Uma das propriedades da mídia, da comunicação de massa, é chancelar comportamentos. Se a estrela da novela aparecer de cabeça raspada no outro dia teremos um monte de garotas na escola, seguindo a moda.

Quando se vê a sucessão quase diária de ataques suicidas, de forma globalizada, ocupando as manchetes dos noticiários, e aumentando a cada dia, ao ponto de se banalizarem, surge o temor de que sua expansão contamine outras áreas do tecido social, que não aquelas afetadas por questões étnicas, políticas ou religiosas, como é até o presente.

Não é nosso objetivo, aqui, analisar as causas históricas dessa sucessão de atentados que diariamente sacodem o mundo moderno. O que nos parece necessário é chamar a atenção para, parafraseando Henry James, a volta do parafuso no perfil dos autores desses morticínios e de suas motivações.

Desde o 11 de setembro, a quantidade de atentados aumentou progressivamente. Hoje já podemos ver desajustados começando a adotar essas práticas como forma de retaliação para as injustiças das quais se consideram vítimas.

O que quero dizer é que podemos estar assistindo à uma nova forma de expressão. Os sociopatas, na medida em que veem a mídia noticiar – é claro, de forma consternada e crítica, mas isso, no caso, não faz diferença – os atos de terrorismo, mais frequente agora com a ação dos chamados “lobos solitários”, poderão entrar nessa onda e se engajar em ações semelhantes. Essa poderá ser a marca trágica do século, que já caminha para o final da sua segunda década.

Na medida em que essa hipótese se concretize, como se afigura, a imprevisibilidade desses atos aumenta exponencialmente, o que tornaria obsoletos os já não tão eficientes mecanismos utilizados atualmente para monitora-los. Frente a uma situação socialmente intolerável, iremos forçosamente assistir, em contrapartida, a um aumento sem precedente do controle do Estado sobre os indivíduos, algo que, provavelmente, já deve estar sendo gestado dos centros de poder.

É triste, neste momento em que o avanço da Ciência e as invenções da tecnologia nos permitem vislumbrar um mundo de abundância, ver esse futuro ameaçado pelos tabus e fanatismos que marcam a nossa espécie.

 

Carlos Figueiredo