De imediato começamos a receber apoios de todo o país sem, no entanto, deixar de sofrermos críticas de algumas pessoas que disseram que “queríamos aparecer”, que estávamos buscando palanque, ou que esta era uma proposta infundada.
Infundada ou não, o fato é que a idéia foi abraçada pelo Secretário de Assistência Social e Direitos Humanos, pela Superintendência de Direitos Coletivos e Difusos, pela Comunidade Baha’i, por candomblecistas, umbandistas, cristãos, muçulmanos, judeus entre vários outros segmentos religiosos.
4 de outubro de 2010 – Por apenas três pontos percentuais Dilma não leva as eleições no primeiro turno. Um crescimento espantoso de Marina Silva na reta final e a manutenção dos números que Serra apontados pelos institutos de pesquisa desde meados do processo eleitoral, garantiram a este um sobrefôlego e Dilma e ao PT o grande susto de ver uma eleição praticamente ganha começar a correr riscos.
O que poucas pessoas perceberam no início é que o fator que determinou a realização do segundo turno foi um elemento subjetivo, etério denominado “questão religiosa”, que de uns anos para cá vem crescendo há cada dia na agenda política do país.
Poucos dias antes do primeiro turno uma avalanche monstruosa de e-mails começou a circular dizendo que: 1) Dilma era homossexual e mantinha um caso há décadas com sua empregada doméstica que, abandonada, pedia indenização; 2) que Dilma não só era a favor do aborto como encaminharia leis para tratar do tema; 3) Dilma unificaria a linguagem da Bíblia numa só; 4) Dilma proibiria que líderes religiosos discriminassem homossexuais em suas pregações; 5) Dilma trataria de regulamentar horários de pregações religiosas, cuidar da lei do silêncio e coisas do tipo.
Estes são os pontos mais gerais, outros, absolutamente absurdos, circularam via e-mail e, de certa forma provocaram pânico naqueles que acreditam fielmente que são puros e que o resto da humanidade vive em pecado profundo e está destinado a queimar nas fornalhas dos infernos.
O comando geral da campanha da Dilma num primeiro momento não deu atenção à boataria; quando resolveu reagir, ela já havia perdido muitos votos neste eleitorado, tentou voltar atrás em algumas questões – principalmente sobre a questão do aborto – mas a sangria já estava feita e, como resultado, a candidata que já era dada como presidente eleita, vai amargar aí mais um tempo de campanha, agora com o alerta ligado, pois há o risco real de perder as eleições, mesmo com todo o prestígio do presidente Lula.
Pano rápido
O Rio de Janeiro que já foi considerado o eleitorado mais progressista do país elegeu como campeão de votos para o deputado federal a ignóbil figura do ex-governador e marido de ex-governadora, Garotinho com quase 700 mil votos e Eduardo Cunha, com 150 mil votos (5º mais votado). Para estadual: Wagner Montes, funcionário da Rede Record, com quase 500 mil votos e Samuel Malafaia, com 135 mil votos.
Para quem não reconhece o nome, Samuel é irmão de Silas Malafaia, o que representa o que há de pior na direita religiosa do país hoje. Reelegeu ainda para o senado o Bispo Crivela da Igreja Universal. Ou seja, excetuando-se Wagner Montes, que não é evangélico, mas é a cara da Rede Record e, portanto, da Igreja Universal, temos aí altos representantes da direita religiosa sendo muitíssimo bem votados no estado do Rio.
Chama a atenção, no entanto que Átila Nunes Filho e Átina Nunes Neto, umbandistas, não tenham sido eleitos; que Carlos Santana, que bancou a questão da religiosidade de matriz africana também não o tenha sido. Mas volta à Câmara a evangélica da Assembléia de Deus, Benedita da Silva, com significativos 70 mil votos.
E, ato contínuo o comando geral da campanha de Dilma já escalou Benedita e Crivela para se colocarem na linha de frente do diálogo com aqueles que quase jogaram Dilma a nocaute. Daí apreendemos que dizer que é de Jesus dá votos, dizer que é do Santo tira votos e ponto final.
