O que explica as reações truculentas e violentas transmitidas, não apenas por intermédio das dezenas de mensagens racistas que recebemos diariamente com ameaças, inclusive a nossa integridade física (todas objeto de investigação por parte do Ministério Público de S. Paulo), mas também por meio de atos de sabotagem eletrônica que nos impede de trabalhar? A resposta é simples, óbvia até.
Se houve um dado novo a ser registrado neste ano de 2.005 que passou, foi o fato de que o racismo cordial brasileiro começou a dar as caras, a sair da toca e a mostrar sua face horrenda, seus métodos bárbaros.
Não são apenas os ataques a Afropress que demonstraram isso. O seqüestro e tortura do ativista Cristian Rocha, do Amazonas; a pichação de prédios e equipamentos públicos, em Curitiba, por racistas e skinheads; a campanha movida pela Igreja Universal contra as religiões de matriz africana e suas lideranças, revelam uma preocupante realidade: há uma reação nacional articulada do racismo que pretende se contrapor as ações afirmativas e ao avanço da luta pela igualdade racial no país e que se conecta perigosamente a grupos juvenis de nazistas e skinheads, com histórico de selvagerias e longa folha corrida.
À Afropress tentam atingir porque estamos conseguindo tornar realidade um espaço de acesso à informação na Internet, previsto no Plano de Comunicação aprovado em Durban na Conferência Mundial contra o Racismo, em 2.001, mas que nunca tinha sido colocado em prática. Mais: estamos furando o bloqueio da invisibilidade com que os meios de comunicação convencionais e seus ideólogos e articulistas – formados sob o mito/mentira da democracia racial – reservam à temática racial e étnica.
A mídia, por intermédio deles, tenta desesperadamente evitar que a Causa da igualdade racial adquira visibilidade e relevo no país. Quem leu o editorial da Folha de S. Paulo no dia de Natal; quem já leu os artigos do jornalista Ali Kamel, do Jornal o Globo; de Demétrio Magnoli, da Folha de S. Paulo; quem leu as matérias da Revista Veja, não pode ter mais dúvidas. Lá estão as provas do que afirmamos.
São os saudosistas do racismo cordial. Os ideólogos do mito/mentira da democracia racial, que não se sustenta mais em nada, depois que começaram a ser divulgados os indicadores do IBGE, IPEA e de todos os outros institutos de pesquisa credenciados. A desigualdade racial é elemento estruturante da desigualdade social e, portanto, é impossível continuar ignorando 350 anos de escravismo e 117 de racismo pós-abolição.
Os ataques a Afropress e as tentativas de nos silenciar, entretanto, mostram mais: não apenas estamos furando o bloqueio da invisibilidade, mas, também estamos sendo conseqüentes na denúncia e no combate ao racismo onde quer que ele esteja, encaminhando as denúncias que nos chegam sobre as ações de racistas que pretendem se esconder no anonimato da Internet para a prática de seus crimes.
O resultado desta ação já pode ser visto, com as investigações desencadeadas pelo Ministério Público Paulista, responsável pela identificação dos estudantes Leonardo Serra, de S. Paulo, e Marcelo Valle Silveira Mello, de Brasília – este último processado e com interrogatório marcado para o dia 23 de janeiro/2006.
O racismo cordial, quando identificado e desmascarado, reage com a virulência, a vileza e a ferocidade de sempre. Assim tem sido.
Nós, da Afropress, projeto da Ong ABC sem Racismo, que se mantém graças a dedicação de dois jornalistas e de colaboradores de todo o país, comprometidos com a Causa da Igualdade Racial, sem qualquer ajuda oficial e de empresas, não silenciaremos.
Com a solidariedade de toda a sociedade brasileira (brancos, indígenas, orientais, judeus, árabes, ciganos e todas os segmentos que já sentiram na pele a dor da discriminação), que mais uma vez não nos faltou, enfrentaremos o racismo – onde quer que ele esteja – e nos levantaremos a uma só voz toda vez que formos atacados. O racismo não passará. No Brasil, não há espaço para defensores da supremacia branca. Venceremos!