O ódio racial não está só no Peru, está aqui no Brasil, está no mundo!

De acordo com a Constituição Federal, o crime de racismo é inafiançável e imprescritível. Há, já houve punição? Pra quem? Contra quem? A favor de quem?

Porque a Australiana que ofendeu a manicure conseguiu habeas corpus e responderá pelo crime em liberdade! Na maioria das vezes autoridades competentes registram o caso como injúria racial, pois a pena é menor, o meliante paga fiança e fica livre.

No caso do jogador Tinga, escutei várias falas no sentido de que o povo brasileiro tem mais educação que os peruanos, porque aqui é a terra do futebol, do carnaval, da alegria e da miscigenação. Que aqui o racismo não existe, e que é lamentável que ainda exista gente preconceituosa! Que devemos combater esse preconceito! Ops, erro conceitual preconizado pela mídia? Gente, racismo é diferente de preconceito! O racismo aqui é estrutural.

Que mentalidade é essa? Brasil, que país é esse? Terra que Cabral descobriu, ao invés de invadir? Onde indígenas eram preguiçosos, e por isso exterminaram boa parte deles e trouxeram os africanos porque eles eram inferiores e domáveis a escravidão? Será que ainda tem gente que acredita que Cabral errou o caminho das índias?

 Gente! Racismo no Brasil tem histórico e faz história até hoje!

Ninguém percebe que o pensamento racista estruturou o que hoje chamamos de nação brasileira? Várias pessoas não só percebem, como estudam, escrevem e combatem esse pensamento, seja nos espaços de movimentos sociais como em outras instituições e atuações!

A bandeira, de indignação contra esse Estado e boa parte da população que atuam de forma omissa ou não, levantada está! E faz tempo. Tanto tempo que tivemos as insurgências dos escravizados no período da escravidão! Ou ainda acredita-se que quem libertou os escravizados foi à princesa Isabel?!

Até quando acreditaremos em histórias oficializadas do manual de constituírem otários para o exercício da cidadania no país?! Se há reclamações, demandas e protestos é porque nem tudo está um mar de rosas sem espinhos! Condições desiguais e injustiças sociais geram insatisfações, e isso gera ações! Querem nos fazer acreditar que o vandalismo está tomando conta dessas manifestações, ok, tudo bem, estamos vendo o que a mídia “neutra” está mostrando e estamos chocados com tanta barbárie! 

Mas como a mídia, os políticos e a população como um todo vêem a barbárie do racismo? Como a população negra é percebida por todos? Lamentável, mas há coisas que acontecem e que provocam frustração social sem tamanho, e que, sobretudo, revela que o racismo faz parte de forma vigente do pensamento e da prática do brasileiro! Mas como assim? Não somo racistas!!!

Qual a origem desse racismo estrutural no Brasil?

O racismo foi formulado teoricamente pela ciência e religião para justificar opressões baseadas na superioridade de um grupo humano em detrimento do outro. Foi por meio de tese racista que expandiu a idéia de que indígenas e africanos eram inferiores e por isto tinham que passar pela escravidão para alcançarem o reino dos céus.

Esse pensamento esteve a serviço na época e na contemporaneidade da expansão capitalista e universalista do mercantilismo europeu dos séculos XV ao XIX, cujo principal objetivo era “ocupar e produzir nas novas terras descobertas […]. Além de explorar recursos naturais da América e da África por mão-de-obra escrava”. Para justificar essa exploração e a expansão do capitalismo na chamada Modernidade, europeus escravocratas criaram teses para por em dúvida a humanidade de outros povos baseando-se nas diferenças fenotípicas e culturais da diversidade humana.

Pois é, essa idéia não só colou como vem sendo ensinada passada de geração a geração.  E o que temos hoje? A tradição do Racismo no Brasil! Cultura essa que é ensinada em espaços institucionalizados ou não, público ou privados, em escolas, dentro e fora do campo de futebol, em fim, reformulada nas relações sociais. E que desde tempos primórdios vem sendo construída socialmente e se sofisticando conforme as transformações da sociedade! E mais, o racismo se configura de modo rebuscado dependendo da classe social, mas não deixa de ser atuante na desmoralização da humanidade de sua vítima.

Então me causa espanto quando alguém se espanta com o racismo, dizendo: Mas ele ainda existe! Se o racismo faz parte do pensamento social e é estrutural, portanto ele não só existe como opera em várias lógicas!

Pensando nisso:

·  Após a abolição da escravatura houve ressarcimento devido a esse crime que o estado cometeu contra a população negra?

·  Qual a proporção representativa de negros nos espaços de poder, decisão e de comando do Brasil?

·  Sobre os índices de desigualdades no país o que apontam em relação a emprego, moradia, saúde, escolaridade da população negra?

·  Realmente as teses criadas e os pensamentos racistas justificam condições precárias de vivencia e sobrevivência da população negra em geral?

A despeito disso, a afirmação do Pastor e Deputado Marco Feliciano quando disse que somos amaldiçoados por Deus, não é válida para explicar tamanha desigualdade, apenas para apontar que o pensamento racista se estrutura também no rol das religiões e na prática de seus fiéis! Principalmente quando demonizam práticas culturais e/ou religiosas de raiz africana.

