Estaria na hora de a Bahia ter um governador negro? Não apenas com traços negróides, tal Octávio Mangabeira e outros que já comandaram o Estado. Mas negro no sentido de oriundo dos movimentos sociais engajados na luta contra o racismo, principalmente dos anos 1970 para cá. João Jorge, que atualmente se divide entre o eixo Salvador-Brasília, em atividades acadêmicas e sócio-culturais do Olodum, provêm dessa seara.
Falida a última ditadura militar ao final dos anos 70, despontaram nos cenários baianos e nacional protagonistas do movimento negro que muito contribuíram no combate ao regime autoritário implantado em 1964. Com o restabelecimento de eleições diretas para governador de Estado, em 1981, e em 1985 para prefeitos de capitais, sempre houve a expectativa de a Bahia dar o exemplo, colocando negros (ou negras) à frente do poder executivo local. Não qualquer negro, mas alguém forjado na experiência da escassez e com visão de conjunto dos problemas que engolfam nossa sociedade.
Ocorre que é cruel a disputa eleitoral. A começar pela forma em que os partidos políticos são organizados no Brasil, geralmente sob o comando de alguns oligarcas. Diferentemente de os Estados Unidos da América, onde o consenso social favorece a possibilidade de concorrência equânime entre os candidatos à obtenção de legenda partidária – vimos isso com Obama dentro do Partido Democrata -, por aqui é curta a visão dos que comandam a máquina dos partidos. Eles, por convencidos ainda do mito da “democracia racial”, jamais se propuseram promover uma candidatura real de um negro a cargo de comando. É tempo de mudar essa mentalidade arcaica.
As lideranças intelectuais, políticas e dos movimentos de promoção da igualdade precisam levar a sério a sugestão do agitador cultural que, saindo do Candeal de Brotas, hoje é escutado em todo o mundo. É preciso criar condições para que uma candidatura negra aos executivos estadual e de Salvador às disputas eleitorais que se avizinham em 2010, 2012 e 2014 se apresente com chances reais de vitória. Se os afrodescendentes são a maioria dos eleitores, a mídia joga um papel fundamental na psicologia do voto.
Por isso também deve ser chamada a participar do movimento que orgulhará toda a sociedade, e mais ainda nos irmanará a Barack Obama. Que não percamos a chance que a provocação de Carlinhos Brown nos dá de tomar a nós a responsabilidade de mudar a face do poder, em prol da diversidade democrática.

Fernando Conceição