O ano de 2.021 termina com o país afundado na tragédia de 619 mil mortes, boa parte das quais, poderiam ter sido evitadas, se não estivéssemos sob um governo negacionista, dirigido por perversos e amigo da morte.

Não estamos apenas atravessando a maior tragédia sanitária. Temos 19,1 milhões de brasileiros passando fome, e 116,8 milhões na insegurança alimentar, vale dizer: pessoas que fazem um bico hoje para comer, mas não sabem se conseguirão se alimentar amanhã.

Como se a desgraça do governo da morte fôsse pouca, terminamos o ano com a “Operação Herodes”, com a qual Bolsonaro e Quiroga, um ministro da Saúde serviçal e sabujo, cúmplice dos seus crimes, conspiram e ameaçam a vida de crianças de 5 a 11 anos, que poderiam estar sendo vacinadas, como já acontece em vários países do mundo.

O PAPEL DO GOVERNO DA MORTE

O ano termina com o país assistindo a calamidade que atinge a Bahia com 25 mortes e mais de 500 mil pessoas desabrigadas. Enquanto milhares de famílias tentam sobreviver a uma tragédia de proporções inéditas neste século, Bolsonaro vira as costas e vai passear de jet sky e divertir-se com a família, em praias e parques de diversões de Santa Catarina.

O ano também chega ao fim com a revelação de que “o maior acordo antirracista da América Latina”, assinado pelo Carrefour com órgãos públicos e as entidades Educafro e Centro Santo Dias, não passa de uma farsa milionária em que a empresa civilmente responsável pelo assassinato de João Alberto Silveira Freitas, é excluída formalmente de responsabilidade.

Com isso, poderá recuperar os R$ 115 milhões que anunciou pagar para se livrar de processos, por meio do acesso  a mecanismos de renúncia fiscal – indenização vira doação; o dinheiro não vai para fundos públicos sob gestão de organismos de promoção da igualdade racial, conforme manda a Lei, mas para saciar a ânsia e a ganância de quem busca poder – econômico e político – às custas de nossas desgraças.

A farsa está sendo desmontada graças ao destemor de sete advogados do Coletivo Cidadania, Antirracismo e Direitos Humanos, grupo de profissionais constituído pelas entidades SOEUAFROBRASILEIRA e Coletivo de Advogados pela Democracia (COADE), para questionar em juízo a indecência praticada  em nosso nome, sem procuração nossa. Espera-se a manifestação da Justiça que ainda nos resta.

DESAFIOS

O ano de 2.022, que começa neste sábado, traz desafios gigantescos.

Não basta vencer nas urnas o governo da morte. É preciso mais. O bolsonarismo – essa corrente política de inegáveis traços nazifascistas – já anunciou pela boca do seu porta-voz e chefe que não aceitará os resultados, que não sejam a proclamação de sua própria vitória nas eleições.

A base constituída pelo partido militar, policias militares aparelhadas, milícias e o fundamentalismo religioso dos traficantes da fé, tentará o golpe direto, como já fez no 7 de setembro.

Não há, nessa previsão, qualquer alarmismo. Bolsonaro voltará a tentar, com apoio armado, instalar uma ditadura de natureza abertamente fascista, muito mais cruel e sangrenta que a ditadura militar (1964/1985), que ele exalta e celebra.

Só há um caminho para barrar a marcha golpista. E este caminho começa com a perda definitiva nas ilusões de que, em 2.022, basta o voto.

O voto sem organização e mobilização popular, nada garante. Nem a posse do eleito.

Muito menos  assegurará condições para o enfrentamento da herança maldita do governo da morte. Tampouco terá força para mandar o partido militar de volta aos quartéis, muito menos servirá de garantia para que sejam levadas adiante as transformações sociais necessárias, adiadas há séculos.

Essas transformações devem começar pelo fim dos acordos por cima, com que as frações das classes dominantes garantem a impunidade para seus muitos  crimes.

Bolsonaro e os seus cupinchas, fardados ou paisanos, responsáveis diretos por, pelo menos, dois terços das 619 mil vítimas da Covid, devem ser presos e levados ao Tribunal Penal Internacional de Haia para responder por crimes contra a humanidade.

O partido militar deve voltar aos quartéis. Mantida a tutela que pretendem sobre a sociedade, não é possível sequer se falar em democracia, mesmo a democracia burguesa restrita e limitada para as classes populares.

A base de todo poder é a soberania popular.

Militares não apenas devem obediência ao poder civil. O Brasil tem de promover uma verdadeira justiça de transição ajustando contas com os que prenderam, cassaram, torturaram, e desapareceram com os corpos de brasileiros que ousaram enfrentar o terror e a ditadura.

Onde estão os assassinos de Rubens Paiva e Wladimir Herzog? Onde estão os que desapareceram com os corpos de 434 brasileiros?

O novo governo deve convocar plebiscito revogatório de todas as “reformas” que acabaram com os direitos dos trabalhadores; devolva as empresas brasileiras entregues na bacia das almas ao grande capital; faça as reformas urbana e agrária, taxe as grandes fortunas e avance para a libertação do nosso país do jugo do capital financeiro e do imperialismo.

UMA ESQUERDA PROFÉTICA

Alguns dirão que um programa desse tipo não tem condições nem viabilidade e falarão em correlação de forças e outros conceitos abstratos para a massa proletária.

É o contrário. À esquerda brasileira, não basta a denúncia. Precisa ser profética e dizer com todas as letras que o Brasil dos de baixo algum dia se levantará.  O “dia em que o morro descer e não for carnaval”, como profetiza o samba de Wilson das Neves.

Enquanto não tivermos a coragem de apresentar aos trabalhadores um programa verdadeiro de transformações; enquanto não tivermos o destemor de apontar o caminho da revolução para os de baixo, seguiremos reféns de governos a serviço de minorias sanguessugas e parasitas (menos de 1% da população),  que não vacilam em se socorrer do extremismo, da ditadura e do terror para manter intactos seus privilégios.

Tudo isso pode ser resumido em um recado direto ao ex-presidente Lula.

A política de conciliação de classes pariu Bolsonaro e o bolsonarismo. Repetí-la apenas para ganhar as eleições,  sem um programa de governo capaz de apontar o caminho das transformações que botem abaixo a República da Casa Grande, será também apenas mais uma ilusão que abrirá as portas para mais e maiores tragédias.

O momento exige de uma liderança popular, mais do que nunca, o que dizia Guimarães Rosa ser uma exigência da vida: coragem.