Os senhores Luis Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin temeram qualificar diretamente o Brasil de racista, mas o resto de suas respostas confirmam, em linhas gerais, que o país é mesmo racista.
Se as conveniências eleitorais determinam o comportamento de ambos, imagine quando um dos dois for eleito. Neste caso aumenta o volume de compromissos assumidos e aí mesmo torna-se inconveniente ser franco e direto.
Seria interessante que ao lado deste tipo de procedimento a chamada “grande” imprensa destacasse as contradições facilmente observadas nas respostas de Alckmin e Lula. No entanto, ninguém quer se comprometer diante de uma parcela do eleitorado. O que importa, nesta hora, é ganhar a eleição com o menor número possível de atritos. Ou alguém acha verdadeira a troca de acusações entre as duas campanhas? Discordâncias políticas à parte, o fato é que em nome da tal de “governabilidade”, que sempre beneficia os “donos do poder”, antes da posse freqüentemente acontece um acerto mínimo entre as partes (no plantão hoje PT e aliados & PSDB/PFL e aliados)
Interessante notar que, em parte, a resposta dada pelo candidato do PSDB pareceria retirada da boca de um militante do movimento negro: “…Essa desigualdade tem raízes no regime escravocrata que vigorou no Brasil por quase três séculos e foi abolido sem que se seguissem providências para a inclusão dos negros na sociedade. Por isso no Brasil grande parte dos negros tem baixa escolaridade, baixos salários, mais dificuldade de acesso aos empregos e más condições de moradia. A integração e a igualdade têm de ser alcançadas por uma luta permanente. Nesta luta, é vital a educação e o fortalecimento da identidade negra.”
Neste ponto caberia indagar a Alckmin se ele não estaria sugerindo, salvo engano, a adoção de reparações para o povo negro brasileiro vítima do que ele próprio descreveu e cuja responsabilidade insinuou ser do Estado brasileiro. Insere-se aqui o chamado racismo institucional que, entre outras coisas, promoveu a imigração de europeus com a intenção (devidamente documentada ) de tornar o Brasil uma nação de brancos.
Sobre ações afirmativas na modalidade cotas, Lula e Alckmin prosseguem na mesma linha, sendo que o atual presidente da república sinaliza com a nova opção do PT a chamada cota social. “Não se trata de defender cotas para negros ou índios. Trata-se de defender e aplicar ações afirmativas, inclusive cotas, sim, para a escola pública e universidades, objetivando acelerar a reparação de injustiças sociais que perduram há séculos. Essas cotas devem beneficiar os mais pobres, tenham eles a cor branca, negra, amarela ou vermelha, de acordo com o peso de cada grupo social na população”, respondeu Lula, cuja cobrança a ser feita pelo eleitorado negro é de que cumpra todo o programa “Brasil Sem Racismo” divulgado na campanha eleitoral de 2002 pela coligação liderada pelo PT.
A verdade inconveniente neste debate eleitoral acabou aparecendo, mesmo embalada pela contradição. Vivemos em um país onde além da falta de coragem para se falar certas verdades(comprováveis, diga-se de passagem), convivemos com a corrupção e a hipocrisia no cotidiano. Daí porque certos comportamentos são considerados normais quando no máximo deveriam ser comuns.
Por isso recusar o óbvio acaba tendo um duplo efeito, assim como a dupla face da moeda. De um lado é confortável afirmar categoricamente que não somos “isso ou aquilo” socialmente reprovado. De outro, apontamos sem base alguma os males dos outros. Certamente é por isso que um país racista pode se dar ao luxo de não abrigar racistas! Diante disso a contradição desaparece, ou melhor, dissolve-se tal qual um comprimido efervescente. Para alguns, ela acaba virando um fantasma do castelo ou um esqueleto no armário.

Miro Nunes