Afropress – Como você está vendo a ofensiva dos neo-racistas que agora descobriram que raça não existe para se isentar de responsabilidades pela desvantagem sofrida durante séculos por nós negros?
João Jorge – Vejo como uma reação negativa aos avanços da luta negra por igualdade no Brasil. Esta luta por igualdade é a mais antiga luta interna nacional e foi adiada na época da Colônia, do Império, e nas diferentes formas de republicas que tivemos até agora. O que surpreende a sociedade e aos neo-racistas é que estamos demonstrando que não vamos mais sofrer sem lutar, estamos lutando e demonstrando que a atual sociedade brasileira é injusta com negros, com pardos, indígenas, mulheres, homossexuais, lésbicas,e brancos pobres.
Quebramos o espelho e mostramos quem é o opressor, quem é o oprimido. Desta forma o discurso que é uma questão social, que é uma pura coincidência os negros serem os mais pobres os mais preteridos e os sem acessos não condiz com os indicadores sociais levando a uma reação violenta dos racistas. Pois eles temem perder os privilégios mantidos em função da raça. De uma pretensa superioridade de pessoas que se assumem como da raça branca em relação aos demais brasileiros.
Afropress – Você não acha que está na hora de o Movimento Negro brasileiro ter uma reação articulada e unificada nacionalmente para responder as aberrações e a ousadia dos neo-racistas que usam e abusam da grande mídia para tentar confundir a opinião pública brasileira?
João Jorge – Sim, isto é necessário, como forma de avançar as conquistas democráticas para todo o povo do Brasil. A responsabilidade sobre diversos setores históricos tais como o MNU, CONENN, UNEGRO, FÓRUM DE ENTIDADES NEGRAS DA BAHIA, GELEDES, FALA PRETA, é enorme, só para citar algumas entidades que, junto com as entidades de cultura, religião, musica, teatro, política, jornalismo, devem expressar suas opiniões e falar do Brasil 2007. O Racismo produz um medo grande na vítima e esta pensa que, calando ou não lutando, é mais fácil sobreviver num sistema injusto. Mas, a experiência na Alemanha, nos Estados Unidos da América, na África do Sul, mostrou que é necessário lutar contra o racismo e esta luta é a única forma de viver melhor.
O Movimento negro brasileiro criou esta agenda de políticas de ação afirmativas incluindo as cotas e o Estatuto da Igualdade Racial que são apenas medidas reparatórias de curto prazo e com uma reação violenta. Imagine se nos mobilizarmos para a criação de um Estado de Direito Democrático real concreto. Seríamos chamados de terroristas, assim com foi Martin Luther King, Malcom X, Steve Biko, Mandela. Então, em nome desta necessidade real temos de organizar uma agenda que envolva o Congresso de Negros 2008, o Estatuto da Igualdade Racial, Cotas nas Universidades, no Emprego, no Serviço Publico, e como critério de desempate nas licitações públicas. Isto, se realmente nos sentimos um movimento nacional e com forca e coragem de enfrentar o racismo em uma escala grande para produzir uma derrota histórica. Ou podemos ir para casa e ficar em casa lamentando o racismo etc etc.
Afropress – Nesse sentido, como está vendo a mobilização lançada em S. Paulo pelo Movimento Brasil Afirmativo e Afropress, no sentido de mobilizar toda a sociedade, coletando milhares de assinaturas e pressionar o Congresso a votar o Estatuto da Igualdade Racial e o PL 73/99?
João Jorge – Importante, pois vem se juntar a outras mobilizações neste sentido pois o Estatuto da Igualdade Racial precisa de uma mobilização popular para ser aprovado; ele é um instrumento civil importante do aperfeiçoamento da democracia brasileira e precisa ser discutidos nos blocos afros, nos afoxés, nos candomblés, nos grupos de Rap, Hip Hop, nos bares, nos clubes de futebol, nas universidades. Portanto, entendo que esta mobilização irá se somar a mobilização do Senador Paulo Paim, autor do Estatuto da Igualdade Racial, a mobilização do Fórum de Entidades Negras da Bahia, do Olodum e de tantas outras estruturas e pessoas que vem, há oito anos, lutando pela aprovação desta carta da igualdade no Brasil.
