Entretanto, mais do que nos alegrarmos, estes dois acontecimentos somados têm
um efeito muito interessante em relação ao Brasil, ou seja, eles fazem com que se reacenda a discussão sobre a questão racial brasileira. Afinal somos um país onde 45% da população, pelo menos, é afrodescendente.
E que entre perplexa, radiante de alegria e tomada de muita emoção assistiu a estas verdadeiras epopéias humanas.
Por onde ando, em minha sala de aula, na sala dos professores, nas escolas, antes e muito mais agora a temática racial tem sido retomada, tanto em função de Barack Obama, quanto em relação a Lewis Hamilton, as duas personalidades negras do momento.
Por outro lado, em tempos recentes, a grande mídia, e não só ela, tem feito um esforço fantástico para embotar qualquer discussão acerca deste tema. Seria natural que durante uma campanha presidencial tão importante e marcada por circunstâncias tão especiais que tivéssemos debates, mesas redondas com a presença de especialistas, intelectuais, jornalistas e ativistas negros como certamente aconteceria se a candidatura de Hillary Clinton se confirmasse, no caso das mulheres.
Com certeza, teriamos discussões diárias sobre o papel da mulher na sociedade global, estadunidense e brasileira, com as maiores especialistas no tema. No entanto, houve exatamente o contrário. Não me recordo, e olha que faço agora um esforço muito grande para lembrar, de nenhum debate em que pudesse ver a face ou ouvir a voz de uma personalidade negra, refletindo sobre a presença de Barack Obama na disputa pela eleição presidencial estadunidense. Fica assim a dúvida. Será que não há no Brasil um único intelectual negro capaz de falar sobre os anseios e desejos da enorme população negra brasileira?
Chegamos mesmo a ver em um debate televisivo referências sobre o surgimento de um tal “pensamento mulato”, que Barack Obama representaria. Eu já conhecia o Negritude, pensamento voltado para a exaltação dos valores culturais dos povos negros, que teve como
grandes representantes, entre outros, Léopold Sédar Senghor e Aimé Césaire, para quem não conhece falecido há poucos meses atrás, ou mesmo o Pan-Africanismo de Henry Williams e do Dr. William Edward Burghardt Du Bois, que propunha a necessidade da unidade das nações
africanas contra o expansionismo europeu, mas “pensamento mulato”, francamente. Já em outro programa de grande audiência, da mesma rede televisiva um eminente comentarista fez questão de salientar a origem miscigenada de Obama e o fato dele se autodeclarar “brown” (marrom),
não sendo assim branco ou preto, como se isto tivesse cabimento em uma realidade tão racializada quanto a estadunidense.
Na verdade, nós, negros brasileiros, continuamos enredados no mito da democracia racial. E como é difícil sair dessa cilada. Além disso, estruturas mentais como o ideal de branqueamento permanecem fazendo vítimas. A nossa cultura, extremamente conservadora ejeta a mais
simples proposta de mudança das relações interpessoais, e no caso da questão racial, esse nó é ainda mais complexo de ser desfeito, pois, qualquer discussão sobre o mais simples dos temas se encaminha para o aspecto pessoal.
Lembro bem em 1980, de um evento que ajudei a organizar, a Primeira Semana do Negro na UERJ, não é demais lembrar que nessa época a presença negra na universidade era exígua, durante os dias iniciais na concha acústica, onde ocorriam as apresentações culturais tudo se dava de forma linda e empolgante. Estavam lá grupos de capoeira, de dança afro, músicos, cantores. Enfim, tudo o que pudesse lembrar a contribuição do negro para a sociedade brasileira.
A platéia aplaudia satisfeita e entusiasmada. Contudo, na sexta-feira aconteceria o climax do evento, em um debate que reuniria entidades do movimento negro e representantes do corpo docente da universidade. Não sei se há precedente, mas para mim este momento permanece como o primeiro grande evento com tais características nos meios acadêmicos brasileiros. E o
que se viu foi uma platéia entre estupefacta e raivosa com as proposições feitas pelos intelectuais negros ali presentes. A tensão apareceu nos momentos iniciais da discussão e menteve-se até o último momento. Podemos afirmar que não houve diálogo ou busca de
entendimento, aliás, de parte a parte.
Ensaiávamos os passos que nos conduziriam a redemocratização e tudo aquilo carregava ineditivismo e sofrimento, nos redescobríamos. Outro momento com semelhante carga de
voltagem foi a entrevista do professor Hélio Santos ao programa Roda Viva da Tv Cultura, em novembro de 2002. Em suma, não é nada fácil se desnudar e ver como realmente somos, uma sociedade racista que tenta a todo momento esconder sua origem afrodescendente.
Desta forma, a vitória de Barack Obama cai como uma bomba nos cânones racistas brasileiros e faz exigir uma releitura do Brasil a partir dos olhares esperançosos dos negros brasileiros. Felizes e agitados pelo presente aguardamos respostas no futuro para a certeza que temos do
quanto é justa a nossa luta.
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O título original do artigo é “A vitória de Barack Obama e seus primeiros ecos no Brasil”

Sergio Dias