As circunstâncias que fazem com que o que chamo de "movimento negro oficial" (estas seppirs da vida) seja algo tão questionado, não podem, me parece, estar isoladas do contexto do aparelhamento geral do movimento social praticado pelo PT desde que ascendeu ao poder. Afinal, são 12 anos de clientelismo.

Aliás, recuando até a gênese de tudo isto, este processo de aparelhamento do movimento social brasileiro, nem foi uma tática política exclusiva do PT.

Sem poder aprofundar ainda o tema por aqui, me parece que ocorreu, logo após a anistia política (1979) e a reorganização do incipiente movimento social brasileiro, mobilizado em torno da luta geral contra a ditadura, uma sutil (e de certo modo, natural) diluição da luminosa independência deste movimento, de bandeiras tão amplas quanto diversas.

De fato muito deste esforço por nossa democratização real foi capturado pelos novos ou renovados partidos, da esquerda à direita. O movimento negro, por conta da natureza estratégica de suas demandas para a democracia brasileira, talvez tenha sido o mais prejudicado neste processo de degradação ideológica e política cuja linha de tempo pode ser traçada, desde a clara derrota que foi o movimento "Diretas já", passando pelo equívoco gigantesco da eleição de Collor até esta era de corrupção estatal deslavada e sistêmica que vivemos agora na era Lula.

Outra questão a ser ressaltada é que o caráter arcaico e colonial da estratificação social do Brasil – da qual o racismo é o fator fundamental – tem no negro (maioria populacional) seu protagonista principal. É o negro que morre assassinado, real ou simbólicamente.

Assim, o que temos tido em todas as fases desta luta antirracista brasileira (abolicionismo do século 19, Frente Negra do Brasil nos anos 30, Teatro Experimental do Negro nos anos 50 e IPCN e Movimento Negro Unificado nos anos 70/80) é o conflito surdo entre dois tipos de lideranças.

Os raros românticos comunistas como Solano Trindade, por exemplo, tidos sempre como inconvenientes "radicais" a serem mantidos à sombra e pragmáticos oportunistas, assimilados ("capachos de branco") como Benedita da Silva, ou mesmo pragmáticos controversos como Abdias do Nascimento e Lélia Gonzales.

Nada muito diferente do que tivemos com os sindicalistas pelegos da Era Getúlio Vargas, os aparelhos de pelegos camponeses do MST ou a reciclada pelegada "de esquerda" da CUT, Força Sindical etc, tropas de choque do pelego-mor Lula da Silva.

São grandes blocos de pressão e apoio político cooptados, em conflito com dissidências isoladas, que se esfalfam para criticar ou denunciar os que estão exercendo cargos na rede "chapa branca" do poder.

Neste quadro, é mais constrangedor ainda concluir que as "seppirs" e afins são aparelhos governistas de segunda classe.

O que eu quero dizer com isto? É que não existe hoje mais saída alguma que não seja rejeitar, radical e veementemente a falsa representatividade desta gente. Não se trata mais de exigir que exerçam de forma digna a função para a qual supostamente foram delegados. Nunca os escolhemos. Nos foram enfiados goela a baixo, são impostores, portanto.

Precisam ser denunciados, desmascarados.

Se foram eleitos por muitos de nós, só porque eram candidatos pretos e nesta função se venderam, vergonhosamente para o sistema (como fez Benedita entre outros) que sejam expurgados de seus cargos ou ignorados e desmoralizados, publicamente por se passarem pelo que não são.

Ridículo exigir que sejam apenas negros. Precisamos de líderes de homens e mulheres oprimidos pelo racismo que tem, ele, o racismo, como intenção principal, a exclusão de um grupo, podia ser qualquer um.

Esta história de que "roupa suja se lava em casa" é típica do tempo da escravidão, a ideia submissa e torta de que esconder os canalhas da família, reforça a nossa união. Errado. Os canalhas corróem a nossa integridade moral, estraçalham a coesão do grupo, isto sim.

Não nos representam, estamos concluindo agora, certo? Mas é necessário também reconhecer que representam a nossa recorrente ignorância política, a nossa omissão subalterna, a nossa reiterada vocação para a escravidão.

Vivemos com as almas presas ainda por serem libertadas nesta "Síndrome do Escravo", a submissão entranhada em nós como ferro em brasa.

Se a Abolição não funcionou, sou pela desescravização já!

 

Spírito Santo