Em nada há coincidência ou acaso. Na mesma semana em que o coordenador do curso de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBa), Antonio Natalino Dantas, atribuiu o fraco rendimento dos alunos no ENADE, ao “baixo QI dos baianos”, a dama do apocalipse do fim da democracia racial – a antropóloga Yvonne Maggie – voltou à cena retomando a ofensiva contra as cotas no Supremo Tribunal Federal (STF), com ampla cobertura midiática, em especial, claro – e não por acaso – da Rede Globo.

Dantas, numa atitude que foi considerada pelo governador Jacques Wagner, como “um surto de imbecilidade” falou dos baianos, mas o seu verdadeiro alvo éramos nós, os negros e a nossa cultura, como fica evidente quando diz que “baiano toca berimbau porque tem uma corda só”. Não foi um “surto de imbecilidade”, não, Senhor Governador! Nós já vimos esse filme antes.

Basta se ter um mínimo de conhecimento da História para identificar nas palavras do sinistro coordenador do curso de Medicina da Bahia – que se afastou do cargo às pressas, no último final de semana, diante da onda de indignação que se alastrou pelo país – as digitais de outro médico baiano – Raymundo Nina Rodrigues – fundador e diretor da mesma Escola de Medicina da Bahia, um dos mais destacados expoentes das teorias do Racismo científico vigentes na passagem do século XIX para o XX.

As declarações de teor, óbviamente, racistas, foram rechaçadas pelos alunos e pelo reitor Naomar de Almeida Filho. Contudo, há uma pergunta que não quer calar: como alguém com esse perfil , portador desse tipo de pensamento, pôde chegar tão longe? A quantos jovens negros baianos – a quem considera, por convicção, inferiores – não prejudicou? Por acaso esse tipo de pensamento vigente não é um dos fatores que explica a quase inexistência de médicos negros na Bahia, apesar de quase 80% da população ser afrodescendente?

O que parece óbvio é que não fôsse a incontinência verbal do qual foi acometido, o herdeiro de Nina Rodrigues, continuaria coordenador do curso de Medicina e praticando no seu cotidiano de coordenador, a crença de que negros são inferiores, tem baixo QI e por isso “só tocam berimbau porque é um instrumento que tem uma corda só”.

Como em nada há coincidência ou acaso, praticamente no mesmo dia, a antropóloga Yvonne Maggie, da UFRJ, retomou a cena e entregou ao ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, a carta dos "Cento e treze anti-racistas contra as Leis raciais", uma longa catilinária, já conhecida, agora requentada por novos/velhos argumentos – como, por exemplo, o uso indevido e fora de contexto de discursos do senador Barack Obama – e novos nomes.

Entre os mais lustrosos, a antropóloga e ex-primeira dama Ruth Cardoso; expressões de ponta do mundo musical e das artes como Caetano Veloso; da dramaturgia como Gerald Thomas e o autor de novelas Aguinaldo Silva; das letras como os poetas Antônio Cícero, Ferreira Gullar, Lya Luft e João Ubaldo Ribeiro; do jornalismo, como os colunistas da Veja e do Estadão, respectivamente, Reinaldo Azevedo e Demétrio Magnoli; enfim, a fina flor da auto-denominada elite intelectual brasileira.

Como é possível que intelectuais renomados, sociólogos, no mês em que o Brasil lembra os 120 anos de uma Abolição que não se completou, façam campanha contra medidas reparatórias da desvantagem sofrida por metade da população brasileira, que é negra (49,5%, segundo a última PNAD), é a evidência maior de como essa gente vive em outro mundo, sem contato com a realidade "desse tal de povo brasileiro"; literalmente: no mundo da lua.

São os representantes tardios da Casa Grande chamada Brasil, que sempre esteve presente no imaginário da elite beneficiária dos quase 400 anos de escravidão e dos 120 anos de racismo pós-abolição. Nós, os negros, para essa gente, servimos apenas como objetos de estudo nas variadas áreas das ciências em que pontificam; da sociologia à antropologia, passando pelas artes, pelos salões ou pela música de Caetano; somos personagens simbólicos – apenas simbólicos – de um Brasil com o qual, eles, com um pé na Europa e outro nos EUA, evitam tomar contato.

Não existimos como seres reais, detentores de direitos, portadores de cidadania. Servimos como personagens de seus romances, de suas teses acadêmicas, de suas músicas, ah – e claro – também para lhes servir café da manhã, como criados mordomos, limpar a sua merda, no papel de empregadas domésticas; dirigir os seus belos carros como choffeurs e motoristas particulares; ou para tomar conta de suas fazendas, suas casas de campo, como caseiros. Só.

Como em nada há coincidência ou acaso, as declarações racistas de Dantas e a Carta/Manifesto de Maggie, fazem parte do mesmo movimento: o movimento de regressão do país ao período – final do século XIX – em que as teorias do racismo científico pontificavam juntamente com a reação irada e temerosa (melhor seria dizer: desesperada) dos escravocratas que temiam a Abolição, acreditando que o país seria tomado por negros, e eles, suas sinhazinhas e sinhozinhos, se veriam cercados e perderiam tudo o que haviam acumulado em quase 400 anos de escravismo. Os atores mudaram, mas o filme é o mesmo. Os medos – reais e ou imaginários – também.

Editorial