Afropress – O Olodum não está disposto a puxar essa mobilização constituindo o Fórum da Igualdade Racial, a exemplo do que está criado em S. Paulo, com a participação de várias entidades e lideranças, inclusive, a Educafro?
João Jorge – Nossa ação é no conjunto do Fórum de Entidades Negras da Bahia que tem 13 entidades das mais representativas do movimento negro brasileiro, a exemplo do MNU Bahia, Ilê Aiyê, Male Debale, Olodum, Negões, Fenacab, Okambi, Anaad, Aganju, Cemag, Muzenza, Cortejo Afro, e este fórum está, neste momento, voltado para a ampliação das políticas de ação afirmativas na Bahia e no Brasil e uma das nossas prioridades é o Estatuto da Igualdade Racial nacional, o Estatuto local, e as política publicas nas duas secretarias que ajudamos a criar: a Secretaria Municipal da Reparação, em Salvador, a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e de Gênero no Estado. Contudo, entendemos que devemos ajudar e apoiar a luta nacional dentro da organização do Congresso de Negras e Negros do Brasil 2008. O Olodum tem defendido a bandeira da Igualdade racial nos nossos ensaios de domingos, nos shows da Banda Olodum, e na nossa comunicação social como um todo. No caso da Bahia não há necessidade de criar mais nenhum organismo coletivo, pois já os temos em demasia, precisamos sim de pessoas e entidades lutando contra o racismo, sem que tenhamos que criar mais sigla e mais estruturas. Entendo que São Paulo está de parabéns e vamos, em busca dos resultados desta unidade na luta.
Afropress – Você está sugerindo a transformação de agosto no mês nacional de mobilização pelo Estatuto, inclusive com a ida à Brasília, tendo em vista o aniversário neste mês da Revolta dos Búzios? Qual o significado que tem ainda para o povo negro e para o Brasil a Revolta dos Búzios?
João Jorge – O mês de agosto é o mês da Inconfidência Baiana, da Revolta das Argolinhas, da Revolta dos Mulatos, Conspiração dos Alfaiates, da Conspiração dos Búzios, que apesar de tantos nomes é conhecida com a Revolta dos Búzios que ocorreu em Salvador entre 12 e 25 de agosto de 1798, pensada e organizada por jovens negros e mulatos com uma proposta republicana, democrática revolucionaria, que culminou com o martírio dos heróis nacionais da Independência do Brasil: João de Deus, Lucas Dantas, Manuel Faustino, Luis Gonzaga das Virgens, que foram sacrificados no dia 08 de novembro de 1799, na Praça da Piedade em Salvador, Capital da Bahia.
A tese central é de que este mês de Agosto pode e deve ser comemorado pelo movimento negro nacional com o mês da Igualdade Racial em função deste fato magnífico da nossa história, pelo caráter social e plural que a Revolta dos Búzios teve incluindo todos os segmentos sociais da época. Mais um dado, em especial, nos obriga a promover agosto como o mês da Igualdade Racial no Brasil: o fato destes jovens negros e mulatos escreverem suas idéias em uma Carta da Igualdade que ainda existe e que é uma profecia para o futuro que devemos realizar.
A Carta da Igualdade começa com estes dizeres: “Há de chegar o tempo da nossa liberdade, o tempo em que seremos livres, o tempo em que seremos todos iguais, o tempo em que seremos todos irmãos”. Escrita em 1798 por nossos antepassados, que sonham em ver seus desejos atendidos, de onde estiverem 209 anos depois, sabendo que cumprimos a promessa que eles fizeram para si e para seus descendentes, quando nos legaram o documento zero dos Direitos Humanos no Brasil.
