Segundo Sônia, que é integrante da Academia Taubateana de Letras, o trabalho é um convite à reflexão a respeito das velhices negras, ao público acadêmico, aos Poderes Públicos, as entidades sociais, a sociedade civil, mas, “principalmente, aos direta ou indiretamente envolvidos com a Gerontologia”, no Ano Internacional dedicado aos Afrodescendentes.
Veja, na íntegra, a entrevista da jornalista à Afropress
Afropress – Qual o seu objetivo com a tese de mestrado pela PUC, abordando a questão do idoso negro?
Sônia Ribeiro – Inicialmente, me permita uma correção. Sou aluna do Mestrado em Gerontologia na PUC-SP, o que significa que me encontro às voltas com a elaboração da dissertação, embora às vezes me pegue pensando na futura tese.
Mas neste exato momento, estou empenhada na realização do trabalho denominado Idosos Negros – Proêmio – uma das minhas obrigações acadêmicas junto ao NEPE – Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento – do Programa de Mestrado em Gerontologia da PUC-SP
Como todo Proêmio, trata-se de uma longa introdução a determinado tema – neste caso, os idosos negros. Nesse caso, objetivamos chamar a atenção dos Poderes Públicos, da Academia, dos movimentos sociais para um tema tão antigo quanto desconhecido: as velhices negras.
Mas também desejamos mostrar aos próprios negros o quanto os nossos mais velhos são vítimas de preconceito em dose dupla, tríplice e assim por diante – por serem negros, idosos, doentes – sem que nós – os mais novos – tomemos providências concretas, pontuais e urgentes.
Enfim, objetivamos incluir o tema no campo perceptual de todos, mas principalmente na agenda negra e política do país. Lembremo-nos do índice de crescimento desse público nos últimos dez anos, do fato de o Brasil ser um país majoritariamente negro, e de ser ainda o 5º país no mundo em termos de população idosa.
Afropress – Na sua avaliação porque esse tema continuou, ao longo de séculos, ausente da agenda do Movimento Negro brasileiro?
Sônia – Não vejo uma única explicação e sim um conjunto de explicações. Inicialmente, a despeito do aumento da expectativa de vida do brasileiro, penso que no Brasil ainda não se alcançou a compreensão plena de que velhice não é sinônimo de doença e sim uma das fases da vida e não necessariamente a última fase da vida.
A prova provada disso é que doença e morte ocorrem em todas as idades, e em todas as fases da vida é possível ser útil à comunidade, à sociedade, ao país. Depois, é preciso dizer que militante de Movimento Negro – ou de qualquer outro movimento social – não está imune ao preconceito etário.
Para além disso, fico com a impressão que tanto o Movimento Negro quanto a sociedade ainda não atinaram que também os negros e as negras com idade igual ou superior a sessenta anos apresentam necessidades objetivas e subjetivas, também são vítimas de violência física e emocional, também trabalham em subempregos, e também sofrem racismo.
Por tudo isso, são eles – os idosos negros – fortes candidatos a ocuparem o primeiro lugar no pódio das vítimas de racismo e de preconceito neste país. Em resumo, penso que não todos mas, muitos dos que atuam no MN, ainda não perceberam que as velhices negras são parte integrante do universo negro, e que em razão da idade avançada, as questões que dizem respeito a esse público deveriam receber o status de prioridade.
Afropress – Quais as conclusões a que você chegou na pesquisa para escrever o seu trabalho?
Sônia – Cheguei à conclusão de que os nossos idosos gostariam muito de serem ouvidos pelos seus. Sim, nosso pessoal não costuma ouvir os nossos mais velhos, uma vez que para muitos dos mais moços, os mais velhos, são chatos, lerdos, implicantes, ranzinzas. Puro preconceito. Lamentavelmente, nossos mais moços não sabem que o tempo de um mais velho é um tempo diferenciado.
São memorialistas por excelência, e são guardiões de informações que, de repente, podem mudar o curso de muitas trajetórias. São eles – os idosos negros – tão diferenciados que quando menos esperamos dizem milhões de coisas com um simples olhar ou com aquele silêncio sepulcral. Chamo a atenção de todos para o olhar e/ou para o silêncio de um (a) preto (a) velho (a), e peço que revoguem os mitos e os estereótipos existentes em relação aos mesmos.
