Essa situação ocorre, ressaltamos; pela postura da academia, em geral, que opta por destacar, por enfatizar a incorporação da massa negra ao operariado urbano como forma de superação das iniqüidades geradas pelo racismo brasileiro, em contraposição a interpretação mouriana que apontava a superação destas, pela constituição de uma sociedade organizada por um viés socialista, tal qual grande parcela da sociologia acadêmica, mas que a luta, o exercício político negro, dentro de um universo popular de contestação social seria peça fundamental nesse processo, mas não como elemento amalgamado ás ações proletárias, mas como elemento principal nessa etapa transformadora da sociedade nacional.
Mas a grande questão de sua não aceitação, em nossa interpretação, se da pela sua busca em exercer uma sociologia, independente, não estatal, não institucionalizada, uma sociologia de práxis que se opusesse ao:
…formalismo que capeia a maioria dos trabalhos de Sociologia acadêmica e o empirismo de outro lado, formam dois pólos de uma contradição: a impossibilidade dessa ciência ver e interpretar em termos de devir o processo antinômico, contraditório, que caracteriza o desenvolvimento do seu próprio objeto de investigação. (Moura, 1978: 25)
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(*) Artigo retirado das considerações finais referente ao estudo “O negro nas ciências sociais brasileira: A Sociologia de Clóvis Moura”, a ser publicado.
(1) Clóvis Steiger de Assis Moura – nascido na cidade de Amarante (PI) em 1925, falecido em 2003 na cidade de São Paulo (SP) – foi jornalista, poeta, historiador e sociólogo, tornando-se um dos mais importantes intelectuais do país acerca dos estudos de caráter afro-brasileiros, tendo sua obra como uma das principais influências dos movimentos negros nacionais.
Como classifica toda sociologia acadêmica como restritiva a produção de críticas geradas ao questionamento do “status quo” dominante, devido a sua institucionalização, tornando-se assim parte do sistema, perdendo sua independência cientifica, isolando-se cada vez mais de sua realidade, fechando-se em um mundo acadêmico fechado em si mesmo, cada vez mais especializado, fragmentado:
Em um mundo em que tudo se inter-relaciona, a Sociologia transformou-se na ciência dos grandes isolados e dos grandes temas atomizados.
Quando dizemos isolados levamos em conta inclusive a atividade de grupos e equipes que trabalham subvencionados, dentro de critérios rigidamente universitários, nos seus diversos departamentos de pesquisas. Apesar de aparentemente trabalharem em equipe são cada vez mais introvertidos, virados para dentro de si mesmos, vendo em cada colega mais um concorrente na carreira universitária do que um colaborador científico. (Moura, 1978: 27)
Outra questão que opunha Moura a sociologia acadêmica, era o fato que para esta, toda produção sociológica produzida fora da universidade não era sociologia, o que para ele demarcava a efetiva superação, sobreposição da figura do modelo de intelectual acadêmico, em detrimento da figura do intelectual publico, processo este que representa, em sua opinião, um afastamento da sociologia de sua práxis política, um afastamento de seu humanismo histórico, reafirmando desse modo á estrutura conservadora em que esta baseada a sociedade brasileira.
O que, remetendo ao recorte sociológico de sua obra, revela a inserção da sociologia acadêmica – quando esta não interpreta os negros enquanto sujeitos políticos de transformação social e histórica e não aceita a produção cientifica realizada fora da universidade – como racista, tal qual a de viés integralista da era Vargas, ou das primeiras décadas da República, desqualificando com isso os processos de resistência negra ao longo da historia nacional.
Moura na introdução mexicana de seu livro “A Sociologia posta em questão” faz questão de enfatizar que sua criticas não têm nenhum valor pessoal, quanto a qualquer pessoa, inclusive faz questão de enaltecer o caráter de Florestan Fernandes, principal representante da escola uspiana de sociologia, mas sem deixar de evidenciar seu descontentamento a postura cientifica da sociologia acadêmica.
Quando fazemos a crítica de princípios e métodos de outros sociólogos não os estamos atacando pessoalmente. Muitos deles, pelo contrário, são donos de magnífica dignidade intelectual, como é o caso específico de Florestan Fernandes.
