Pouco importam as razões alegadas, ou de onde partem tais reações: se do ativismo belicoso e bravateiro ou se de patrulheiros ideológicos de última hora. A conclusão é uma só: a luta para que o Movimento Negro – um dos mais antigos, senão o mais antigo movimento social do país – deixe de ser apenas um lobbie de alguns poucos, abandone a velha agenda, ultrapassada e anacrônica, e se afirme como um Movimento Social, de fato, capaz de mudar a agenda do país, está apenas começando e as resistências não serão poucas.
Não faltarão os auto-proclamados “donos” de um Movimento Social que, por natureza, é de todos os negros e negras e mais dos aliados não negros que tivermos a capacidade política de conquistar e atrair para a nossa Causa; isso para não falar dos toscos patrulheiros do coeficiente de melanina e o seu triste mundo bicolor. A pergunta que não quer calar a essa espécie de comissário que se pretende dono dos nossos destinos, apto a dizer o que pode e o que não pode ser dito, democraticamente distribuída nas Academias, nos Partidos, no Movimento Sindical e no Estado é: um movimento social que envolve diretamente 49,5% da população brasileira preta e parda auto-declarada e indiretamente a todos – porque diz respeito ao avanço da democracia no país – não deveria atuar numa perspectiva mais plural, menos sectária e doutrinária, digamos, mais democrática?
O advogado Humberto Adami, presidente do Instituto de Advocacia Ambiental e Racial, do Rio, vai direto ao ponto quando registra “a dificuldade que temos de enxergar o bom, o perfeito, no outro, que não sejamos nós mesmos”. E conclui que há, sim, “auto-proclamados líderes do movimento negro que não tem nenhum liderado, ou pessoas que não tem nenhuma liderança, e que nem por isso deixam de se intitular líderes”. Esses líderes, acrescenta Adami, tem perdido enorme espaço, não têm qualquer interseção política e vivem a vagar de assunto ou fato até o próximo. “São líderes deles mesmos”, conclui.
Claro que, qualquer sopro de mudança em uma cultura política esclerosada, e ainda mais quando essa mudança remete a uma história de 400 anos de sofrimentos no escravismo e mais 120 anos de mais sofrimentos no pós-abolição, encontraria resistências. É da dialética da vida. Porém, a intolerância fica explícita quando o que temos afirmado é apenas o óbvio. Ao menos para quem não se auto-invista da autoridade de guardião de dogmas.
Idéias que nada tem de sectárias, de dogmáticas, ao contrário: têm enorme audiência e receptividade junto aos negros e negras para quem a conquista da igualdade de oportunidades passa pelo fim da alienação que nos reserva o espaço do gueto, quando somos a maioria; uma maioria que não quer afirmar-se com base na cor da sua pele, mas no direito inalienável à cidadania plena. Idéias, tais como:
a) que o Movimento Negro deve deixar de ser a expressão partidarizada de alguns, que se pretendem seus porta-vozes, apenas porque ocuparam os espaços dos “Puxadinhos” (na Academia, nos Partidos, no Movimento Sindical e no Estado) reservados pelo sistema racista, e que não passam de eficazes instrumentos aos quais o Estado e as demais instituições lançam mão para cooptar uns poucos, mantendo alienados e distantes de qualquer espaço de decisão e poder, os 92 milhões de afro-brasileiros – que sofrem na pele, literalmente, e no seu cotidiano – as conseqüências da exclusão.
Esses espaços – os “Puxadinhos” – tradicionalmente reservados aos que mais se destacam, aos mais brilhantes, são a expressão da lei não escrita, segundo a qual, negro tem e deve saber e conhecer qual o seu lugar; o espaço do gueto, do excluído; ou, quando aceito, não pode ultrapassar o espaço do simbólico, aliás, simbólico de um modelo de inclusão subalterna, que é o único que admite a mobilidade social para os negros.
b) que o Movimento Negro, rompendo com o caráter partidarizado e de gueto que hoje o caracteriza em larga medida e, portanto, o impede de ser porta-voz das demandas que interessam a milhões de brasileiros afrodescendentes, adquira também a capacidade de falar para esses milhões e mais para a outra metade – os 49,7% de brancos – que, embora não necessariamente racistas, é, sim, beneficiária – conscientemente ou não – do sistema excludente e concentrador de renda, que torna o país o campeão mundial no quesito desigualdade.
c) que sendo amplo e não partidarizado – seja também laico, aberto aos sem e aos com religião – porque há negros em todas; que sendo amplo e não partidarizado, não se deixe aprisionar por “verdades” ideológicas – que nos dividam, entre os de direita e os de esquerda – inclusive porque, tais conceitos tratados fora de contexto, mais confundem que explicam.
