Rio – Gozando de boa saúde e com disposição renovada, completou 93 anos nesta quarta-feira (14 de março), Abdias do Nascimento, escritor, poeta, dramaturgo e maior líder negro brasileiro vivo. Abdias foi também o primeiro deputado federal a dedicar o mandato ao combate ao racismo e senador da República pelo Rio de Janeiro, eleito pelo PDT de Leonel Brizola.
Nascido em 1.914, ano em que eclodiu a primeira grande Guerra, em Franca, interior de S. Paulo, o segundo filho de Dona Josina, doceira, e seu Bem-Bem, músico e sapateiro, é neto de africanos escravizados.
A consciência do racismo chegou cedo para Abdias. Muitas vezes viu sua mãe brigar contra ofensas racistas. Ele costuma lembrar que a primeira grande lição que teve da defesa do povo afro-brasileiro aconteceu quando, ainda criança, viu sua mãe sair em defesa de um menino negro órfão que estava sendo espancado na rua por uma mulher branca.
Em 1.944, criou o Teatro Experimental do Negro (TEN), que além de abordar a estética e a identidade da cultura afro-brasileira, foi o responsável por formar os primeiros atores negros do teatro no Brasil. Foi o TEN que também realizou a Convenção Nacional do Negro em 1.945/1.946, que propôs à Assembléia Nacional Constituinte de 1.946, a inclusão de políticas públicas para a população negra e a discriminação racial como crime de lesa-pátria.
Como resultado, o Congresso brasileiro aprovou a Lei Afonso Arinos, que definia o racismo apenas como contravenção, situação que só foi mudada com a Constituição de 1.988. Foi também à frente do TEN, que Abdias organizou o I Congresso do Negro Brasileiro, em 1.950.
Com as perseguições desencadeadas pelo regime militar, Abdias teve de sair do país, em 1.968, indo viver nos Estados Unidos, onde foi conferencista e professor. Desde o exílio, participou da formação do PDT. De volta ao Brasil, lidera em 1981 a criação da Secretaria do Movimento Negro do PDT.
Deputado federal (1983/1987), e senador da República (1991, 1996/1999), foi depois nomeado por Brizola, como Secretário de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras do Estado do Rio de Janeiro (1991/1994). Mais tarde, em 1999, assume como titular-fundador a cadeira de Secretário de Direitos Humanos e Cidadania do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Em 2004, seu nome é indicado como candidato ao Prêmio Nobel da Paz.
No carnaval deste ano Abdias, casado com a historiadora Elisa Larkin Nascimento, foi homenageado pela Escola Porto da Pedra, que falou da luta contra o apartheid na África do Sul e saiu em um carro como destaque.
A Redação de Afropress homenageia o símbolo maior da resistência do povo negro à opressão, às humilhações e ao racismo, relembrando um dos seus poemas.
Exu
tu que és o senhor dos
caminhos da libertação do teu povo
sabes daqueles que empunharam
teus ferros em brasa
contra a injustiça e a opressão
Zumbi Luiza Mahin Luiz Gama
Cosme Isidoro João Cândido
sabes que em cada coração de negro
há um quilombo pulsando
em cada barraco
outro palmares crepita
os fogos de Xangô
iluminando nossa luta
atual e passada
Ofereço-te Exu
o ebó das minhas palavras
neste padê que te consagra
não eu
porém os meus e teus
irmãos e irmãs em
Olorum
nosso Pai
que está
no Orum
Laroiê!

Da Redacao