Os correspondentes internacionais de Afropress em Nova York, nos EUA, e em Londres, no Reino Unido, respectivamente, Edson Cadette e Alberto Castro, a pedido da Redação fizeram o levantamento de como o mundo reagiu à morte de Abdias, ocorrida no dia 23 de maio passado, aos 97 anos.
O papel e a importância do líder negro, praticamente ignorados nos grandes meios de comunicação e no telejornalismo das principais redes de TV do Brasil, foi ressaltado nos meios acadêmicos e nas mídias americana americana, européia e africana.
Deu no New York Times
A morte de Abdias mereceu destaque no New York Times, o mais importante jornal norte-americano, com o título “Abdias do Nascimento, Rights Voice, Dies at 97”, na edição do dia 30 de maio passado.
Em matéria do jornalista Bruce Weber, o jornal destaca a importância do líder e entrevista o professor e sociólogo, da Universidade Princeton, Edward Telles, autor do livro “Race in Another América: The significance of Skin Color in Brazil” (Raça em outra América: O significado da cor da pele no Brasil, em tradução literal).
“De 1.930 até os anos 90, o Brasil era considerado uma democracia racial, mas ninguém falava sobre raça e estava clara a hierarquia racial. As pessoas pobres eram predominantemente negras e as elites quase sempre brancas. Ele não teve medo de falar para as pessoas que a democracia racial era um mito. E disse isso por 60 anos”, afirma Telles, acrescentando que Abdias se tornou uma lenda.
Senado do Texas
O Senado do Estado do Texas, na sessão realizada no dia 27 de maio passado, aprovou a Resolução n.º 1220 em memória de Abdias, em que lembra as honrarias e prêmios recebidos pelo líder negro nos EUA, onde esteve exilado durante a ditadura militar brasileira.
A Resolução também recorda sua passagem pela Nigéria, México, Nações Unidas e as homenagens recebidas no Brasil, onde foi condecorado com a Ordem do Rio Branco, no grau de Comendador, a mais alta condecoração outorgada pelo Estado brasileiro.
No texto de oito parágrafos, os senadores lembraram a trajetória de vida do líder morto como dramaturgo, intelectual, acadêmico, político, jornalista, líder dos direitos civis e promotor da cultura dos afrodescendentes, destacando que Abdias “serviu a causa da igualdade racial com coragem, força e determinação”.
No penúltimo parágrafo do texto afirmam que Abdias do Nascimento foi uma inspiração e que viverá para sempre nos corações dos que o conheceram.
Instituto Martin Luther King
A revista do Instituto de Educação e Pesquisa Martin Luther King Jr, da prestigiada Universidade de Stanford, EUA, noticia na sua edição online (http://mlk-kpp01.stanford.edu/index.php) de 1º de junho a morte de Abdias do Nascimento.
A publicação cita Ollie A. Johnson, professora de Estudos Africanos da Universidade do Estado de Wayne, dizendo: “Não houve brasileiro mais importante que Nascimento desde a abolição da escravidão em 1888. Para os americanos o compreenderem e a sua contribuição, você teria que dizer que ele foi um pouco de Marcus Garvey, um pouco de W.E.B. DuBois, um pouco de Langston Hughes e um pouco de Adam Clayton Powel.”
Por sua vez, a historiadora Ana Lucia Araujo, Professora Assistente no Departamento de História da Universidade de Howard, Washington DC, recordou a recente entrevista de Abdias ao professor Henry Louis Gates Jr., no episódio sobre o Brasil da série da PBS, Black in Latin America (Negros na America Latina), e diz que juntamente com o rapper e ativista MV Bill, Abdias foi o único a fazer uma avaliação lúcida das relações raciais no Brasil.
The Root
A revista The Root (A Raiz), que teve como co-fundador, Henry Louis Gates Jr., noticiou a morte de Abdias destacando o seu percurso como dramaturgo, ator, acadêmico, ativista político e líder destacado na luta pelos direitos civis dos negros brasileiros.
Num artigo assinado por Nsenga Burton, a revista recorda o seu recente aparecimento no capítulo dedicado ao Brasil da série Black in Latin America e destaca que Gates foi a ultima pessoa a entrevistá-lo. O artigo repercutiu em outros portais norte-americanos.
Reino Unido
O Professor Anthony Pereira, director do King’s Brazil Institute na prestigiada King’s College, Universidade de Londres, escreveu: “Abdias do Nascimento foi um pioneiro na análise das relações raciais no Brasil e um dos primeiros a atacar o mito de “democracia racial”.
