Sabemos que é a lei da vida, porém o facto não pôde deixar de entristecer por aquilo que representa hoje no mundo africano: morreu não apenas um simples bom político, mas uma referência dos Cinco.
Refiro-me, é claro, a ARISTIDES PEREIRA, o primeiro presidente da República de Cabo Verde, ainda sob a égide do partido único, o PAIGC, de quem não vou falar dada a desnecessidade do acto – durante todo o dia 22 de Setembro e seguinte ouvimos muitas e muito abalizadas declarações (algumas superficiais), de pessoas que conheceram o homem, o político e o cidadão e outras que o estudaram. Vou falar do meu sentimento de perda – que me perdoem a dimensão estreitamente egoísta neste momento.
Como africana, cidadã e, creio, minimamente preocupada com a educação, a formação e o futuro das gerações africanas mais jovens (digamos que as europeias também não estão melhor em termos de referências, mas isso não me consola), acho que foi uma perda irreparável. Uma pessoa com quem falei nesse dia disse-me: estão a morrer todas as nossas referências, com que ficamos?
Respondi que ainda nos restavam algumas poucas, quase nenhumas é verdade, Nelson Mandela por exemplo, aliás, a referência. A pessoa não pareceu muito animada. Eu também não.
A questão é precisamente esta: com que ficamos? Com que nos orgulhamos?
Sou de uma geração em que a formação se fazia, em casa e na rua, pelo EXEMPLUM – palavra latina de que resultou a portuguesa exemplo e que significa uma narrativa de moral de factos reais ou fictícios, usada para ilustrar um ponto, um assunto, uma situação. Por isso, não basta dizer que Aristides Pereira era uma figura maior – não existe afirmação mais anódina, mais generalista do que esta e, por isso, mais insignificante.
Aristides Pereira era mais do que isto: era um estadista, alguém com sentido da história: a sua actuação no tempo de partido único e a sua capacidade de liderança impuseram um estilo de governação que teve influência na forma como Cabo Verde fez uma transição razoavelmente bem sucedida de colónia a Estado independente assim como de um regime monopartidário para o multipartidarismo, sem ostensivas e assassinas exclusões por causa de discordâncias nem eliminação de reservas nacionais (refiro-me a reservas humanas, obviamente).
Quando perdeu as eleições presidenciais, em 1991, ano que foi eleito o segundo presidente desse pequeno grande país, Mascarenhas Monteiro, retirou-se da vida política: não andou a envenenar a vida política, a conspirar pelos bastidores para manter o seu lugar de pretenso “mais velho” – foi escrever as suas memórias, “Guiné-Bissau e Cabo Verde: uma luta, um partido, dois países” (Lisboa: Editorial Notícias, 2002), livro para o qual convocou a colaboração de historiadores.
Um livro que, segundo Joseph Ki-Zerbo, que assina o prefácio, são recordações que respondem seguramente a um dever de memória. Foi por causa desse sentido de dever que deixou esse testemunho do passado e espaço para os outros, não se revelou alguém que não sabia fazer mais nada senão governar, não malbaratou o seu capital político e social em pequenos poderes… E com isso, constituiu-se como exemplo, tornou-se referência.
E, nunca é demais repetir, são as referências – e não propriamente os recursos económicos – que fazem a dignidade de uma família, de uma sociedade, de um país.
Por isso, repito o que já disse mais do que uma vez: que as referências – familiares, sociais e políticas -, são o veículo da transmissão de valores éticos e morais, aqueles que a Escola e a sociedade deveriam ajudar a preservar e a consolidar, não através de aulas de moral ou de comícios, mas de exemplos de quem governa ou está em lugares visíveis, mesmo se longe da ribalta, e de reconhecimento pelos seus concidadãos.
Sociedades sem bons exemplos, sem referências, dificilmente produzirão boas práticas: “escavar os poços de hoje para as sedes de amanhã”, disse ainda Ki-Zerbo.
Não precisamos de pensar muito para termos exemplos de como hoje as sociedades valorizam pouco o trabalho, o esforço e a correcção cívica e ética e se comprazem na ostentação do parecer – mas isso já é outra história. Basta olharmos à volta: temos muitos exemplos do que acabo de dizer…
*Artigo originalmente publicado no Semanário Angolense

Inocência Mata