O eleitorado evangélico é coeso, fiel, organizado e extremamente disciplinado. Já o povo-de-santo não tem unidade alguma, não tem visão política, não consegue analisar o cenário político e perceber o quanto de risco há no não fortalecimento de uma bancada ligada à religiosidade de matriz africana. Enfim, a direita religiosa avança!
Voltando ao assunto
Em sua primeira eleição para presidente da república Lula também foi vítima de boataria. Naquela época se disse que a inflação voltaria, que o dólar dispararia, que haveria fuga de capitais e o país ia quebrar. Lula e seus marqueteiros fizeram a famosa “Carta ao Povo Brasileiro” onde Lula de público assumia grandes compromissos com o sistema financeiro e, praticamente, jogava por terra toda a sua história de luta e todo o viés de esquerda que o levou a ser o principal líder popular do país.
Agora, diante da reação da direita religiosa, é provável que Dilma tenha que se curvar a ela, assumindo compromissos que retroajam a agenda de luta LGBT, que afete diretamente a pauta feminista e que garanta à direita religiosa que já domina espaços importantes nos meios de comunicação, mais espaço para propagar sua ira, sua visão retrógrada de Deus e de mundo e que fortaleça o projeto político dos Silas e Macedos da vida para em poucos anos assumirem de vez o poder real no país.
O cenário é extremamente delicado. Há a necessidade de se analisar o cenário político a partir da perspectiva religiosa e compreender que há um acordo tácito entre católicos conservadores e evangélicos pentecostais para garantir que questões como o aborto e a agenda LGBT sejam colocadas como pontos definitivamente enterrados na discussão política em nosso país.
É assustador o poder que essa gente tem hoje. Seja pelo aspecto econômico, seja pelo aspecto político, a direita religiosa hoje aproxima-se do que pior há nos Estados Unidos, sendo que, aqui no Brasil, ela ainda conta com o silêncio obsequioso daqueles que se omitem, dos que são covardes, dos que têm medo de afirmar a religiosidade de matriz africana para não perder empregos, não ficar mal perante os outros, não ficarem mal vistos.
O que fazer diante disso tudo?
O MN não se preparou para lidar com este cenário. Por não ser um movimento homogêneo, o MN encontra-se hoje na encruzilhada de apoiar Dilma, mas sabendo que haverá setores (evangélicos inclusive), que entenderão que a agenda religiosa é algo que não faz mal à população negra, quando, na verdade, a fere de morte.
As mulheres brancas de classe média fazem aborto em clínicas bem estruturadas; as mulheres negras morrem aos milhares vítimas de abortos mal feitos. Negros homossexuais são mortos a pauladas em capitais e nas cidades do interior e diante disso, as igrejas se calam, praticamente concordando com estes atos de violência como estes como se fossem castigos de Deus.
Infelizmente, o MN e o Movimento Religioso de Matriz Africana enfrenta o mesmo problema: falta de unidade, autofagia, falta de lideranças e o não reconhecimento daqueles que têm potencial para ampliar o foco das discussões.
A nosso ver, temos apenas uma alternativa. Tal como as religiões de matrizes africanas, há um sem número de setores religiosos insatisfeitos com o que está acontecendo e, principalmente, há setores ligados às igrejas protestantes tradicionais que têm verdadeira ojeriza ao que está acontecendo e também temem o crescimento da direita religiosa.
Sendo assim, a alternativa possível é a mesma proposta no dia 12 de setembro de 2010, que nos articulemos para uma Conferência Nacional Sobre Liberdade Religiosa, onde seja possível construir acordos mínimos de convivência entre as várias tradições religiosas de nosso país.
Não há condições em uma conferência como esta discutir temas que são bandeira de luta da direita religiosa como o aborto, mas devemos discutir estratégias de combate à intolerância religiosa, formas pedagógicas de lidar com ela e que formas de diálogo inter-religioso podem ser constituídas no Brasil.
A agenda religiosa se colocou como pauta deste segundo turno. Não podemos ficar a reboque. Precisamos nos articular de Norte a Sul para que possamos, como religiosos de matrizes africanas, influir nesta pauta, colocar nossos temas e nela influir, por mínimo que seja.
O título original do artigo é “A questão religiosa e o segundo turno das eleições presidenciais de 2010”.

Marcio Alexandre M. Gualberto