O mês de agosto precisa ser o mês da mobilização da igualdade racial no Brasil não para homenagear os negros da Bahia ou da cultura ou dos blocos afros, mais assim como fizemos com Zumbi dos Palmares que viveu em Alagoas e cuja proposta de ser data nacional saiu do Rio Grande do Sul, e que os baianos vibraram pelo conteúdo da luta dos Palmares de Zumbi, queremos uma grande mobilização pelos personagens da Revolta dos Búzios, pelo sentido de igualdade que eles propunham para além das fronteiras da Bahia, de Salvador ou de Cachoeira. Queremos um mês com uma data cívica nacional, com heróis nacionais, cujas vidas foram tiradas em nome da igualdade que lutamos ainda para conseguir. Queremos, no mês de agosto, que as escolas falem da revolta dos Búzios, não mais como algo infame e pequena mais com a grandeza que esta fato histórico merece.
Vamos imaginar o que podemos comemorar em no mês de agosto, no dia 9, por exemplo, Dia da Mulher sul africana; de 12 a 25, a Revolta dos Búzios; a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, enfim, juventude negra, já que dois dos líderes mortos eram jovens. Celebrar o parque de São Bartolomeu, e ainda podemos disparar nossas metralhadoras humanas para reivindicações em agosto por mais igualdade em uma jornada de dez anos – 2007 a 2017. Reivindicando poder político, igualdade e oportunidade, mais respeito às religiões de matrizes africanas, mais acesso às universidades, mais acesso aos fundos públicos de financiamentos, e o mais importante:começamos a sair de ter apenas o dia 20 de novembro como data do negro, e alternativa criada por nós. O mês da igualdade racial no Brasil, em homenagem a Revolta dos Búzios, irá confrontar a sociedade, o Estado, os valores jurídicos políticos institucionais que o Brasil tem prometido a negros índios e brancos que jamais realizou concretamente.
Assim teremos que mobilizar os Estados e ir à Brasília entregar aos três poderes nossas reivindicações, o que será um resultado lógico da nossa militância em pról de melhores condições e desenvolvimento da comunidade negra nacional. Agosto de 2007 nos convida para ir além das listas na internet, os debates nos seminários, e a campanha nacional para esclarecer nossos Direitos. Nos convida para a batalha da cidadania. A Revolta dos Búzios pode nos inspirar para a luta pela igualdade.
Afropress – Como você está acompanhando a mobilização pela realização do Congresso dos Negros e Negras do Brasil? É possível vencer o sectarismo e a tentativa de monopolizar a luta do povo negro por parte de determinadas correntes, que privilegiam a relação com partidos e governos e não a organização da massa negra, em torno do objetivo de superar o racismo e avançar para uma sociedade com inclusão e cidadania para todos?
João Jorge – Vivemos isto na Bahia também mais no sentido inverso, com medo da mobilização das entidades do Fórum de Entidades Negras da Bahia, pessoas e entidades fizeram de tudo para que o congresso não tivesse forças vivas e expressivas na sua organização. Na Bahia ficariam de fora, Olodum, Ilê, Muzenza, Male Debale, Aganju, Anaada, Fenacab. Porém, humildemente informamos que queremos apenas lutar contra o racismo e apoiar com a nossa experiência e a força das nossas entidades na construção de algo importante para o conjunto dos negros e negras. Fomos à Belo Horizonte e ajudamos muito a criar uma ambiente moderno justo e amplo de forças da negritude, nós não disputamos migalhas, não somos contra irmãos negros na luta, somos uma força dura completa contra o racismo e sua estrutura que muitas vezes cometeu erros mais que na maior parte dos casos fizemos avançar a luta contra o racismo.
Então compreendo que o Congresso precisa ser amplo de pessoas e entidades da luta contra o racismo e da luta anti racista, e de um esforço especial para derrotar o racismo; vai valer mais a pratica que o discurso; vai valer mais a coerência entras a idéias e as ações, e importante: não é hora de ter medo de partidos, de sindicatos, de centrais sindicais e de Igrejas. Somos maduros suficientes para conduzir nossa luta com aliados sem sermos objetos políticos. Por isso, entendo que agora devemos discutir combinar acertar as nossas estratégias da unidade na ação. O Olodum está apostando neste caminho de um Congresso moderno, plural, com os diferentes setores da luta negra contra o racismo e os setores da luta anti-racista, mais um congresso que demonstre que estamos prontos para administrar as cidades, os Estados e o Brasil com um projeto diferente deste que ate agora produziu tantas desigualdades.
