Partimos do princípio de que a Bíblia é um importante conjunto de livros eminentemente étnicos, de interesse histórico, jurídico e moral dirigido aos povos judaicos e descendentes. A sacralização desses livros obedeceu a objetivos muito mais políticos que filosóficos, como não aconteceu, por exemplo, com os ensinamentos hinduístas, budistas, taoístas e os ensinamentos não escritos das religiões africanas tradicionais.
Em ambientes onde o pensamento judaico-cristão foi imposto, às vezes de forma violenta, essa sacralização foi admitida pelos oprimidos através de sincretismos e apropriações, como ocorreu, nos Estados Unidos, nas chamadas “igrejas etiópicas” a partir do século 19. Aí, a apropriação que afrodescendentes fizeram de alguns textos bíblicos – por exemplo simbolizando o rio Jordão no Mississipi, Moisés em alguns de seus líderes, o cativeiro egípcio dos hebreus ao que eles próprios amargavam no Novo Mundo -; essa apropriação foi, a nosso ver, puramente estratégica, em sua sincretização.
Hoje, nas periferias das grandes cidades brasileiras, as massas miseráveis, majoritariamente compostas por negros de todos os matizes, anestesiadas principalmente pelo analfabetismo funcional, pelas telenovelas e pelo telejornalismo manipulado ou pelas técnicas de comunicação empregadas por “bispos”, “missionários” etc.; essas massas são absolutamente incapazes de trazer o Evangelho para sua realidade, como o fizeram os antigos afro-americanos (inclusive o negro William Seymour, fundador do novo pentecostalismo), em cujas igrejas até hoje se dança, canta, batuca e até se recebe o “Espírito Santo”, em transes espetaculares, no mais puro estilo africano.
No Brasil de hoje, amestradas nos limites do fundamentalismo mais emburrecedor, as massas negras, são, no geral, incapazes de refletir sobre sua ancestralidade e sobre os fundamentos de sua opressão. E muito menos de entender que os livros do Velho Testamento , com seus adultérios, roubos, homicídios, sodomizações e estupros são nada mais que livros históricos. Que inclusive legitimam o racismo contra as “raças, escuras”, através principalmente de um episódio que vale a pena aqui recordar.
Nele, o patriarca Noé se embriaga ao experimentar pela primeira vez o vinho e adormece nu. Após isso, um de seus três filhos, Cam, o vê assim despido, acha graça e vai contar o que viu aos irmãos. Estes, pegam um véu, vão até seu pai e o cobrem, sem que ele os veja. Mas depois narram-lhe a zombaria de que fora objeto.
Noé fica furioso e decide amaldiçoar Cam. Mas Cam já fora abençoado. Então, o patriarca descarrega toda a sua cólera sobre seus futuros descendentes, condenado-os a serem escravos de seus parentes. É então que, após o Dilúvio, no assentamento das populações humanas sobre a Terra a partir dos três filhos de Noé, aos descendentes de Sem (os semitas) cabem as margens orientais e meridionais do Mediterrâneo; aos de Jafé (jafetitas), as margens setentrionais e ocidentais desse mar; e aos de Cam (camitas) as terras desconhecidas da África, até sua extensão mais longínqua.
Os filhos de Cam tornam-se, então, segundo a Bíblia, a origem de todas as populações negras. De onde se conclui: os negros são os herdeiros naturais da escravidão. Daí, a escravidão negra ter sido perfeitamente legitimada e o tráfico de escravos africanos aparecer, desde então, como um meio providencial de escravização.
Versão evidentemente lendária mas tendo, como todo mito, seu mitologema, isto é, um fato real que o originou (e os textos bíblicos foram escritos muito posteriormente aos acontecimentos que narra), essa passagem do Gênesis é a fonte primordial do racismo anti-negro ainda imperante no mundo.
A interpretação literal da Bíblia, como é feita pelas seitas barulhentas que pululam aqui pela vizinhança – essas que demonizam as religiões afro, lutam contra a cultura afro-brasileira e privilegiam o “louvor gospel”, de claro interesse da indústria fonográfica pop, em seus templos, televisões, gravadoras e até em absurdos cultos realizados nos meios de transporte público; essa interpretação fundamentalista, vê então os negros como a “raça amaldiçoada de Cam”.
Por isso, nas eleições de domingo, nós aqui no Lote, abençoados que somos, não votaremos em nenhum desses “pastores”, “ministros” ou “missionários” neopentecostais, fundamentalistas e criacionistas que andam por aí nos amaldiçoando e enchendo o saco – o nosso, de aborrecimento; e o deles, de dinheiro.
E você?
*Texto reproduzido com autorização do autor do Meu Lote – www.neilopes.blogger.com.br

Nei Lopes