O dia finalmente chegou! E, hoje, com a pontualidade de um relógio, volta e meia vozes autoritárias vêm lançar a responsabilidade de nossa tragédia histórica sobre os ombros de nossos ancestrais. Como se, num extremo absurdo, culpassem os judeus pelos horrores do Holocausto.
Agora, por exemplo, ainda ecoando em nossas mentes as vibrantes comemorações pelo Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, somos surpreendidos com a publicação na página de Opinião de O Globo (22.03.07) de um artigo sobre escravidão e abolicionismo, assinado pelo Sr. Demétrio Magnoli; artigo no qual ele junta o nosso modesto nome ao dos veneráveis W.E.B. Dubois, Marcus Garvey e ao do ilustre professor Kabengele Munanga, rotulando-nos como propagadores da idéia de “vitimização dos africanos”, estes, segundo ele, os únicos responsáveis pelo tráfico atlântico de escravos, pelo genocídio que se abateu sobre o continente e pelo conseqüente subdesenvolvimento que solapou a África.
A honra foi toda nossa por tão venerável e ilustre companhia, apesar da desagradável circunstância! Porque, a pretexto do bicentenário do ato que, a 25 de março de 1807, aboliu o tráfico de escravos no império britânico, o autor do texto, deixando de lado todas as implicações econômicas e políticas do referido ato, resolveu canonizar o “cristão evangélico William Wilberforce” e o escritor político Thomas Clarkson, tidos como os grandes responsáveis por esse ato de caridade. E isto quando todos sabemos que o Ato da Abolição foi assinado, entre outras razões, pelo fato de que os plantadores indianos e chineses protestavam contra o monopólio do açúcar concedido aos seus concorrentes antilhanos e forçavam a abolição da escravatura nas zonas de influência inglesa; e porque as sucessivas rebeliões de escravos levavam a instabilidade principalmente à região do Caribe. Sabendo disso, então, habilmente, o articulista trouxe também, para o foco de seus elogios, a figura afro-descendente de Toussaint L’Ouverture, líder da independência do Haiti.
No que toca à responsabilidade no tráfico, escreveu o articulista que “os europeus, como regra, não caçavam africanos, mas os adquiriam na segurança de suas fortalezas costeiras”. E esse argumento é destruído segundo várias fontes. Primeiro, em História do colonialismo português em África, de Pedro Ramos de Almeida, vamos ver, nos primórdios dessa prática nefanda: homens do navegador Gil Eanes “cativando” mouros e “alarves”, nômades muçulmanos, no Rio do Ouro em 1436; a chegada, cinco anos depois, a Portugal dos primeiros cativos seqüestrados no Saara; Nuno Tristão em 1442 “filhando” cerca de trinta cativos no golfo de Arguim; Diogo Cão, em 1483, apoderando-se, no Congo, de quatro africanos sob promessa de restituí-los em quinze meses.
Em Os magnatas do tráfico negreiro, de José Gonçalves Salvador lê-se que, nos séculos XVI e XVII, caçadores de escravos por excelência eram os “tangos-maus”, os “lançados” e os “jagas”, sendo que as duas primeiras denominações aplicavam-se a portugueses adaptados aos sertões e aos usos e costumes africanos. Segundo Robert Conrad em Tumbeiros: o tráfico de escravos para o Brasil, os “tangos-maus” ou “tangosmãos” (o Dicionário Houaiss registra “tangomão” e “tangomau”) “adquiriam escravos em ataques e expedições a lugares remotos recolhendo tantas “peças” quanto possível através da fraude, violência e emboscada”.
Quanto à corrupção de africanos por europeus na gênese do tráfico de escravos, voltemos a José Gonçalves Salvador: “… os representantes da Coroa e os contratadores do monopólio ” – escreveu ele – “ao chegarem às respectivas áreas de atuação, providenciavam logo o envio de presentes aos conspícuos senhores [os governantes africanos], ofertando-lhes tecidos finos, objetos de adorno, algumas cartolas de vinho e até espadas, que eles muito apreciavam”. E mais: “O conquistador luso no princípio se limitava a solicitar-lhes auxílios em comestíveis, mas, depois, o de recursos humanos para as guerras e por fim o pagamento de tributos”. Mais ainda: “Esses chefes indígenas acabaram aderindo também aos resgates, de modo que vieram a converter-se nos principais traficantes dos ínvios sertões”.
Essa mesma linha de raciocínio é sustentada no livro Mãe África por Basil Davidson, segundo o qual os africanos aprenderam com os europeus a transformar gradualmente o tráfico de escravos numa impiedosa caça ao homem.
Sobre a compreensível associação, no texto ora comentado, do nome de Toussaint L’Ouverture ao dos abolicionistas ingleses, é bom lembrar que em 1807, o líder haitiano (cuja trajetória foi bastante diferente da vivenciada por outros heróis da Revolução) já havia morrido em circunstâncias suspeitas numa prisão francesa. E que a consolidação da Revolução Haitiana veio foi com Dessalines e Pétion (este, sendo inclusive um dos grandes financiadores da obra de Simon Bolívar), os dois certamente inspirados pelos espíritos africanos – nossos voduns, guedês e orixás – que, segundo O. Mennesson Rigaud, em Le rôle du vaudou dans l’indépendance d’Haiti ( Présence africaine, fev-maio, 1958, págs. 43-67) manifestaram-se em Bois Caïman, na noite de 14 de agosto de 1791, no grande ritual religioso e guerreiro, conduzido por Dutty Boukman, que deflagrou a luta armada, vitoriosa em 1º de janeiro de 1804.
Que nos desculpem Wilberforce, Clarkson e o Sr. Demétrio Magnoli… mas a data a ser comemorada é outra!
PS: O presente artigo estava na pauta para publicação em O Globo, em atenção ao princípio do “direito de resposta”, quando a polêmica envolvendo a ministra Matilde Ribeiro tirou sua atualidade e oportunidade. Mas ele é postado aqui, ad perpetuam rei memoriam, como dizem os juristas.
Texto reproduzido, com autorização do autor, de Meu Lote – ww.neilopes.blogger.com.br

Nei Lopes