Afropress – Qual é a situação do idoso negro hoje, em S. Paulo e no Brasil?
Sônia – Em mais de duas décadas de observações e estudos das velhices negras, nunca ouvi uma única fala de ninguém a respeito desse assunto. Se algo foi dito – em congressos, colóquios, encontros, seminários – peço que me informem a respeito do conteúdo das discussões.
E há pouco tempo, me aconteceu algo engraçado – mas ao mesmo tempo sintomático. Uma colega me disse que havia encontrado na internet vários artigos a esse respeito, o que significava que eu estava redondamente enganada quando dizia que o tema não era explorado. Ao chegar em casa fui ler o que a minha colega me havia entregue. A autora dos textos chamava-se Sônia Ribeiro, ou seja: eu.
O que isso significa: significa que pesquisadores negros ou não ainda não se interessaram por essa matéria – basicamente pelos motivos acima expostos. E por conta desse desinteresse, não temos uma radiografia das velhices negras do estado de São Paulo e nem dos demais estados do Brasil, uma vez que faltam estudos quantitativos e qualitativos, e ambos interligando as diversas partes do todo.
É vergonhoso, anti-pedagógico, na contramão da promoção da igualdade racial etária, enfim, é a prova provada do descaso para com os esses velhos. Mas uma coisa é certa: a presença marcante de idosos negros nas religiões de matriz africana, nas escolas de samba, nas irmandades religiosas, nas congadas, nos moçambiques, nos jongos.
Nesses particulares, sim, nossos velhos são respeitados, valorizados, tratados com a deferência a que são merecedores. Mas também é certo que muitos se encontram em subempregos, jogados pelas ruas, abandonados nos asilos.
Afropress – Que propostas de políticas públicas podem ser adotadas para contemplar a demanda desse segmento da população?
Sônia – Temos que saber que muitos dos aspectos presentes nas velhices negras é conseqüência de uma série de coisas ocorridas ao longo do processo de envelhecimento do negro. Daí se dizer que esse processo é tema sustentável. Porém, é preciso socorrer imediatamente uma população que anda perdida pelas ruas, uma vez que os mesmos sentem fome e frio, sofrem de doenças crônicas e agudas, não têm o aconchego da família, enfim, vivem ao Deus dará.
Mas o estado também deveria perceber que muitos desses idosos têm vontade de aprender um ofício, coisa simples, mas que de acordo com muitos deles lhes devolveria a auto-estima. E aí pergunto: o que impede o estado de investir em quem deseja ser produtivo, se auto-sustentar, poder exercitar a cidadania, enfim, ser feliz?
Afropress – Como fazer com que os idosos negros sejam a necessária ponte ligando a nossa história, o nosso passado, com o presente, e daí para a construção de um Brasil que realmente nos inclua a todos?
Sônia – Em hipótese alguma podemos dizer que todas as velhices negras são iguais, uma vez que o segmento é imenso, plural, heterogêneo.
Por exemplo: temos aqueles que acabaram de completar sessenta anos, mas também os provectos e os centenários; os urbanos, os suburbanos, os quilombolas. Os analfabetos e os doutores. Os ricos e os pobres, os masculinos e os femininos, e assim por diante.
Mas há um ponto comum entre todos: vítimas do preconceito em dose dupla – por ser idoso e por ser negro. Se muito pobre, analfabeto ou jogado pelas ruas, o preconceito ganha profundidade e extensão; se as condições financeiras forem razoáveis e esse idoso apresentar certo grau de instrução, o preconceito continua existindo, porém veladamente.
Não há dúvida de que é preciso dar socorro imediato a quem se encontra em condições sub humanas. Mas não é só isso. É preciso ensinar que velhice não é defeito e nem menos interessante que as demais fases da vida; é preciso ouvir dos próprios idosos negros o que eles têm a dizer a respeito deles próprios e de tudo o mais.
E é preciso combater o racismo e o preconceito em dose dupla, tríplice etc, que incide sobre esse segmento da população. Ao meu modo de ver, fechar os olhos para tudo isso é mais do que omissão: é desumano.