Inicialmente afirmo que a CONEN – Coordenação Nacional de Entidades Negras NÃO “está em avançado processo de desidratação” conforme o referido no editorial. A CONEN como qualquer outra organização política séria e comprometida com os interesses maiores do povo negro no Brasil apenas ficou com o ônus político de ter proposto, articulado, construído e dirigido o processo que culminou na criação da SEPPIR.
A CONEN não é uma entidade/organização do Movimento Negro que fica esperando para onde o vento vai soprar e a depender das correntes ou da calmaria, dar o bote e tomar de assalto o que foi coletivamente construído, notadamente, os espaços de poder. A CONEN também não faz a política do avestruz, não é indiferente e, sobretudo, omissa. Erramos sim. Erramos porque fazemos. É isso. E, naturalmente, assumimos o desgaste político enquanto militantes compromissados com valores, princípios éticos e a defesa dos mais altos interesses da população negra no Brasil. Portanto, temos uma agenda e um projeto. Corremos riscos, inclusive o de ficar no “ostracismo” – outra expressão do editorial não dirigida a nós, especificamente.
Em segundo lugar, meu caro Dojival, gostaria de explicitar que, individualmente, não me considero do grupo intitulado “Viúvas da Matilde”. Neste caso, a carapuça não serviu mesmo, até porque não sou de São Paulo e não sou de grupo nenhum. Depois porque me desliguei da SEPPIR ainda no processo de consolidação da Secretaria, ou seja, muito antes da crise que causou a saída da Ministra Matilde do Governo Federal. Além disso, cabe afirmar que tanto a Ministra Matilde Ribeiro quanto a CONEN que garantiu o apoio e sustentação política até a sua saída do Governo, tinha e tem projeto, sobretudo o de consolidar os avanços políticos institucionais da luta de combate ao racismo no Brasil. Além disso, penso que é muito cedo para fazer análises e avaliações comparativas de uma gestão e outra. É certo que são modelos ou metodologias de gestão institucional diferentes e tempos conjunturais diferentes.
Por fim, considero o Editorial muito coerente em relação ao Estatuto da Igualdade Racial, tendo em vista a necessidade que temos, coletivamente, de primar pelo respeito aos princípios democráticos e, sobretudo, de garantir a legitimidade dos processos em que participamos coletivamente, ganhando ou perdendo. Senão, concordo com o Editorial, estaremos propugnando por uma “Ética do Bando”. Nesse sentido, a CONAPIR foi um fórum legítimo para sacramentar consensos em torno da luta por políticas públicas, em especial, para dirimir as polêmicas em torno do Estatuto da Igualdade Racial.
Certamente, a luta é democrática e continua, mesmo compreendendo que o Estatuto precisa ser aperfeiçoado no sentido tornar-se um documento-força e referencia que garanta os direitos sociais, políticos, econômicos e culturais da população negra no Brasil e contribua, efetivamente, para erradicar o racismo e as desigualdades sócio-raciais da sociedade brasileira. Isso caberá ao futuro.
Então, meu caro Dojival, este comentário visa estabelecer pontes de diálogo e recomendar aos militantes do Movimento Negro no Brasil que leiam o seu Editorial, no site indicado logo abaixo.
Fraternalmente
Marcos Antonio Cardoso

Marcos Cardoso