Temos no Movimento Negro Brasileiro auto-proclamados líderes que falam de projeto político para o povo negro (a quem se dirigem como “irmãos e irmãs”) com um grau de animosidade e belicosidade, assustadores. Tais líderes – que se pretendem as últimas reencarnações de Malcom X – não são cômicos nem trágicos, apenas caricatos. Detalhe: a animosidade só é dedicada aos “irmãos e irmãs negros”, porque para os brancos – a quem no discurso dizem combater com a ferocidade de quem caça leão nas savanas da África – “miam” como gatinhos.
O interessante é que, até mesmo os caricatamente raivosos, na prática, não deixam de ser expressões do “Puxadinho”; uma espécie de guardiães da senzala, presente nos gestos, na atitude, na postura vitimizada, no rancor e no ressentimento contra os pares e, especialmente, no espírito. Rancores e ressentimentos que podem até ser justificados pelas seculares humilhações, mas que não deixam de ser apenas isso: rancores e ressentimentos.
A divisão entre nós é outra, bem diferente: está entre os que não aceitam continuar carregando a desvantagem histórica que aparece em todos os indicadores sócio-econômicos e reivindicam o seu lugar e o seu espaço por séculos de trabalho dos nossos antepassados (desde a extração do pau-brasil, ao ciclo do café, passando pelo ciclo do açúcar e do ouro) e, portanto, querem ocupar o seu espaço como cidadãos, como qualquer cidadão brasileiro – independente da cor de sua pele; e os que aceitam o modelo de inclusão subalterna das elites beneficiárias do racismo, que reserva aos negros o espaço do puxadinho, os restos que caem da mesa, o lugar do simbólico; a entrada pela porta dos fundos, o lugar subalterno.
d) que a superação da cultura e do sistema racista não é tarefa apenas para os 49,5% negros – diretamente atingidos, mais de toda a sociedade brasileira, negros e não negros. Só dessa forma será possível colocar a luta pelo fim do racismo e da cultura discriminatória na agenda do país e transformar as políticas públicas – hoje apenas símbolos de governos que aceitam o modelo de inclusão subalterna – em políticas do Estado brasileiro, que se traduzam em todos os níveis e esferas – na Educação, na saúde, no acesso ao mercado de trabalho, no universo de direitos.
e) que o rompimento do caráter de gueto, partidarizado fadado a ocupar apenas o espaço do simbólico, passa pela nossa capacidade de construir pontes com esses amplos setores da sociedade, interessados na superação do racismo e na luta por um Brasil menos injusto e com igualdade para todos.
f) que a vitória de Barack Obama sinaliza para todos os negros do mundo, em especial para os negros do Brasil, a maior Nação negra do Planeta fora da África, que “Sim, nós também podemos”. É um acontecimento, portanto, desses capazes de representar um novo momento, um sopro de esperança para todos os negros da diáspora e para todas as pessoas que sonham o sonho de Martin Luther King – negros e não negros; está no mesmo nível da derrubada do Muro de Berlim, em 1.989, como símbolo de um mundo em que, ao invés de muros entre as pessoas, tenhamos pontes de diálogo e de entendimento.
“Sim, nós podemos”, também pode e deve se constituir numa bandeira para o rompimento das barreiras históricas que nos impedem, a nós negros, o acesso ao mundo dos Direitos. Mas essa mensagem tem um caráter também mais amplo – daí a esperança que ela desperta em todo o mundo – porque ela representa um “sim, nós podemos” vencer a todas as barreiras colocadas pelas diferenças.
g) que é preciso construir pontes com os setores da sociedade brasileira que já entenderam e passarão a compreender dia após dia, os efeitos do racismo em nosso cotidiano, fazendo com que a democracia racial no país – deixe de ser apenas um mito para se traduzir em mudanças não apenas na forma mais no conteúdo das relações sociais, econômicas, políticas etc – e que a Abolição conquistada – também apenas no plano formal por uma Lei, a Aurea, de caráter declaratório – signifique a inclusão da imensa massa de negros despossuídos, aos direitos básicos da cidadania – trabalho, terra, educação, saúde, moradia, entre outros.
Não existe possibilidade de ponte, nem de diálogo, entre a Casa Grande e a Senzala. É preciso acabar com ambas – ainda presentes no imaginário, no inconsciente coletivo e na estrutura social brasileira.
Uma segunda Abolição, portanto, é o que precisamos. E essa só será possível – se tivermos, como na primeira, a capacidade de transformá-la em um movimento social, um verdadeiro movimento por igualdade civil de todos os brasileiros, do qual participem negros e não negros – ainda que, estes, por óbvio devam tomar a iniciativa e exercer o necessário protagonismo – inclusive por serem os principais (não os únicos) – afetados pela herança do escravismo e do racismo pós-abolição.
SIM, NÓS PODEMOS! Um outro Movimento Negro é possível. Independente de Partidos e do Estado, laico, amplo na concepção anti-racista incorporando amplos setores da sociedade, capaz de dirigir a luta dos negros e brancos pobres no Brasil por Igualdade, Liberdade e Cidadania Plena.