A nossa crítica visa apenas esclarecer o perigo das suas posições metodológicas, especialmente quando, por não compreenderem o caráter altamente político da sociologia, prostram-se ante correntes de opinião e técnicas de análise que nos chegam exatamente objetivando a impedir o aceleramento do processo social que se desenvolve no Brasil. Não visamos, portanto, pessoas, mas simplesmente posições no plano do conhecimento cientifico” (Moura, 1978: 22)
A postura intelectual, sociológica, de Moura, não se coadunava aos rigores institucionais, era uma postura cientifica que não se fazia referendar em gabinetes, ou laboratórios, sua ação se dava no dia a dia, na realidade empírica dos conflitos sociais, onde intelectualmente se realizava por completo.
Essa postura, essa radicalidade, das posições de Clóvis Moura, aliada a especificidade, e pioneirismo de sua obra, já discorridas ao longo do artigo, acreditamos tenha contribuído em muito para o não reconhecimento, mais que devido em nossa opinião, acadêmico a sua produção cientifica. Em contraposição, devemos ressaltar, ao reconhecimento constante de sua obra pelos movimentos sociais, em especial os reivindicatórios negros.
O que não deixa de ser, em nosso entendimento, o maior mérito de sua obra, o coroamento de sua militância intelectual, de sua sociologia da práxis, ser referendada por aqueles em que optou defender, em inserir dignamente no contexto histórico-social da sociedade brasileira, enquanto cidadãos plenos em direitos e agentes políticos transformadores de sua própria realidade mundo.
Esperamos que assim sua obra passe a ser mais lida, estudada, valorizada como se deve, em vista de que a problematização da questão negra, e do racismo brasileiro, se faz mais do que atual em nossa sociedade, o que nos impele acreditamos que a obra desse grande intelectual se faz mais do que necessária, mais do que contemporânea ao debate acerca da (nossa) complexidade racial-social nacional.
Sua postura crítica e radical de entender e analisar a história social do país, com certeza contribuiu para que além de compreendermos melhor o passado, possamos vislumbrar uma outra história para o futuro. (Mesquita, 2003: 574)
Referências Bibliográficas:
MESQUITA, Érika. Clóvis Moura e a Sociologia da Práxis. Estudos Afro-Asiáticos, Rio de Janeiro, n. 03, p. 557-577, ano 25, 2003.
MOURA, Clóvis. A sociologia posta em questão. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas LTDA, 1978. 133p.
Indicações Bibliográficas:
MOURA, Clóvis. Quilombos, Resistência ao escravismo. São Paulo: Editora Ática, 1987. (Série Princípios, n. 106) 94p.
MOURA, Clóvis. Os quilombos e a rebelião negra. 6. edição. São Paulo: Editora Brasiliense S. A., 1986. (Tudo é História, n. 12) 100p.
MOURA, Clóvis. Organizações Negras. In: SINGER, Paul; BRANT, Vinícius Caldeira ( organizadores ). SÃO PAULO: O POVO EM MOVIMENTO. 2. edição. Petrópolis: Editora Vozes Ltda. Em co – edição com CEBRAP, 1981(a). p. 143 – 175.
MOURA, Clóvis. A nação afro-brasileira. Movimento UNE, revista bimensal da União Nacional dos Estudantes. P. 34-38, novembro-dezembro de 1981(b). (Entrevista)
MOURA, Clóvis. O preconceito de cor na literatura de cordel. (Tentativa de Análise Sociológica). São Paulo: Editora Resenha Universitária, 1976. 87p.
MOURA, Clóvis. Rebeliões da Senzala. 2. edição. Rio de Janeiro: Conquista, 1972. (Prefácio) p. 19 – 26.
MOURA, Clóvis. Rebeliões da Senzala (Quilombos, Insurreições, Guerrilhas). São Paulo: Edições Zumbi. 1959. 237p.
PEREIRA, João Baptista Borges. O último legado de Clóvis Moura. ESTUDOS AVANÇADOS, São Paulo, n. 50, vol. 18, 2004. p. 311- 312.

Christian Carlos Rodrigues Ribeiro