmo tempo, que agem contra-culturalmente à ancestralidade africana como sendo banal e caduca. A montagem de um setor ideológico, aparato, infiltrado em nome dos angolanos tem ajudado a apagar entre alguns intelectuais nativos no que tange aos valores da africanidade, por meio de uma postura da razão acefálica neocolonialista. Haja vista que os nomes africanos não são aceitos nos cartórios de Angola. A identidade africana é bem fugidia e a confusão é um ingrediente, atualmente, na sina dos/as angolanas. Fazer parte dos escritores angolanos é superficialmente fácil.
Todas idéias que se tomam em Angola os mentores são as essas duas novas camadas aliadas (mestiços intelectuais e assimilados do Ocidente e antigo Leste Europeu), por forças de circunstancias estranhas aos angolanos que ainda não são deixados a reencontrarem e a exercerem sua identidade de uma airosa. Estamos asseverando aqui, mais uma vez, o porquê de Agostinho Neto dizer: “Os elementos amorfos terão que ser depurados do partido”. Conforme contexto é possível verificar que Agostinho Neto morreu por duas razões axiológicas: 1) Quando disse que o mais importante seria resolver os problemas do povo; 2) a citação ulterior a essa, quando fala da depuração no partido.
Com essa superioridade do aparato político-intermediário de mestiços culturais e negros assimilados formados pela consciência do exotismo estrangeiro (literatura, arte e razão) que combate a africanidade, temos em Angola a seguinte realidade sub-absurda: Os negros ficam na fila dos estabelecimentos públicos e particulares. Em contrapartida, a nova classe social do pós independência, brancos e mestiços que se auto identificam sutilmente como “mestiços culturais” (os que pensam conforme legado de Salazar) nunca estão nas filas. É essa classe, que tem o pai português como o modelo, que mais opina sobre o país em detrimento da maioria esmagadora, ou seja, da mãe na maioria dos casos. Fazem de Angola uma ‘mamata’, uma sorte de oportunidade que nunca teriam de alcançar tanto em Portugal como Itália, Espanha, França e etc. Essa nova classe social é oportunista e até mesmo perigosa. Está escudado e a mando de lobbies portugueses e internacionais. Têm muita força e se valem disso. Não se importam da experiência do povo. Vale, somente, a sua experiência. Estão ao serviço do Ocidente. Eles têm todo poder de decisão subornando até o país. E quando se diz que o mestiço sofre duas vezes é pura alegação estratégica. O que sofre é o que não se identificou com o chauvinismo português. Na era colonial essa classe em referencia se considerou sempre como sendo a superior em relação aos meios irmãos, se envergonhando sempre da mãe negra. Por isso, também o ‘pai’ português (império ultramarino) tinha mais preferência nesses do que no ‘negro e no mestiço que identificara no pai a erótica repressiva e desumana. Aí está um dos privilégios. Assim que Angola ascendeu à independência houve uma transmutação. Essa classe se aliou à mãe-“negra” (Angola) para ficar com maior parte de lugares no cenário político e econômico por varias razões das quais umas delas seria, o neocolonialismo invisível montado em Angola. Para sentir-se isso é só entrar em gabinetes públicos ou particulares para sentir a diferença e a arrogância mestiça instituída. Quanto essa classe, superabundante, em poder; também, temos alguns deles que por sua razão social baixa, ou por não se identificarem com o pai português, como frisamos, sofrem com a mãe.
O segundo grupo social são os assimilados negros que Basil Davidson chamou de negros que se sentem brancos, mas que também por força de circunstancias se sentem mestiços culturais não na pigmentação e sim que corroboram da ideologia nova. Essa classe alternativa surge com código colonial que cria mais uma classe colonial no intuito de enfraquecer a luta e retirar os intelectuais negros do contexto social a que eles denominaram de ‘indigenato’ angolano.
Por tudo isso, a bandeira está mais a bel prazer dos “mestiços culturais” e dos ‘negros’ assimilados, responsáveis para guiar os destinos da pátria sem a participação do próprio/a angolano/a. Assim mesmo vai a guerra da minoria que quer transformar os símbolos da africanidade angolana em Ocidental e Leste-Europeu. Coisa que não faz sentido para a maioria da população nativa. O contexto é de uma patente hegemonia nos moldes de uma identidade convulsionada pela arbitrariedade de uma orquestra de confusa identidade. Essa confusão demarca o final de uma transição. É a idade medíocre angolana que precisa ser superada. Angola vive uma puberdade política confusa por conta dessas duas classes emergentes. É ainda a transição da falta de liderança identificada com as causas do país e do continente. É uma fase experimental desordenada pelo mimetismo de posturas arbitrárias de brincar de governar. . Por isso os símbolos da nação parecem bem hilariantes para a nação. São símbolos de uma transição dúbia e perigosa. Só depois dessa fase teremos algo mais substancial e sério. Primeiro, pagaremos às seqüelas bem altas da época colonial que deixou em Angola a amorfidade e a trivialidade. Só depois virá a bonança identitária.
Contudo, o hino nacional é mais ocidental que africano, com uma letra sórdida, absurda que se esvai na exdruxulidade da letra que é insensível as alma dos/as angolanos/as e seus ancestrais, como se pode sentir: “Angola Avante revolução, pelo Poder Popular. Pátria unida liberdade…”, os termos desconexos vociferam fraqueza e vacuidade de uma elaboração de quem não sente nem possui as raízes africana. Para esse exercício é ler hinos de outros paises para se ter a sensação do que falta na rima das idéias e fluidez simétrica traindo a mobilidade social das matizes angolanas.
A bandeira e seus símbolos, em termos de profundidade e sentido são 90 por centos mais ocidentais que africanos. Sendo a africanidade um relapso, um acidente, uma imagem decorativa disfarçante, ou um forçar forçado que coíbe a ordem natural da emblematicidade que devia ser. E tudo sucessivamente é assim. E nesse mancomunar tedioso que todo povo canta insatisfeito a musica que a televisão de Angola, os Jornais, as Rádios sobre essa bandeira nova que o povo abominou, porque não traduz os verdadeiros anseios e identidade do povo. Eis a musica:
O “branco” da bandeira de “A-ngola”, des-Ngola, e/ou negação de Ngola, Njinga, Kimpa Vita, Mandume, Ekuiki II, Ndunduma, Mantiamvwa e tantos outrosás… o que tem haver conosco? Lamuria o povo.
Mas, lá de cima, o silencio se faz sentir e ninguém mais fala da bandeira. Para num momento de faísca e relâmpago se impor essa bandeira já rejeitada. Isso vai acontecer porque não se fez nada de diferente ao grito das maiorias esmagadoras que não concordam. Contrastando o hino da Republica, “pelo poder popular”. Os inquéritos e sondagens feitos não tiveram respostas, somente o silencio sepulcral ornamenta a ‘banda alta’.
O povo lamenta:
O Ixi ia jitata jetu jokulukulu io sumbise mu maundele.
A terra dos nossos ancestrais foi vendido/transformado em posturas embraquecedores.
O ‘dibandela’ kikale o uanji ua jikuku jetu.
A bandeira seja a nossa soberania ancestral.
O ukexilu uetu ki undele ua milele ia zele ni iaxikelela kala kiatulongo o mundele.
A nossa essência não é o embraquecimento dos panos brancos, tão pouco panos pretos como nos impôs o branco.
Etu tusola o ijimbuete ia tutokala.
Nós é que devemos escolher os símbolos que nos dizem respeito.
O kidifanganu kietu ki kuxikelela; etu tu kidifanganu kietu-muene. Etu tuambundu mu maukexilu uetu ua Africa.
Nós não somos pretos nem negros. Nós somos nós mesmos. Nós somos no geral Ambundu, Cthimbundu, Bacongo, Ngangela (conforme língua kimbundu ou outras nossas línguas africanas).
O mindele ki ia tula mu ixi ietu ka tuibuila kuila, enu a nanhi.
Quando o branco chegou em nossa terra não nos perguntou, como vocês se chamam.
Bengue-bengue exi: enu muaxikelela, enu muedi bui.
Tão somente disseram: Vocês são pretos, vocês são escuros. Por isso serão chamados/as negros/as
O kidifanganu kietu o umbundu kuabhu. Kia Ibha o ku ulungulula mu izuelu iengi.
O que nos identifica é, ou melhor, a nossa própria maneira de ser é ser AMBUNDU – o que não se pode traduzir.
Umbundu mu mazui metu: mu kimbundu, mu kikongo, mu umbundu, mu Cokwe, mu ngangela, mu fiote ni kapuete ni kabolokoso ni kamundanda.
Nós somos conforme nossas línguas. Sou Tchimbundu, ou mumbundu, ou ngangela, ou fiote, ou mukubal etc,etc e etc, nunca negro e preto.
Esse país é Angola ou Ngola? Para os portugueses é em seus critérios destruidores da identidade angolana ‘A-ngola’. Que quer dizer, negação de Ngola (a+Ngola) que passou a nos caracterizar ao invés de Àngola (angolanos, como se diz em kimbundu: Etu á-Ngola)..
Em português as formações de neologismos em boa parte e não só os adjetivos secundários ou formados por derivação o (a) é geralmente uma negação como acontece com os seguintes sintagmas: normal > a-normal e cultura > a-culturar. Na verdade o termo Ngola foi aculturado para a-Ngola de desangolanizar, ou desfazer a identidade angolana. Infelizmente, os assimilados e alguns setores camuflados da antiga ideologia colonial em prol do salazarismo e sebastianismo nos querem fazer engolir o termo a-Ngola para desangolanizar como diz a máxima colonial dividir para reinar a todo custo. O que se chama hoje de Angola é exatamente Ixi ia Ngola ou simplesmente, Ixiangola.
Sobretudo, é tempo de todos/as escolhermos o nome que deve nos identificar conforme as etnias existentes. Fomos impostos o nome de Angola. Mas, poderemos um dia optar por Ngola, Congo, Kassanje, Jaga, Lunda e etc. A visão ultramarina é ainda que nos identifica e assim ficamos até hoje. Até em nossa terra eles é que têm a opinião de maior peso para dizermos quem somos. E a nós cumpre cumprir. Todas as instituições ainda sofrem esta maldita influencia. Por exemplo, Ixiangola é estranho, mas Doutchland é algo cientifico e bem aceite. Aqui está a nossa matumbice (ignorância) de intelectuais alienados ao Ocidente.
Parece que essa terra é mesmo de Sócio. Um pôs o Ngola e outro mais esperto, de armas na mão, acrescentou o ‘A’ e deu: A-ngola (Des-ngola). O prefixo de negação se escreve com maiúscula e o segundo, do Rei Ngola passou a se grafar com minúscula. Certamente, os angolanos precisam se decidir se o país deve ter que nome conforme as nossas matizes étnicas da ancestralidade. Isso é mais que nacionalismo. É a busca de uma soberania fundamentada na ancestralidade. É a identidade da primeira e fundamental pertença. É a busca do consenso geral africano. Para uma identidade saudável não podemos depender de estereótipos, preconceitos e conceitos que nos dividiram. A identidade começa nas coisas pequeninas.
O Parlamento angolano e os órgãos de decisão só o serão de fato se tiver lugar a voz ancestral que não pode ser Aristóteles nem Platão, nem Dionísio, nem Plutarco. Não se pode honrar nossos antepassados quando a civilização exógena é que nos dita o querer. E’ o que canta Bonga: “bilukenu mindele, muandomona o sonhi”(embraqueçam-se e se envergonharão).
No ocidente as cores podem ser representadas para dominar e aproveitar universalizar sentimentos racistas de certos sectores. Ao serem convencionadas, as cores tiveram como base a hedionda hegemonia ocidental. Acontece que no ramo da psicologia as cores servem para se ler o caráter da pessoa. Existem cores para representar o mumbundu/cimbundu (…) e cores para o branco. O termo ‘forte’ é um adjetivo completamente negativo para aludir à idéia de uma cor triste ou um sentimento não “civilizado”. O forte é aquilo que não se enquadra nos padrões ocidentais. Tudo que for africano é considerado de forte (bruto), sem requinte e pesado. Nisto está à beleza artesanal, o traje, o falar, o rir, o olhar.
O que se quer dizer ao se chamar o azul da bandeira de ‘ Azul forte’. Na classificação das cores não existe o termo forte, e sim cores com mais densidade e menos densidades. Por que a cor com menos densidade foi chamada de forte. Precisamos eivar o estereótipo colonial. A tonalidade dessa linguagem é meio racista. O racismo adquirido pelo mumbundu “regenerado”, assimilado, repete as coisas por força da repetência e não da reflexão livre, ou não sei o que é.
Peremptoriamente, não há necessidade de uma cor branca na nossa bandeira. Porque para nós africanos/as a cor branca é ambingua, representa a superioridade branca. A cor branca e a preta incentivam o estereotipo e a confusão. Isso tem raízes no filosofo Hegel que escreve de o “branco” significava a luz para o continente sem luz, sem razão, referindo-se a África. Na verdade, essas duas cores, branca e preta receberam uma explicação ocidental estereotipada e racista. Basta colocar em funcionamento, a nossa inteligência e intelectualidade, ao serviço do Ocidente, para descobrir o quanto somos “bestas de cargas alheias” dos outros. O academicismo assimilacionista é um mal que enferma os países em África e no mundo afora.
Hegel, como já dissemos, em sua filosofia havia dividido o mundo em duas partes: O continente indo-europeu, como sendo o que comportava a luz (a fundamental idéia da cor branca) para o continente africano, sempre considerado o continente sem “razão”, emergido na escuridão. Na verdade a cor branca tem sido usada pelos ocidentais para revelar sua onipotência baseada no mito da superioridade branca. Por isso é que a escrita representa a presunção ocidental e de seus assimilados (meios-brancos) ao quererem subjugar a oralidade e a ancestralidade.
A pseudo idéia de Hegel deu na conjunção ‘CLARO: você está CLARO? Ficou CLARO o que te disse hoje? que se usa abusivelmente nos discursos e em cada parágrafo que se escreve. E o irmão antônimo dessa conjunção é o que nós os chamados ‘negros’ usamos sem consciência: Você está a ME DENEGRIR. Depois, ainda vem o sobrinho do termo CLARO que é o MERCADO NEGRO, mesmo sendo articulado por indo-europeus.
A cor branca é o contraste e ao mesmo tempo o avesso da cor preta que passou a identificar irônica e abusivamente o mubundu/c(thi)imbundu. Infelizmente nossos intelectuais, jornalistas, políticos e governantes não param para pensar nisso. O lema é só acumular muita riqueza. Cultura é dinheiro, sexo, luxo e malvadez.Todos se fascinam com produções além-mar mesmo que isso custe seus pescoços. Tudo por conta de uma alienação algures. É uma intelectualidade cobarde que dependente de construções alienígenas. Pensam em imitar o branco, como única condição de se ter conhecimento; relegando a defesa de sua identidade. Falam o que o branco já falou. Pensam o que o branco já pensou. Por isso a criatividade continua virgem e estagnada.
Na verdade, conhecimento não é imitação de estereótipos e mimetismos que foram semeados na nossa mente de forma retórica e presunçosa. O que mais se questiona é que a preguiça do intelectual africano está na acomodação de que tudo aquilo que o branco nos ensinou como verdade ABSOLUTA e Irrevogável. Ora, o absoluto existe enquanto probabilidade e não enquanto realidade construída e acabada. Porém, o que é relativo no Ocidente os nossos intelectuais o tornam absoluto em África, por isso hoje o africano/a deve saber de que um neocolonialismo desvelado é muito mais perigoso que qualquer outro regime indo-europeu. Ainda não aprendemos com a história como os nossos primeiros reis e rainhas foram enganados/as adulatóriamente. Isso devia nos servir de lição.
Quem foi que disse que o africano/a de pigmentação diferente em relação com a do branco deveria chamar-se “negro?” Quem nos deu esse adjetivo? Fomos nós que pedimos para que nos chamássemos assim? Nossos antepassados não se chamavam de negros; tão pouco do superpejorativo ‘preto’; quer dizer: coisa sem intuições ou sem lucidez. O antepassado mbundu, ovimbundu, ngangela, bakongo, e etc, por exemplo ensinaram que nós éramos: conforme nossa civilização africana e nossas línguas. É o caso dos ambundu que tiveram a noção de que todos africanos eram ‘Ambundu’, e não se cansavam de cantar sua alteridade de seguinte modo: “etu tuambundu, tuala ni umbundu uetu” (Nós somos Ambundu, por isso temos a nossa civilização). Deste muito cedo a civilização angolana defendida por todas as famílias étnicas (e nunca chamar de tribos), teve sempre esta peculiaridade de se auto-afirmar. Só que na contra história o branco chegou até nós e disse: o vosso ‘umbundu’ é pura matumbice, ignorância. Em nome do ‘deus’ português e do sebastianismo recebam Agora a ‘civilização’, colonização, do branco. E isso significou trocar os nossos nomes, a maneira de se vestir, a maneira de pensar e agir. A civilização e a mutilação eram a mesma coisa. Samora Machel e Emilio de Carvalho dizem que evangelizar era o mesmo que colonizar.
Como podemos nos aperceber a civilização do branco usou o cristianismo e a escola para destruir o nosso sentimento e a noção de família, impondo a ganância e o lucro que graça a África inteira. O cristianismo através de catecismo católico ensinava que o ‘cimbundu’, o mbundu, o bakongo (…) eram filhos do diabo, e o branco era filho de Deus. Daí o termo ‘negro/a’, ‘preto/a’ passou a significar: azar, desentendimentos, luto, morte e desordem. Daí, os angolanos/as (assimilados/as) que, não sei de que forma, iam se identificando com a ideologia da destruição; usando o seguinte desconchavo: “Eme kikonde ngó, ngimundelami muene”: Eu sou negro/ª Mas, no fundo sou mais branco/a que negro/a. É assim, sempre fomos obrigados, dentro do nosso continente, a nos repelirmos como africanos para nos sentirmos brancos, cristãos ou muçulmanos.
Colocar a cor branca na nossa bandeira é traição aos nossos sobas e antepassados: Ngola Nzinga, Ngola Kiluanje, Njinga Mbandi, Kimpa Vita, Ekwiki II, Ndunduma, Manduma, Mantiamvwa e tantos outros. A angolanidade não pode ser confundida com as convenções dominantes que imperam atualmente. Porque, até agora, nenhum africano foi dado o pleno direito e a oportunidade de participar seriamente de alguma convenção que se fala por aí; senão de levantar unicamente o dedo e dizer e-u-a-p-o-i-o; isto é: me submeto à E-u-ropa /E-stados U-nidos à condição de tabula rasa.
Aprendemos, sempre, a branca falsidade ideológica de que a pomba simboliza a paz. Mas, quando se fala de pomba é sempre e inusitadamente a cor branca. A cinza, a preta, a esverdeada de plumagem com semelhança ao arco-íris no seu pescoço; é simplesmente posta ao longe, sem poder representar a chamada paz, por quê? Isso é crime contra a natureza.
Por causa da alienação que precisa de uma cirurgia, conseqüentemente, quando aniversariamos e casamos escolhemos em primeiro plano cantores brancos e suas músicas. Isso porque nossos ouvidos estão calcinados e a apreciação rendida aos anseios alheios. Temos bons cantores africanos que sabem cantar conforme o contexto das nossas vidas, mas preferimos cantores/as do além-mar o suficiente para nos sentirmos brancos. Nossos conselheiros são os filhos dos antigos colonizadores. Até aqueles estrangeiros que na época da guerra haviam declarado que não tinha nem o mínimo orgulho para visitar é convidado a ganhar ilicitamente somas avultadas. Na verdade, isso mostra que para superar o que não aprendemos nos entregamos de cabeça aos que nunca vão nos respeitar se não houver esforços do nosso lado.
Quando desconhecemos a nossa história significa que não existe capacidade de elaborar a nossa sabedoria milenar taxada de folclore. Um africano que se compraz em classificações que ofendem a sua alteridade é pior inimigo que o então colonizador.
A custa disso tudo os nomes africanos são rejeitados nos Registos Civis e Conservatórios, como já dissemos antes. Isso é sinal de que Angola é dos cimbundu, ovimbundu, fioti, Ngangela, mumuila, ambundu, bakongo? Duvido. Não acham que o parlamento, o governo, os partidos políticos, as Igrejas deviam começar acabar com este estado de coisas que nos leva ruindade. Já viram dentro de A-ngola a pessoa não ser admitida a uma vaga no funcionalismo público por estar ataviado de trajes africanas e por portar a beleza africana em sua estética. Na terra de Ngola e Ekuiki (…) tem que vigorar a nossa identidade ancestral que deve despontar na política na diplomacia, na economia e em tudo.
Primeiro, devemos ser nós mesmos. A vergonha de sermos nós revela como o manto branco da opressão colonial embotou a intelectualidade africana em Angola.
Faça-se a bandeira de Angola com trançados de mateba com pinturas rupestes, com o imbodeiro, com o verde do Maiombe, com nossa estepe e savana, com os nossos gênios ancestrais como a verdadeira kianda, e como havia dito Agostino Neto, se é que ainda o respeitais, “Ia começar (…) a dar os primeiros frutos em liberdade, tal como o imbodeiro secular que, findo os anos de seca, se prepara, em plena floração, para dar as suas mais belas e saborosas múkuas.” O mesmo ainda afirmava a dada altura: “Não podemos submeter a nossa cultura a cultura estrangeira”. Essa era a luta de Neto.
Não coloquem na bandeira a cor branca nem a cor preta. O povo já tem a sua bandeira antes mesmo da independência. Outra coisa, o hino nacional não deverá ser em moldes ocidentais. Tem que ser ao som da marimaba, do dihungu, da puita, do mbuetete. Da dikanza. Nada de quitarra, nada de piano. Fiquem despertos. Se não tiverem criatividade adaptem o hino da África do Sul que é cantado em mais de um país africano. É muito melhor assim. Que inventar coisas que nos subalternizam.
Os intelectuais angolanos a exemplo de Agostinho Neto só não devem se preocupar com o dinheiro, e sim com a angolanidade. Bem como, defender seus símbolos e representações originárias em sentido profundo.

Prof. Domingos José Cazombo