A Parada Negra, que no ano passado, ganhou a Avenida Paulista de forma ampla e aglutinadora, numa demonstração de unidade na prática, inclusive com os organizadores da III Marcha, na maior manifestação negra e anti-racista dos últimos 30 anos, reunindo cerca de 20 mil pessoas, veio prá ficar.
Trata-se de uma proposta que pretende que o 20 de Novembro – a data maior de todos os 91 milhões de Negros brasileiros – não seja o dia apenas para o protesto de grupos organizados da militância negra. Queremos que o Dia Nacional da Consciência Negra se transforme no dia em que todos os Negros de São Paulo e do Brasil lembrem suas origens, a história dos seus antepassados, as nossas lutas, a força da nossa cultura – sem o que o Brasil, não seria o Brasil – e as nossas reivindicações históricas, fundamentais para que enfrentemos e superemos a desvantagem que ainda nos atinge, decorrente dos 350 anos de escravismo e dos quase 120 anos de racismo pós-abolição.
A Parada é mais que isso: é a expressão de que vamos superar o racismo e a desvantagem, sem seqüelas e sem ressentimentos, sem ódio; generosos, abertos e receptivos a todas as pessoas de todas as raças, que sinceramente estejam conosco, na luta por um Brasil sem Racismo e por igualdade de oportunidades para todos. Queremos na Avenida Paulista os negros de todas as cores, de todas as tribos, de todas as origens – da academia e da periferia, da capoeira e do Hip Hop; o povo de Santo e os evangélicos, os budistas, os espíritas, os sem-religião, os negros da balada black; os negros que pretendam expressar sua orientação sexual distinta, os empresários, os estudantes, jogadores de futebol, os negros das Escolas de Samba, artistas, as celebridades do rádio e da TV.
A tentativa de alguns setores de criar a polêmica falsa e, mais ainda, de criar uma falsa oposição, estimulando a divisão entre nós, não tem futuro. Mesmo considerando que o conceito que sustenta a IV Marcha é estreito e excludente, pois inclui a penas os setores organizados da militância negra, nós do Movimento Brasil Afirmativo, temos nos colocado à disposição para dialogar em torno de uma Agenda única, tal qual aconteceu no ano passado, em que todos saímos juntos a partir das 12h, do vão do MASP da Avenida Paulista para um roteiro, que seja discutido préviamente e que fortaleça a nossa unidade. Como no ano passado, porém, com pelo menos 3 vezes mais gente. E isso é possível.
Há, no entanto, quem resista ao óbvio. São os que continuam procurando “pêlo em casca de ovo” ou a procura do sexo dos anjos, mencionados acima. Na verdade, quem assim age expressa uma concepção totalitária de Movimento, como aquela que pretende dividir os Negros nos que estão “em Congresso e nos que estão às margens do Congresso”. Têm medo de perder o controle do Movimento, porque dele se sentem donos desde sempre apenas porque pertencem a esta ou aquela corrente política, a este ou aquele partido.
Querem impor ao Movimento Negro uma unidade ideológica impossível, uma unidade de consciência no velho estilo totalitário, e assim tornam distante a unidade verdadeira, possível e necessária, que é a unidade na luta, que só pode se dar com respeito aos diferentes atores – de A a Z – e posições presentes no Movimento social Negro.
Querem, na prática, enquadrar quem pensa diferente, quem tem concepções diferentes. Apresentam-se como herdeiros da luta histórica de Zumbi, mas esquecem que, o Quilombo dos Palmares era uma República de iguais e de plurais, inclusive com forte presença de brancos, fugidos de maus tratos impostos por fazendeiros escravocratas.
Pretendem ser mais negros do que todos os outros, apenas porque são militantes há mais tempo do Movimento, como se cada Negro ou Negra deste país, não tivesse de sofrimentos e ou humilhações – consciente e ou insconscientemente sofridas – o mesmo tempo de vida. Querem ser herdeiros de uma falsa pureza e, desta forma, flertam perigosamente, com uma concepção racialista, aquela que afirma a existência de raças, inclusive no plano biológico, e não como construção histórica dos opressores, que, primeiro, nos escravizaram e agora nos oprimem com o racismo.
Ao fazê-lo, apostam na existência de um país binacional – Negros de um lado, Brancos de outro -e não pluriétnico como somos, o que só pode ser fruto de seus devaneios autoritários.
O Brasil que queremos, sem racismo e sem discriminação é múltiplo, diverso; é o país em que Negros, Brancos e Indígenas, independente da cor e da religião, ou de quaisquer espécie de preconceito e ou discriminação, possam viver dignamente e com direitos e oportunidades iguais para todos. Rejeitamos o racismo, como expressão da supremacia branca, mas também rejeitamos qualquer hipótese de negá-lo para afirmar uma suposta supremacia negra.
A IV Marcha e a Parada Negra, embora expressando concepções diferentes, são manifestações legítimas da pluralidade de posições existentes no Movimento Negro. As lideranças que estão chamando essas duas manifestações devem ter a sabedoria e a grandeza de transformarem as duas – numa única grande e imensa manifestação do Povo Negro de São Paulo no dia 20 de Novembro, com o mesmo horário de saída, com o mesmo roteiro e com uma só coordenação.
É dessa forma que caminharemos para fazer desmoronar o edifício do racismo que ainda nos atinge e nos mantém na desvantagem. É desta forma, que honraremos no seu dia, a memória de Zumbi e a luta heróica de nossos antepassados por Liberdade, Igualdade e Justiça.

Dojival Vieira