A visão de que compartilham alguns políticos sobre a população negra assinam o atestado de óbito dos direitos humanos no país!  Não teríamos que rever o exercício do código penal a respeito das declarações de Gilberto Carvalho sobre os quilombolas e as de Bolsonaro sobre a interferência dos negros na Comissão de Direitos Humanos e Minorias? Mas não. Eles têm o apoio do direito de expressão, pois para esses, falar o que pensa sobre uma população inteira não caracteriza crime.

E fazer piadas de menosprezo e apelo de ordem racial, de gênero e de sexo também não caracteriza crime, porque estão a serviço da comédia? Como se vê no caso da personagem Adelaide do Programa Zorra Total, nas declarações de Danilo Gentili, entre outros, as justificativas em prol da “liberdade de criação” querem nos fazer crer que a expressão humorística é neutra a realidade. Sem contar as diversas expressões racistas que encontramos em sites e nas redes sociais, por qualquer atuação ou acontecimento que envolva negros.

Como ocorrido com Silvia Novais quando sofreu vários ataques racistas de repúdio por ela ter sido a primeira negra a se tornar Miss Itália no Mundo em 2011. Mas pensa você que ela sofreu racismo somente na Italia?! Em 2009, ela também foi ofendida após ter sido escolhida como Miss Campinas e depois Miss São Paulo, o caso foi parar na delegacia e foi registrado como injúria racial. Pois bem, mesmo a beleza e a descendência italiana de Silvia não a isentaram de sofrer o racismo. Será por quê?

Outro caso foi o do garoto negro espancado e amarrado nu em um poste no Rio de Janeiro, que teve incompreensões e repercussões pavorosas tais como as declarações da jornalista Rachel Sheherazade, que apoiou o linchamento ao justificar em telejornal a ação dos jovens de classe média que praticaram tal violência em nome da justiça. O garoto negro foi agredido por 30 pessoas e ainda querem me fazer acreditar que não existe ódio racial no país? 

Os números de agressões só aumentam e históricos e história sobre essas e outras violências raciais são imensos, para não dizer quase infinitos. E infelizmente a política pública mais eficaz voltada à população negra é o genocídio e extermínio de sua juventude! Sem contar o número de mortes, principalmente de mulheres negras que passam por atendimento na saúde pública. O número de mortandade de mulheres negras no parto e pós-parto é assustador. A morte materna para as mulheres negras é 3X maior do que para as mulheres brancas. 

Desde quando o racismo é invisível e velado? E que pena, o ódio racial não está só lá fora, ele está aqui no Brasil, está no mundo! No restante da América Latina, está no Peru onde o jogador de futebol Tinga enfrentou dentro de campo as manifestações racistas de torcedores que imitavam macacos. Está nas relações entre ricos e pobres. Está na universidade onde ocorrem vários insultos contra alunos e professores negros, contra africanos. Está nas perseguições contra a atuação do primeiro negro a assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal, o ministro Joaquim Barbosa.

O racismo também está na recusa de concessão de bolsa do programa "Professor Visitante Nacional Sênior"-CAPES em que o renomado professor universitário com mais de 40 anos de experiência foi preterido na seleção dos 59 estudiosos. Segundo palavras do Professor José Jorge de Carvalho “talvez Kabengele fosse o único estudioso negro ou um dos pouquíssimos pesquisadores negros a concorrer a essa bolsa. Por coincidência, esse único negro foi o menos qualificado, por comparação. Estranha e triste coincidência!".

Como se vê o racismo está nas decisões, nas sentenças, nos espaços de poder, dentro das instituições públicas. Está na Europa onde tacaram bananas para jogadores negros. Em programas de Tv onde o apresentador ofereceu banana para telespectador negro que o questionou sobre suas declarações racistas. Está por toda parte. Está nas relações. Nesses e em outros casos. Só não compreende quem não quer ver, e não quer ver ou não consegue compreender por quê?

O caso de Tinga gerou manifestações de solidariedade contra o racismo na mídia, entre pessoas e nas redes sociais. Mas ainda assim é perceptível a deficiência para entender de fato o que é o racismo. Está surpreso? É… o racismo existe e como disse Souza (2012), “o racismo aqui é estrutural e organizativo, por muito tempo foi e continua sendo assegurado institucionalmente, exemplo disso foram às legislações acerca do tráfico negreiro e a escravidão, e ainda, às políticas públicas para o embranquecimento da população brasileira entre os séculos XIX e XX”.

E agora? O racismo é problema de quem? Será que tem cura para esse câncer? Quem tem a obrigação de curá-lo?

Nota da Redação

É membro do Terno de Congada Chapéus de Fitas, concluiu o Mestrado em Educação na Universidade Federal de São Carlos – UFSCar, onde atuou como Professora-Orientadora do Curso de Especialização em Educação para as Relações Étnico-Raciais – NEAB/SEaD/UFSCar  leiro/UFSCar. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Ensino-Aprendizagem, Pesquisa e Extensão atuando principalmente nos seguintes temas: cultura, educação, formação de professores e relações étnico-raciais.

 

Tatiane de Souza Silvério