As revelações são de Henry Louis Gates Jr., 58 anos, diretor do importante centro de estudos negros da Universidade Harvard, em entrevista ao correspondente da Folha, em Washington, jornalista Sérgio Dávila. Para Gates Jr., que acaba de lançar o documentário “Looking for Lincoln” (À Procura de Lincoln), Obama quer ocupar o lugar de Lincoln, que é visto por historiadores e em pesquisas populares como o mais importante presidente americano.
Veja a entrevista, ao correspondente da Folha, Sérgio Dávila.
FOLHA – Afinal, Lincoln era racista?
HENRY LOUIS GATES JR. – Era racista quando mais jovem, antes de se tornar presidente. Chamou os negros várias vezes de “niggers”, em um discurso em 1858 disse que era contra os casamentos birraciais, disse que os negros não deveriam ter o direito de entrar em brigas, não deveriam ter o direito de participar de um júri e não deveriam poder votar. Como dizemos aqui nos EUA, se a coisa se parece um pato e soa como um pato, é um pato. Mas ele mudou durante a Guerra Civil, por conta das pressões da Guerra de Secessão. Ele precisava de mais tropas para vencer o conflito. O Norte estava perdendo para a Confederação, e a única maneira de ele conseguir mais soldados era libertar os escravos do Sul. Muita gente acredita que a Declaração de Emancipação dos escravos só se aplicava teoricamente aos escravos dos Estados rebeldes, não a todos os escravos dos Estados do Norte.
Mas ele precisava das tropas e incluiu uma cláusula na Declaração que permitia que os negros combatessem na guerra. Já haviam combatido na Revolução Americana, o pai do meu tataravô era um negro chamado John Redman, que lutou na Revolução. E participaram um pouco na Guerra de 1812, mas ninguém queria que os negros tivessem acesso às armas, porque tinham medo que eles iam voltar e matar seus ex-donos. Lincoln os incluiu na Guerra Civil e depois disso sempre se referia a eles como “meus 200 mil guerreiros negros”. Ficou convencido para sempre que foram esses negros que deram a vitória ao Norte. Outra coisa que fez com que ele mudasse seu jeito de pensar foi conhecer Frederick Douglass.
Ele o encontrou três vezes na Casa Branca, e era o negro mais inteligente que ele já tinha conhecido. Lincoln não conhecia nenhum negro até aquele ponto que tinha sido tratado com um igual, só os que trabalhavam como serviçais. Seu Estado político, Illinois, tinha uma lei que proibia que os negros fizessem residência fixa ali. Então, digo que ele era um racista reformado, como um alcoólatra que mantém seu vício sob controle. Ele lidou com seu demônio. Em seu ultimo discurso na Casa Branca, na varanda, as pessoas ficaram lá embaixo aplaudindo e gritando, porque ele tinha conseguido unir o país e vencer a Guerra. Ele disse que queria dar aos seus 200 mil guerreiros negros o direito ao voto, e ele se referiu a ele como “negros muito inteligentes”. Estava obviamente se referindo a gente como Frederick Douglass. E adivinhe quem estava entre as pessoas ouvindo o discurso? John Wilkes Booth, que quando ouviu isso pensou: “Isso quer dizer que os negros serão cidadãos e isso eu não vou permitir”. Três dias depois, ele matou Lincoln. Ou seja, no final o presidente deu a sua vida pela defesa do direito dos negros. Mas sim, ele começou a vida como um racista.
FOLHA – O sr. diz que cada geração encontra o seu Lincoln. Quem é o Lincoln para a nova geração de afro-americanos?
GATES JR. – Todo presidente, desde que Lincoln foi assassinado, se referiu a ele por um ou outro motivo, mas nenhum deles fez isso de maneira tão explícita quanto Barack Obama. Desde que ele se tornou presidente o Lincoln que a gente vê com maior frequência é o reconciliador, o salvador da união. Obama está muito claramente se colocando nesse lugar que Lincoln ocupava. Mas o Lincoln com o qual eu cresci era o grande emancipador, o rei-filósofo, a gente achava que ele era Jesus, Platão e Aristóteles em uma pessoa só. Todo mundo ignorava o fato de que ele tinha essa posição infeliz em relação aos negros antes de virar presidente em 1860.
FOLHA – O que o Lincoln pensaria de Obama na presidência?
GATES JR. – Se a estátua de mármore do Lincoln em Washington o trouxesse de volta à vida no último dia 20 de Janeiro, acho que ele teria um infarto e morreria de novo. Ele não poderia nem sonhar com um negro na presidência, mal aceitava a ideia de um negro votando. Quando fez campanha para dar o direito ao voto aos 200 mil que lutaram na Guerra, existiam mais de dois milhões de negros no país, e a esses ele não deu o voto. E qualquer homem branco podia votar nessa época, não precisava ser inteligente nem soldado nem coisa nenhuma. Ele certamente não poderia imaginar que um negro chegaria à Casa Branca. Mas também acredito que, assim que ele tivesse a oportunidade de conhecer Barack Obama, perceberia que os dois têm muitas coisas em comum. Ambos são improvisadores pragmáticos, ambos são estrategistas brilhantes e grandes políticos. Acho que o Lincoln ia gostar muito do Obama, nenhum outro presidente americano vai ser lembrado por ser tão parecido com o Lincoln como Barack Obama. Há muitas características fundamentais que os dois têm em comum.
FOLHA – Na pesquisa sobre o Lincoln, o sr. diz que lida com vários lados do ex-presidente: “Lincoln, o grande emancipador”, “Lincoln o supremacista branco”, “Lincoln, o gay”, Lincoln, o oportunista”, “Lincoln, o herói de Fidel Castro”. No final o sr. acaba dizendo que ele é “Lincoln o desconhecido”. Qual deles mais o surpreendeu?
GATES JR. – Quando comecei não tinha ideia que ele tinha sido um supremacista branco no começo da vida política. Não sabia que ele tinha essa atitude racista em relação aos negros. Também não conhecia quão profunda era a sua melancolia e não sabia nada sobre a vida amorosa complicada dele. Ele tinha sido apaixonado por uma mulher que havia morrido e ele quase teve um esgotamento nervoso por causa disso. Ah, não, na verdade a maior surpresa foi que ele tinha sido um criminoso de guerra. Alguns membros de uma associação de simpatizantes dos confederados queriam que ele fosse julgado depois de morto por crimes de guerra, como nos julgamentos dos nazistas em Nuremberg, e que sua face esculpida deveria ser retirada do Monte Rushmore (risos). Isso foi muito engraçado, alias me diverti muito fazendo esse filme, foi como voltar para fazer uma pós-graduação.
FOLHA – O sr. compra a história de EUA pós-racial com a eleição de Obama?
GATES JR. – Não, o número de negros pobres é exatamente o mesmo desde que o presidente Obama tomou posse. Sua eleição é muito simbólica, mas uma coisa é lidar com os símbolos, outra muito diferente é lidar com problemas estruturais. Temos um legado de escravidão e segregação que deve ser resolvido de forma sistemática, econômica, estrutural. No fim das contas, o racismo dos EUA, assim como o racismo no Brasil e em outros lugares do mundo, tem a ver com a relação econômica e só vai mudar se dermos educação e oportunidades de trabalhos relevantes às populações mais pobres. Se os mais pobres sentirem que existe um investimento do sistema neles, as coisas podem começar a mudar.
FOLHA – Há outro presidente cuja comparação com Obama seria mais apropriada?
GATES JR. – Sim, John Kennedy e Franklin Roosevelt. Roosevelt teve de enfrentar uma grande crise econômica, e estamos na maior recessão desde os anos 30. E ele teve de fazer as pessoas acreditarem no futuro e no sistema. E Kennedy se tornou presidente depois de oito anos de muito tédio e aborrecimento vindos dos anos Eisenhower, e ele inspirou uma geração inteira de jovens a ser mais comprometidos com a política e o governo.
FOLHA – Mas ele prefere ser comparado ao Lincoln, não?
GATES JR. – Claro, porque Lincoln é considerado o melhor presidente americano, e Obama quer ser o segundo melhor presidente americano (risos). Ele é muito ambicioso, e eu admiro isso. É um homem brilhante, não quer ser apenas o primeiro presidente negro. Quer ser um ícone, como Lincoln.
FOLHA – Lincoln foi assassinado. O sr. não teme que Obama corre o risco de ter o mesmo fim?
GATES JR. – Nem me permito pensar numa coisa dessa porque me deixa muito preocupado. Mas conto com o Serviço Secreto para protegê-lo. Lincoln foi ao teatro na noite em que foi assassinado sem nenhuma proteção; Obama nunca faria isso.