Brasília – Podemos citar que um corpo está doente, quando há desequilíbrio entre o meio interno e o externo, resultando na perda ou deterioração de uma função interna e isto resulta em limitação deste indivíduo para atuar em seu meio ambiente.
Assim, as doenças são causadas por fatores internos biológicos e meio ambiente externo. No caso da população afrodescendente, apenas a Anemia Falciforme e a Deficiência de Glicose 6 – Fosfato Desidrogenase são doenças comprovadamente de origem genética, ficando as demais sujeitas a uma interação entre componentes internos e externos. Observa-se no cotidiano que a população afrodescendente está sujeita a doenças diversas, em razão de sua maior exposição a um meio externo de opressão e violência social. Isto é, a violência urbana, a falta de saneamento básico, renda familiar inconstante, moradias insalubre, alta taxa de evasão escolar, subemprego são indicadores da má qualidade de vida a que esta população vem sendo exposta de modo sistemático. A reprodução desta situação por várias gerações passa a ser percebida tanto pelos opressores quanto pelos oprimidos, como uma situação natural e inerente a suas vidas. Associam sua origem étnica à subjugação a que foram submetidos enquanto escravizados, introjetando um sentimento de menor valia social com pouca combatividade pelos seus direitos de cidadão. Estes fatores externos, sociais, econômicos e culturais determinam o racismo e preconceito brasileiro e tomam a primazia sobre o biológico, resultando em alta morbimortalidade entre os afrodescendentes.
De acordo com a classe social em que nascem, os indivíduos são providos de bens que lhes garantem um patrimônio econômico-social e cultural; e com base neste será construída sua identidade familiar e pessoal.
Assim, é possível ampliar este patrimônio quando já se parte de bases sólidas, de forma que estes indivíduos podem ter a garantia, em seu meio, de um lugar privilegiado e de reconhecimento social. Estas bases ajudá-lo-ão a ampliar seu patrimônio, tendo acesso a boas escolas, emprego condizente, moradia, salário condigno e a bens e serviços de saúde.
A população afrodescendente utiliza, basicamente os serviços públicos de saúde; isto, em decorrência de seu baixo patrimônio social que não lhe permite acessar os serviços de saúde privatizados ou conveniados. Com a desestruturação dos serviços públicos de saúde, ter acesso a estes é um privilégio que poucos acabam tendo. Conseguir uma vaga para internação ou um exame de apoio diagnóstico é uma tarefa quase impossível, contribuindo para o agravamento do estado de doença desta população. Assim, o binômio saúde e doença está intimamente ligado às condições de vida, nos quais os fatores adquiridos interagem e tomam a primazia sobre os biológicos, determinando a vulnerabilidade da população afrodescendente de adoecer e morrer de modo precoce.
O conceito de vulnerabilidade tem sido mais empregado nos Estados Unidos a partir da década de 90, como forma de desmistificar conceitos estigmatizantes como: “fator”, “grupo”, “comportamento de risco”, palavras e ações que marcaram historicamente a epidemia de AIDS, suas estratégias de prevenção e assistência às pessoas vivendo com o HIV ou AIDS. O preconceito gerado por esses termos produziu custos técnicos, sociais e políticos por reproduzir um pensar discriminatório, portanto excludente.
No campo da prevenção da AIDS, a vulnerabilidade está associada, a comportamentos que facilitam as possibilidades de infectar-se (sexo sem proteção, transmissão vertical, uso de drogas injetáveis compartilhando agulhas e seringas). No entanto, estes comportamentos não são condições dos indivíduos, mas, resultantes do meio sociocultural e econômico em que vivem.
Neste trabalho, focalizamos a população afrodescendente e sua vulnerabilidade social às doenças, conforme modelo explicativo proposto por MANN e colaboradores; isto é, a fragilidade da população afrodescendente ante agravos decorrentes do meio ambiente, gerando diferentes susceptibilidades às doenças, tanto no individual como no coletivo.
De modo geral, a população pobre, sofre vulnerabilidades semelhantes, entretanto, ao focalizarmos a população afrodescendente temos de considerar os efeitos desagregadores da discriminação étnica-social, que conforme CUNHA, age num contínuo sinergético com a ignorância, classismo, machismo e racismo. É este conjunto de fatores que determinam as doenças e seu mau prognóstico na população afro-descendente.
Assim, os grupos populacionais afrodescendentes, dependendo da Nação, Estado, Município, Bairro, Vila estão sujeitos à vulnerabilidade social de seu meio, interagindo com fatores hereditários e adquiridos por meio de sua composição étnica. Este fato aponta para a necessidade de intervenções regionalizadas objetivando reduzir os altos índices de mortalidade nesta população.
Referências
Kikuchi,Berenice Assumpção e Cunha Jr,Henrique
Anemia Falciforme- As representações Sociais do Racismo Brasileiro
5º Congresso Afro-brasileiro- Bahia 1997
Mann,J;Tarantola,DJM, Nelter,TW( orgs)
a A AIDS no Mundo -Relume Dumara- Rio de Janeiro 1993

Berenice Assumpção Kikuchi