De acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad 2006), divulgada no dia 14 de setembro, caiu, entre 2005 e 2006, o número de pessoas que se declaram brancas ou pardas e aumentou o número dos que se dizem pretos, de 6,3% para 6,9%. Os pardos passaram de 43,2% para 42,6%, e os brancos, de 49,9% para 49,7%.
O ápice da mudança vem justamente da região norte, onde o percentual subiu de 3,8% para 6,2% (63% de aumento), indicando que o trabalho de conscientização feito pelos movimentos negros da Amazônia, somado as políticas de ações afirmativas e ao aumento de referenciais positivos na mídia e educação, estão funcionando e muito bem (para desespero de alguns que insistem no “mito da não-presença negra na Amazônia” e na “ideologia da coluna do meio” ) .
É bem verdade que a classificação censitária “Pardo” do IBGE que agrupa automaticamente os auto-declarados pretos e pardos como população negra, funciona virtualmente bem para 92% da população brasileira, mas não se aplica perfeitamente no caso dos 8% de brasileiros que habitam a região norte, por aqui é óbvio que a maioria dos “pardos” é indigena-descendente e não afro-descendente, mas se fizermos um cálculo “grossus modus” e levando em consideração o padrão nacional de que a auto-declaração de pardos é sempre aproximadamente 5 vezes maior que a de pretos, teriamos então pelos novos números, uma população “amazônida afro-parda” da ordem de 30% que somada aos cerca de 6% de “pretos amazônidas” , nos levaria a nada desprezíveis 36% de população negra na região… .
Pois é…, contrariando os “mitificadores de plantão” deslumbramos uma Amazônia também negra e não apenas indígena, branca ou como muitos preferem “cabocla”( termo preferencial para os não querem “ser ‘indios’ ” e que faz referência aos descendentes de indígenas, obviamente miscigenados ou não, maioria populacional na nossa bela região amazônica) .
Outro dado interessante da pesquisa nacional é que o grupo dos auto-declarados brancos perdeu um pouco de “massa” com o deslocamento de 0,2% para o grupo auto-declarado pardo, o segundo grupo também perdeu 0,6% de “massa” com o deslocamento para o grupo auto-declarado preto, mas não apenas…,é importante observar que a redução do grupo auto-declarado pardo implica também no aumento da auto-declaração indígena, bom sinal, indica que as pessoas estão se conscientizando e parando de fugir do “estigma” de ser negro ou “índio”(as aspas se devem ao fato da maioria dos militantes do movimento indígena , aceitarem bem o termo indígena que é utilizado para designar populações nativas vivendo em seu modo tradicional, mas não gostarem do termo “Índio” que consideram um apelido genérico e descaracterizador da sua identidade étnica específica impingido pelo colonizador branco).
Na onda de “negrificação” da Amazônia, outro fato importante é que a histórica negação da presença negra na região está sendo desmistificada por atividades de massa e acadêmicas, a Universidade Federal do Amazonas,agora tem em seu curso de História, uma disciplina que trata de História e Cultura africana e afro-brasileira (e vem por ai um NEAB),preparando os futuros professores para “um outro olhar” sobre a temática, “saindo prontos de fábrica” para cumprir a lei 10.639/2003; na esteira do processo, em meados de setembro a Escola Sen.João Bosco em Manaus, realizou uma feira cultural que envolveu toda a escola e cujos preparativos duraram 7 meses, os alunos estudaram tudo sobre países africanos, entrevistas com africanos residentes na cidade, se apresentaram com trajes típicos e bandeiras dos países, fizeram pesquisas sobre os afro-brasileiros e contaram com palestras de integrantes do movimento negro local (entre eles eu) sobre Presença Negra no Amazonas, a Capoeira como afirmação, Racismo, além da influência Afro na música e manifestações artísticas locais.
Muito interessante foi perceber a alegria de todos estudantes envolvidos no projeto, mas principalmente dos estudantes afro-descendentes, em assumir sua ancestralidade, exibir seus penteados afro, usar trajes típicos ou falar sobre países africanos nos stands montados para cada um dos paises estudados.
Manaus em 2007 passa a ter o 20 de novembro como feriado municipal e culminando a luta contra a invisibilidade, o enredo para o Carnaval escolhido pela escola de samba amazonense Reino Unido da Liberdade (que em outubro realiza o 1º concurso de beleza negra masculina e feminina do estado), falará da presença negra no Amazonas, da abolição que no Estado ocorreu 4 anos antes da Lei Áurea, homenageará Mãe Zulmira (sacerdotisa de culto de matriz africana recentemente falecida) e trará um “cortejo africano” com nada menos que 600 pessoas negras e com uma “ação afirmativa” inédita no meio carnavalesco local.
Sinal dos novos tempos…, onde a Amazônia começa a se ver e ser vista também negra.

Juarez C. da Silva Jr.