Afropress Como você está vendo o Governo Lula em relação a questão da Igualdade Racial? E o papel da Seppir está atendendo a expectativa da população negra brasileira?
João Jorge Vejo positivamente e como um avanço da luta negra em meio a enorme dificuldade que os partidos tem com este tema. Isto começou nos anos 80, em SP, RJ , BA – o formato de poder sem poder, sem recursos, mais com a presença negra, muitos militantes negros já estiveram em alguma forma de poder como a Seppir (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República). Esta é a soma de erros e acertos dos últimos trinta anos de militância negra e de um momento de transição entre a ditadura militar de 1964, a redemocratização. Tenho sempre uma atitude crítica positiva em relação à Seppir e vejo hoje o ataque à Seppir e à FCP (Fundação Cultural Palmares, do Ministério da Cultura) bem como às cotas nas universidades, como referência de que algo está sendo feito.
Neste sentido, parabenizo a Seppir e a FCP pelo que estão fazendo com tanto poucos meios e condições. Porém temos que, em eleições, ganhar votos, ganhar parlamentares, fazer bancadas, prefeitos, governadores, e assim, poder; no modelo Brasileiro de democracia representativa dotar nossos organismos de políticas públicas de mais recursos para a intervenção social, a exemplo do Ministério da Educação, da Saúde, dos Transportes, da Integração, em 2008, 2010, 2012, 2014, 2016, 2018, 2020. Temos de tentar, com todas forças, mudar este quadro. A Seppir e a FCP e os organismos nos Estados e nos municípios serão mais fortes tendo a força dos votos da luta anti- racista das urnas.
Afropress – O novo governador da Bahia, Jacques Wagner criou a Secretaria da Igualdade Racial, ocupada hoje pelo deputado Luiz Alberto, um quadro do movimento negro. Qual a expectativa com esta Secretaria e quais os avanços que já se pode destacar?
João Jorge – Não há novidade, estamos torcendo para dar certo. O Olodum vai ajudar a dar certo. Confiamos que o Governador Wagner e sua equipe podem contribuir para o combate ao Racismo na Bahia, avançar. Para isto terá que fazer sua equipe atuar em conjunto – cultura, educação, trabalho, saúde, fazenda, em pról das políticas públicas de reparação, pois a Bahia é o Estado brasileiro onde estas necessidades ficam mais evidentes. Sobre o desempenho dos secretários negros Luiz Alberto, Walmir Assunção, Carlos Martins vamos ter que esperar as novidades e que projetos os mesmos irão apresentar cujos benefícios mudarão a vida dos mais pobres na Bahia que são justamente os negros e mestiços.
Afropress – Como você pretende mobilizar a Bahia para coletar milhares de assinaturas em defesa do Estatuto da Igualdade? Como, na tua opinião, poderemos estender esse movimento por todo o país?
João Jorge – Estamos fazendo isto desde 2005. Entendemos que cada evento no Brasil deve ter este recorte de aprovar mecanismos de combate ao racismo e de promoção da igualdade. O Estatuto é uma destas etapas necessárias, naturais em uma nação que quer ser moderna republicana e democrática. Um começo, uma Carta da Igualdade parecida com a carta da liberdade na África do Sul e com as respostas americanas ao racismo. A outra parte faremos com nossa luta histórica desde 1.500 na maior nação negra do mundo ocidental.
Afropress – Faça as considerações que julgar necessárias.
João Jorge – Faço parte de uma geração que foi à luta pela causa dos negros e mestiços desta nação. Considero uma honra ser do Movimento Negro brasileiro e ter contribuído com tantos avanços com o Olodum, com o Fórum de Entidades Negras da Bahia e na minha obstinação em pról do Direito, da Justiça, da Igualdade e o melhor: democratizar uma nação que insiste em ser desigual sob a capa da igualdade formal positivista. Esta entrevista é uma rara oportunidade para um guerreiro do movimento negro do Brasil falar para além dos jornais e revistas internacionais. Mais dedico esta luta aos meus filhos e filhas e ao meu neto João Gabriel que mudará com certeza a vida do negro na Bahia e no Brasil. Axé

Entrevista de João Jorge (foto) ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira.