O prefeito de S. Bernardo, William Dib, é um médico que ganhou fama e prestígio como político numa carreira iniciada como vereador. Na eleição para prefeito, em 2.002, obteve 76% dos votos. Ao menos em tese deveria ter sensibilidade para os problemas relacionados à saúde da população em geral e, em especial, à saúde da população negra que corresponde a quase um terço (27%) da população total.
Entretanto, não é isso o que acontece. Há cerca de um ano, o secretário de Saúde de S. Bernardo Wilson Narita mantém engavetado um projeto que poderia estar salvando vidas e ou melhorando a qualidade de vida de milhares de pessoas – o Pronegro – Programa Permanente de Atendimento aos Portadores do Traço e da Anemia Falciforme.
O Programa elaborado pela ONG ABC sem Racismo e protocolado em dezembro de 2.004, mofa nas gavetas do secretário Narita, depois de meia dúzia de reuniões em que prometeu transformá-lo em realidade.
Para entender o alcance de uma medida que não custaria praticamente nada aos cofres públicos, basta lembrar que o grupo das doenças falciformes, caracterizado pela presença de Hemoglobina S nas células (hemácias) formadoras do sangue, está entre as doenças genéticas mais comuns no Brasil, atingindo, embora não exclusivamente, em especial a população afrodescendente – negros e pardos, de acordo com a classificação adotada pelo IBGE.
Dentre as doenças desse grupo destaca-se a Anemia Falciforme – alteração genética surgida na África e trazida para o Brasil, no contexto do regime de escravidão. Desde 1.911 sabe-se da sua existência, porém, como tudo que diz respeito à população negra, a doença foi relegada à invisibilidade.
Estimativas, com base na prevalência no sudeste do país de percentuais que variam de 6 a 10% na comunidade negra, tornam verossímeis os dados reveladores da existência de mais de dois milhões de portadores do Traço (Gene HbS) e de, pelo menos, oito mil casos da Anemia Falciforme. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, anualmente ocorre o nascimento de 700 a 1.000 novos casos.
Apesar de o Ministério da Saúde não dispor de números atualizados sobre a taxa de mortalidade por Anemia Falciforme, dados publicados pelo Boletim Epidemiológico do SUS (Ministério da Saúde-Fundação Nacional de Saúde), em 1.996, revelam que ela chega a 75% na faixa etária do zero a 6 anos, o que a coloca como um grave problema de saúde pública (vide tabela abaixo).
Mortalidade/Anemia Falciforme (%) Faixa Etária
25% Até 04 anos
50% Até 06 anos
75% Até 27,8 anos
90% Até 39 anos
Fonte: Boletim Epidemiológico do SUS – Ano 1.996 (Ministério da Saúde, Fundação Nacional da Saúde).
Além da anemia crônica, as diferentes formas das doenças falciformes caracterizam-se por numerosas complicações que podem afetar todos os órgãos do sistema, com expressiva morbidade, redução da capacidade de trabalho e da expectativa de vida.
O quadro apresentado pelos pacientes, em geral, se caracteriza por episódios de dores nas articulações, dores abdominais, infecções e enfartes pulmonares, retardo do crescimento e maturação sexual, acidente vascular cerebral e comprometimento crônico de outros órgãos.
Uma das mais graves conseqüências da doença é a destruição do baço, o que explica o aumento da ocorrência de infecções graves, como por exemplo, septicemias – a primeira causa mortis entre crianças menores de cinco anos.
Em São Bernardo, considerando-se a existência de uma população afrodescendente de quase 200 mil pessoas, estima-se em cerca de 20 mil o número de potenciais portadores do Traço, sem contar com os casos já bastante comuns na população não-negra.
A proposta do Programa é simples: o Poder Público faz a lição de casa e passa a atender as pessoas com suspeita de serem portadoras do Traço e ou da Anemia, viabilizando o exame de sangue chamado eletroforese de hemoglobina. Custo estimado do exame: R$ 4,50 por pessoa. Com o exame em mãos e identificado o Traço ou a Anemia, a rede pública passaria a dar a assistência necessária – com medicamentos e orientação – para evitar os atrozes sofrimentos por que passam essas pessoas.
Por intermédio de parceria com a sociedade civil, a comunidade seria mobilizada para entender a doença (desconhecida até mesmo de muitos dos seus portadores) e, no caso dos portadores do Traço, geralmente assintomáticos, receberiam aconselhamento genético, para que, em caso de casarem com pessoas também portadoras, se preparassem para a possibilidade de filhos portadores da Anemia.
A experiência mostra que nos países onde se adotou tais providências, o tempo de vida e ou sobrevida aumentou e muito. Nos Estados Unidos e em Cuba, por exemplo, a expectativa de vida chega a quase 50 anos, enquanto por aqui não chegamos aos 20.
O que poderia ser simples, entretanto, se complicou como sempre, quando a politicagem que não tem compromisso nem com a saúde, (muito menos com a vida), entrou no meio. Passado o período eleitoral, o prefeito Dib parou de dar a importância esboçada ao Programa, e nomeou para uma Supersecretaria Admir Ferro, a quem, pela intricada estrutura administrativa de S. Bernardo, Narita está subordinado.
Não se sabe ao certo por quais determinações e ou descaminhos, o fato é que o projeto está a quase um ano parado. Quantas vidas poderiam ter sido salvas se as autoridades de saúde, a começar pelo seu prefeito, tivessem feito a lição de casa? Não se sabe. Nunca se saberá.
Enquanto isso, os sobreviventes continuam na esperança de que a Administração de S. Bernardo não transforme a cidade na “Capital Brasileira da desigualdade racial”, e, para a população negra o “orgulho de viver aqui” acabe por se transformar no seu oposto: vergonha.

Dojival Vieira