“O Brasil deve muito ao trabalho do Dr. Abdias, devido à sua persistência e coragem. Os avanços recentes do Brasil nas relações raciais são notáveis, mas provavalmente o Dr. Abdias iria continuar nos incentivando a evitar a complacência e a continuar a lutar pela igualdade racial e o fim dos preconceitos”, afirmou Pereira.
O Protest Whatch (http://news.protestwatch.org.uk/#), site de protesto e ativismo do Reino Unido, fez eco a morte de Abdias noticiada com destaque em 25 de maio pelo jornal The Root.
África
O principal diário angolano, o matutino estatal Jornal de Angola, noticiou a morte de Abdias, destacando a sua vida como dramaturgo e político.
O portal de informacão digital angolano-brasileiro África 21 destaca sua figura, citando Frei David dos Santos, da Educafro: “O Abdias deixa um legado fortíssimo. Ele tinha uma convicção: jamais o Brasil será melhor, se o negro não tiver melhores condições e oportunidades”, afirma Frei David.
Também o portal Angola 24Horas noticiou na sua edição de 31 de maio: “Foi-se o mais africano dos brasileiros”. O jornal “A Semana”, das ilhas de Cabo Verde publicou no mesmo dia um artigo de opinião com o título “Se eu fosse brasileiro queria ser como Seu Abdias”.
Na Nigéria a morte de Abdias também foi sentida e lamentada. O diário nigeriano Guardian cita o antigo governador do Estado de Osun, Olagunsoye Oyinlola, enfatizando o eminente acadêmico que foi o afro-brasileiro, alguém que deixou sua marca indelével nas diversas universidades em que foi professor visitante, particularmente nos Estados Unidos.
Oyinlola recordou o convívio que teve com Abdias no Brasil no ano passado no âmbito da preparação da I Conferência Global das Nacionalidades Negras e da Conferência Mundial dos Prefeitos Negros.
Para o ex-governador, a morte de Abdias é uma grande perda para todos os que tiveram a maravilhosa oportunidade de conviver com ele durante sua vida cheia de eventos caraterizados por lutas pela emancipação da raça negra e a sua extraordinária contribuição para a mudança das leis relacionadas aos problemas raciais.
No mesmo artigo o jornal cita o testemunho de Professor Tunde Babawale, que tratava o líder afro-brasileiro de Baba (pai), uma forma carinhosa e respeituosa de se tratar os homens mais velhos em certas regiões da África. Para ele apesar de sua idade avançada e saúde precária “Baba Abdias nunca cedeu na sua determinação para alargar as fronteiras da sua campanha pela igualdade racial e representação justa”.
“Ele estabeleceu, para seu crédito, uma formidável rede de relacionamentos entre os africanos e a diáspora. Era uma legenda por excelência através das suas convicções, escritas e ações. Legou para as próximas gerações do seu povo multirracial, pegadas inspiradoras e legados duradouros dignos de serem emulados”, comentou Babawale.
O jornalista, escritor e blogueiro angolano-português Orlando Castro transcreve no seu blog Alto Hama, de 1º de junho, com o titulo “Abdias e a Imprensa Lusa”, um sentido e direto desabafo do jornalista Alberto Castro, correspondente de Afropress, em Londres. “Em Portugal nenhum jornal noticiou até hoje o desaparecimento físico de Abdias do Nascimento, dramaturgo, acadêmico, politico e figura maior da luta anti-racista no Brasil”, lamenta Castro.
Mais homenagens
O correspondente de Afropress disse que Toyin Falola, prestigiado Professor da Universidade do Texas enviou-lhe um e-mail informando que no seu campus vai criar uma preleção anual para memorizá-lo, à semelhança do que fez com Lumumba.
Molefi Asante, um dos mais profícuos acadêmicos norte-americanos, afirmou, em ensaio em memória de Abdias, que não houve ninguém como ele no Brasil e nem mesmo nos EUA.
“Fosse ele uma figura do samba, do futebol ou do crime organizado, certamente ganharia espaço na imprensa lusa. Afinal, Abdias era inimigo público número 1 do lusotropicalismo e do paraíso racial que em tempos eram tão orgulhosamente celebrados como sendo marca exclusiva portuguesa”, conclui o correspondente Alberto Castro.