S. Paulo – Indiferentes a disputas políticas em torno dos nomes da manifestação, o povo negro de São Paulo ocupará nesta terça-feira a Avenida Paulista na Parada Negra e na Marcha da Consciência Negra, que prometem reunir de 50 a 60 mil pessoas, na maior manifestação anti-racista já vista em S. Paulo. As principais bandeiras da manifestão serão a defesa da aprovação do Estatuto da Igualdade, e da generalização das ações afirmativas na Educação, no Mercado de Trabalho, na mídia, nos Partidos Políticos e no Estado, além da instituição do 20 de Novembro como Feriado Nacional.
São Paulo é a maior cidade negra do mundo fora da África, com cerca de 3,5 milhões de afro-brasileiros, segundo dados da Fundação Seade. O Estado tem a maior população negra do Brasil, com 12,5 milhões de pretos e pardos, de acordo com a mesma Fundação, que é ligada ao Governo do Estado.
A Parada, convocada há pelo menos cinco meses pelo Movimento Brasil Afirmativo, está marcada para a partir das 12h no vão do MASP na Avenida Paulista – o maior centro financeiro do país e deverá reunir todas as correntes e grupos do movimento negro da capital e de várias cidades do interior que já confirmaram a presença de caravanas como Limeira e São Carlos. Além disso, de todas as cidades da região metropolitana haverão caravanas de ônibus em direção à Paulista, sem contar com quem virá de ônibus ou de metrô.
O início da manifestação deverá acontecer já por volta das 10h, com a chegada de carros de som e manifestantes chamados para a IV Marcha da Consciência Negra, organizada por militantes negros da Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN), UNEGRO e MNU, principalmente, mais ligados a partidos políticos como o PT e PC do B e a CUT – Central Única dos Trabalhadores.
O ponto alto da manifestação deverá acontecer entre 12h e 13h, quando começa o culto inter-religioso, as falas das lideranças e manifestações culturais, que serão seguidas da Marcha propriamente dita do MASP, até a Rua da Consolação, terminando em frente ao Teatro Municipal, na Praça Ramos, Centro, no final da tarde.
A IV Marcha ganhou reforço extra porque na semana passada, a vereadora Claudete Alves (PT) negociou com o prefeito Gilberto Kassab (DEM), uma infra-estrutura que incluiu 100 ônibus, caminhões de som e 10 mil camisetas, em nome dos seus organizadores. O acordo foi mantido em sigilo até ser finalmente assumido por dirigentes da UNEGRO, CONEN e MNU, como Edson França, Flávio Jorge e Milton Barbosa.
Unidade
“Vamos vestir a Avenida Paulista com as cores da unidade”, anunciaram lideranças do Movimento Brasil Afirmativo, que ontem à noite ainda preparavam bandeiras com as cores da unidade africana, que fazem parte do logo do Movimento, em preto, vermelho, amarelo e verde. O fotógrafo Eufrate Almeida, que participou ativamente de reuniões em torno de uma agenda comum, preparou uma bandeira de cerca de 30 mil metros que será uma das atrações da Parada.
Além disso, bandeirolas com o símbolo da Parada e do Movimento Brasil Afirmativo e com o lema “Por um Brasil sem racismo, com oportunidades iguais para todos”, confeccionadas pelos ativistas, e panos nas cores da unidade, serão distribuídos durante todo o percurso aos presentes.
“O que o nosso povo precisa é de união para superar o racismo e a herança maldita da discriminação, sem ódios, sem rancores e sem reproduzir entre nós, o que sofremos dos nossos opressores”, disse o jornalista Dojival Vieira, um dos coordenadores do Movimento Brasil Afirmativo, ao defender a necessidade de entendimento entre as lideranças negras, independente de partidos.
A proposta da Parada é de uma manifestação que aglutine não só os negros e negras militantes de partidos e ou organizações, mas todos, independente de partidos, de posição política ou credo religioso e setores anti-racistas da sociedade.
Evangélicos
A Parada Negra terá uma forte participação de movimentos negros evangélicos, articulados pela Comunidade Pão da Vida. Pela primeira vez, esse segmento terá participação ativa e protagonista numa manifestação de 20 de Novembro, o que é considerado um ponto de partida para uma maior presença dos evangélicos – cerca de 15 milhões no Brasil e 7 milhões, só em São Paulo, na luta contra o racismo e por igualdade.
O pastor João Adel, líder da Comunidade Pão da Vida, articulou colegas negros de outras Igrejas e, juntamente com Daniela Zeidan e Marco Davi de Oliveira, este último da Igreja Batista, mobilizou várias denominações para estarem presentes na Parada.
Educafro
Por sua vez, a Educafro – Rede de Cursinhos Pré-Vestibulares, ligada a Igreja Católica, decidiu chamar de Caminhada sua presença na Paulista, o que ocorrerá após uma programação própria que se inicia às 08h30, com uma Missa Afro, na Igreja do Largo São Francisco, aberta a católicos praticantes e convidados. Inicialmente, os organizadores da IV Marcha haviam anunciado a adesão da Educafro ao seu movimento.
Às 9h, haverá concentração na sede da Rede, de onde seguem até a Praça da República, onde haverá ato em frente à Secretaria de Educação para protestar contra as notas acadêmicas falsas e a constante falta de professores bem como uma pauta para melhoria do ensino médio.
Finalmente às 10h, todos se dirigirão ao Hospital Beneficência Portuguesa, à Rua Martiniano de Carvalho, 1.009, Entrada Vergueiro, para uma doação coletiva de sangue.
Segundo o Frei Antonio Leandro da Silva, que estará presente na Paulista como coordenador do Fórum SP da Igualdade Racial, que reúne Brasil Afirmativo, Comissão do Negro e Assuntos Anti-Discriminatórios da OAB/SP, Sindicato dos Comerciários, Instituto do Negro Padre Batista e outras entidades, a postura da Educafro foi definida no último domingo. “Iremos fazer uma Caminhada para a Avenida Paulista, onde participaremos do Dia da Consciência Negra, sem que se diga que a Educafro está do lado da Parada e/ou Marcha. Portanto, estaremos somando na luta por cidadania plena dos afro-brasileiros no Dia da Consciência Negra”, concluiu.

Da Redacao