Afropress – Como se sente assumindo a presidência da Comissão do Negro e Assuntos Anti-Discriminatórios da OAB/SP?
Carmen Dora – Responder pela presidência da CONAD – Comissão do Negro e Assuntos Discriminatórios, nesta oportunidade, é uma grande responsabilidade, tendo em vista o contexto em que ocorre essa transição, e os inúmeros compromissos agendados e que acontecem no dia a dia.
É um marco importante e, sobretudo, para as mulheres negras e seus descendentes, pois a cada vez que uma de nós supera a barreira da exclusão e assume postos desta natureza nos tornamos referência para nossos filhos e netos, para a nossa comunidade que, finalmente se vêem retratados positivamente.
Nossa projeção é a projeção das mulheres; é a projeção da comunidade, a transformação de valores e costumes historicamente buscados para se atingir a tão almejada igualdade de oportunidade.
Afropress – Parece que, finalmente, chegou à vez das mulheres e, em especial, da Mulher Negra, com a senhora assumindo a CONAD, a Eunice Prudente na Secretaria e Evane Kramer como Secretária Adjunta. Como vê o papel da mulher negra na conquista e ampliação de espaços no Estado?
Carmen Dora – As doutoras, Eunice Prudente e Evane Kramer quebraram os paradigmas do preconceito quanto às mulheres e assumiram, com estilo, o encargo de responder por uma das mais importantes Secretarias de Estado, a da Justiça e Cidadania. É um momento histórico e difícil, pois a população está decepcionada com a inversão de valores e descrente do ideal de justiça diante do triste cenário que estampam os jornais cotidianamente.
Mas a projeção destas duas valorosas mulheres mostra a capacidade, inteligência e o preparo da mulher brasileira para assumir postos tradicionalmente ocupados por homens.
Afropress – Fale um pouco de sua experiência como advogada negra, militando numa área predominantemente masculina.
Carmen Dora – O Direito do Trabalho é um Direito social ante a finalidade alimentícia do crédito trabalhista. Por isso, abraço a causa de todos aqueles que buscam a minha intervenção para sanar o direito lesado, pois entendo que a justiça é para todos indistintamente e independentemente da classe social a que pertençam e sempre com a observância dos princípios éticos e morais que devem nortear os processos submetidos ao crivo do judiciário.
No dia a dia da militância ainda me deparo com situações de discriminação e preconceito, pois a presença da mulher negra advogada causa espanto tanto para alguns aplicadores da lei quanto para o adverso. Mas isso não me intimida e aproveito estas ocasiões para ocupar, de direito e de fato a minha posição de advogada e aplicar ao caso concreto todos os conceitos que apregoamos na luta pela igualdade de oportunidade e erradicação dos estereótipos e preconceitos. É o meu ideal e a minha maior recompensa é o sorriso de satisfação que vejo estampado no rosto dos meus patrocinados, após o resultado das lides. Isso não tem preço!
Afropress – Como é que a CONAD pode ampliar o trabalho que vinha sendo desenvolvido pelo doutor Zito Alvarenga, no sentido de torná-la mais visível, não só aos advogados e advogadas negros, mas à sociedade de um modo geral?
Carmen Dora – O trabalho da CONAD já tem uma boa tradição e respeito por conta de várias intervenções pontuais e da série de eventos e debates que promove com a participação da comunidade. A sociedade nos procura e sempre encontra respaldo. Os debates, congressos, palestras direcionadas que são levadas em escolas, centros comunitários, entrevistas tem grande responsabilidade na ampliação do trabalho da CONAD – Comissão do Negro e Assuntos Antidiscriminatórios da OAB-SP. Nota-se esse avanço desde a época em que éramos uma subcomissão, sendo que em 2001, houve o reconhecimento oficial pela OAB da necessidade de torná-la uma Comissão Permanente para cuidar dos assuntos envolvendo não só a discriminação e preconceito como toda e qualquer afronta discriminatória. Isso é resultado da visibilidade alcançada e da resposta não só dos operadores do direito como também da comunidade aos nossos chamados e a conscientização da necessidade de mudança da cultura quanto à discriminação e preconceito.